-----------------------------------------A medo vivo, a medo escrevo e falo
-----------------------------------------António Ferreira (1528-1569)
Devolve-me os dedos
que ficaram dormentes
nas fendas da lua
quando as ruas derretiam
e o vento vermelho voava
deixando as pessoas nuas
quando a vertigem trepava
e a virgem voraz rasgava
a garganta que a habitava
Devolve-me o linho branco
que cobria os meus pruridos
curvas e contra costas
quando o aço do teu espaço
se sumia em arrepio
ao cheiro do meu grito
quando os olhos se apertavam
e visões de videntes vinham
em inventadas ausências
Devolve-me o certo de mim
as linhas que me desenham
um ventre que se sustente
e medos que me sobrem
ou ancas que não se dobrem
leva-os no mar para longe
onde não possam dançar
falar ou viver
no instante em que tudo -
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Olhares esguicham
furam-lhe as fendas.
Composto
bidimensional,
esmagado a céu aberto.
Imposto,
centro massivo
velho e excessivo,
pelas bordas quer fluir
o foco exige abrir.
Tenta o anão,
escorrega
no pé da criança,
agarra-se
ao hábito da fé,
mas cai
entre nós e o cão.
Silêncio.
Regressa pelo espelho,
ao fundo
reflecte o passado.
Pousa o pincel,
sai pela porta.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Mãe
Mãe, teus olhos de mártir e de santa,
teus gestos gemem, choram ao cantar;
tuas mãos enrugadas de tanto lidar,
torturam a minh´alma de dor tanta!
Mãe, ora teu peito coroado de espinhos,
e teus sonhos de amor ao luar, mansinhos,
tuas mãos outrora de perla e de rainha,
pungem minh´alma, deixam-na ceguinha!
Mãe, esse teu olhar perpétuo de brandura,
e tuas mãos, dantes rara formosura,
apagam-me meu viver, e meu sorrir.
Mãe, pois que seja escutado e atendido:
tenham de débil coração esmaecido
dó, para que serene teu eterno dormir!
(Antonio Pinto Oliveira, Luanda 1965 -
in "Eu e o Silêncio" , 1994-2008)
Nota: é sempre um sublime conforto espiritual
uma singela homenagem à MÃE , tanto mais em
época de Natal...
Votos sinceros de Felizes Festas para todos Vós.
teus gestos gemem, choram ao cantar;
tuas mãos enrugadas de tanto lidar,
torturam a minh´alma de dor tanta!
Mãe, ora teu peito coroado de espinhos,
e teus sonhos de amor ao luar, mansinhos,
tuas mãos outrora de perla e de rainha,
pungem minh´alma, deixam-na ceguinha!
Mãe, esse teu olhar perpétuo de brandura,
e tuas mãos, dantes rara formosura,
apagam-me meu viver, e meu sorrir.
Mãe, pois que seja escutado e atendido:
tenham de débil coração esmaecido
dó, para que serene teu eterno dormir!
(Antonio Pinto Oliveira, Luanda 1965 -
in "Eu e o Silêncio" , 1994-2008)
Nota: é sempre um sublime conforto espiritual
uma singela homenagem à MÃE , tanto mais em
época de Natal...
Votos sinceros de Felizes Festas para todos Vós.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Carícia de pantufa

Não está quieta a Princesa?
Culpa dela?
A aia que lhe fala
do menino junto ao bobo.
O pincel sem ter tempo.
"É de ouro o cabelo!
Tão brilhante fino moço" - diz a mãe
- "Mas agora está diferente!"
O pincel no óleo mudo
e o cão escutando calmo
que o tempo saia, solte o dorso
e a carícia de pantufa
afaste a pulga.
Tão quieta a Menina:
Da janela cega a luz
o corpete fino as argolas
do vestido. A pergunta do porquê?
do que pensa?
a inclinação indiferente da cabeça.
Na rosto algo vazio
o olhar ausente na Princesa.
Os reis de cinturas ao fundo no espelho
vendo tudo -
Poema menino
Éramos dois, seis, vinte.
Entrámos, inseguros, expectantes,
Ávidos de procura e de partilha.
Não era Dezembro, nem presépio havia,
Em cada um de nós
O poema menino adormecido.
Ouro, incenso, mirra.
Palavras, música, emoção.
A sós ou de mãos dadas,
O presépio pressentia-se.
Entrámos, confiantes, ansiosos
De dádiva, de revelação.
Éramos vinte, cem, muitos.
Na manjedoura,
O poema menino deitado.
Não porque era Natal,
Mas porque é Poesia.
Entrámos, inseguros, expectantes,
Ávidos de procura e de partilha.
Não era Dezembro, nem presépio havia,
Em cada um de nós
O poema menino adormecido.
Ouro, incenso, mirra.
Palavras, música, emoção.
A sós ou de mãos dadas,
O presépio pressentia-se.
Entrámos, confiantes, ansiosos
De dádiva, de revelação.
Éramos vinte, cem, muitos.
Na manjedoura,
O poema menino deitado.
Não porque era Natal,
Mas porque é Poesia.
Cavaleiro de moinhos
Ouvi-te os passos em palavras de regressos.
Pontuava-te,
Na esperança de que em versos
A tua cosmogonia não me falhasse.
Conhecia-te a poeira do cansaço,
as batalhas perdidas e os moinhos que enfrentaste.
Soubesses tu, cavaleiro,
Traçar-nos em linhas mais certas
Deixar-me em portas abertas
Com a certeza do regresso.
Confesso
não te amar talvez inteiro
Apenas parte das viagens e as palavras de cativeiro.
Mas sei-te nas cores da audácia
e em traços de ousadia
as sombras soltas de glórias
e as horas de maresia.
E agora nobre soldado
Repousa nas madrugadas
e em espadas
e horas distantes.
Nas armaduras antigas liberta os moinhos gigantes.
E nas batalhas de areia
refaz o mundo em avesso
Que eu espero-te, Dulcineia,
Nos versos do teu regresso.
Maria Inês Beires
(queria ter dado um a toda a gente não por achar que é um bom poema mas por ser o mais recente e para se lembrarem de mim. de qualquer maneira, depois de ter desistido de passar um a um a limpo, resta-me deixar-vos aqui no blog e desejar-vos um bom natal e uma vida repleta de cavaleiros e Dulcineias.)
feliz natal!
Pontuava-te,
Na esperança de que em versos
A tua cosmogonia não me falhasse.
Conhecia-te a poeira do cansaço,
as batalhas perdidas e os moinhos que enfrentaste.
Soubesses tu, cavaleiro,
Traçar-nos em linhas mais certas
Deixar-me em portas abertas
Com a certeza do regresso.
Confesso
não te amar talvez inteiro
Apenas parte das viagens e as palavras de cativeiro.
Mas sei-te nas cores da audácia
e em traços de ousadia
as sombras soltas de glórias
e as horas de maresia.
E agora nobre soldado
Repousa nas madrugadas
e em espadas
e horas distantes.
Nas armaduras antigas liberta os moinhos gigantes.
E nas batalhas de areia
refaz o mundo em avesso
Que eu espero-te, Dulcineia,
Nos versos do teu regresso.
Maria Inês Beires
(queria ter dado um a toda a gente não por achar que é um bom poema mas por ser o mais recente e para se lembrarem de mim. de qualquer maneira, depois de ter desistido de passar um a um a limpo, resta-me deixar-vos aqui no blog e desejar-vos um bom natal e uma vida repleta de cavaleiros e Dulcineias.)
feliz natal!
Retrato em luzes.
Quereria pintar-te só, pequena Margarida,
Mas tão pequena, tão bem vestida
não serias tu gravura de criança.
O meu pincel reclama, bela infanta
que te rodeiam luzes e expressões
Que as cores se vão em longas ilusões
E o branco recai puro sobre ti.
Em verdade a luz me engana aqui tão perto.
São muitos os esboços que te cercam
Como então pintar-vos para que não vos percam?
Pintei-vos então branca, como sois,
Como vos sinto hoje e vos hão de encarar depois.
Pois se a pureza se confunde em quadro aberto
Cercar-te em canto escuro e companhia
E pelas cores traçar-te bela e tão pequena
que o branco só te torne mais serena
E de ti se desvanessa a demasia.
Maria Inês Beires
22/12/2008
Metafísicas caninas

Vestido de orelhas e focinho
Na pele de cão
Alheado dos cuidados, caracóis e volteios
À volta, Arte, Nobreza e Fé
Pintam surdinas e presságios futuros.
Na quietude deste canto
Farejo reflexões filosóficas
Rosno baixinho transcendências metafísicas
Ai...aquele osso suculento do almoço
E o pé de seda no meu dorso!
Teresa Almeida Pinto, António Luíz e Marlene
desejo de princesa
- diz-me princesa,

o que mais desejas ?
correr e gritar, corada e descalça,
o palácio de ponta a ponta.
ser menina de faz-de-conta.
despentear a brincadeira,
sem rendas e sem laços.
ter o riso e a chuva nos braços.
- não pode ser princesa,
que ainda te descompões.
Raquel Patriarca
vinteedois.dezembro.doismileoito
As meninas

Atrás de cada porta há um fantasma
e por baixo das saias da pequena infanta erguem-se castelos com escadas de açúcar
não levam a lado nenhum porque nada leva a lado algum.
Velásquez vê as notícias em tela de marca - Portugal foi perdido e das Américas vêm pouco ouro,
a seguir dá "apocalipse now" depois de umas quantas guerras
A História Universal é de um tédio avassalador e
o tempo não é passageiro porque o tempo não existe,
se existisse também não seria passageiro
Velásquez e as meninas hão de ver com pouco interesse agora num plasma
é perigoso desenhar
no quarto ao lado as infantas brincam no hi5 e alisam os cabelos tristemente.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Vontade
“a medo vivo, a medo escrevo e falo”
António Ferreira, 1528-1569
António Ferreira, 1528-1569
E se é
verdade o que dizem
sobre o amor não ser eterno.
É devolver o que se sente
ou se pensa que sente,
já sem certeza de nada,
e guardar apenas a memória
de um mundo enganado de
sobre o amor não ser eterno.
É devolver o que se sente
ou se pensa que sente,
já sem certeza de nada,
e guardar apenas a memória
de um mundo enganado de
perfeições inventadas.
E aquele a quem se ama,
E aquele a quem se ama,
composição de
conceitos
próprios,
torna-se entidade livre
de à força ser
imagem e significado
de quem
precisa de o amar.
E se é
verdade que o amor não é eterno.
Pouco importa,
que hei-de
manter as perfeições inventadas
por teimosia de
vontade,
que não escondo nem calo.
Mas entretanto,
a medo escrevo, a medo vivo e falo.
que não escondo nem calo.
Mas entretanto,
a medo escrevo, a medo vivo e falo.
Raquel Patriarca
dezasseis.dezembro.doismileoito
A hora mais exacta
Imagens
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara,
sentindo aproximar-se a hora
exacta.
Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956-)
in Imagens (2000)
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara,
sentindo aproximar-se a hora
exacta.
Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956-)
in Imagens (2000)
Carta de Natal a Murilo Mendes
Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -
E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal
Para ligar o eterno e este dia.
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
Sophia de Melo Breyner Andresen (Porto, 1919-2004)
in O Nome das Coisas (1977)
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -
E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal
Para ligar o eterno e este dia.
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
Sophia de Melo Breyner Andresen (Porto, 1919-2004)
in O Nome das Coisas (1977)
O poeta ausente o poema ao lado

Pintura a pastel de José Ferreira
Dissecar. Abrir o poema.
Os versos despidos.
O autor presente.
A procura de caminhos da Nascente
entre fragas e salgueiros, a água
corrente, degelo estalado, caldo
e as gotas do orvalho no acordar
da manhã, estremunhado.
O poeta ao lado.
As letras, metáforas, suspensão
parada de segundos e de novo
vários eles descendo a encosta,
passando junto à casa de tábuas
sem portas; a escada por fora
janelas na entrada.
Alguém diz: - São mais bonitos
os cadernos, as argolas mais
a jeito. Não há quadriculado.
Brancas as folhas, os poetas.
Lembram-se: A Tabacaria.
O poema ao lado.
Aliviado. O poeta diz:"- Não é
costume desmontá-lo." Mas tenta-se,
desfia-se, desaperta o cordão
assenta as emendas nas linhas,
"âncora",alisa a renda, caricia
o bordado.
O poeta revelado.
Aguém se acomoda, foge a cadeira,
o guizo dos ruídos interrompe o
juízo. A sala é de ideias régias
a mesa oval, na pintura da parede
desvela-se um pedaço de tela,
a falha no óleo granizado.
E o poeta alheado.
Olha para o chão, escuta, procura,
a ínfima partícula, a premonição:
não ter usado a palavra certa;
a estrofe manca, a ideia fraca,
as reticências, um ponto final.
A vela acesa.
Não é távola nem redonda, mas há quem mande.
Não há malhas, nem elmos, nem espadas.Os
cadernos, as canetas, nas mãos ao lado
e os espaços brancos das palavras moças.
Dez mais dez
ouvidos pendurados, no elevador dos guardanapos;
sobem e descem nos lábios dos versos,
à mesa dos poetas.
E ele ausente.
Guardando um pouco o segredo,
da musa e da semente!
José Ferreira
27 Novembro 2008
Adeus
Partiu o comboio
Vi-o dançar no trilho
Despenteado
As árvores ao lado
Caindo as folhas
Como em mim
O comboio desapareceu
E as árvores ali despidas
Como eu
Em pé
Eu na estação
E a solidão
E eu nua de ti
Comboios partem, comboios vão
E o sentimento cresce lentamente
Um resto um sedimento
Comboios chegam
E eu na estação
O vento varre os medos dos outros
Eu sou transparente
Fico ali
Como tronco de árvore
Despida de ti
A Primavera há de vestir
As árvores de todas as flores
Mas eu sem nada
Ali na estação
Sei que há comboios que vêm e que vão
Mas é certa esta dor
E eu já não te visto, nem te tenho visto
Nem Outono, nem Inverno, nem Verão
Visto sempre e só a solidão
E a longa certeza dos dias compridos
Vi-o dançar no trilho
Despenteado
As árvores ao lado
Caindo as folhas
Como em mim
O comboio desapareceu
E as árvores ali despidas
Como eu
Em pé
Eu na estação
E a solidão
E eu nua de ti
Comboios partem, comboios vão
E o sentimento cresce lentamente
Um resto um sedimento
Comboios chegam
E eu na estação
O vento varre os medos dos outros
Eu sou transparente
Fico ali
Como tronco de árvore
Despida de ti
A Primavera há de vestir
As árvores de todas as flores
Mas eu sem nada
Ali na estação
Sei que há comboios que vêm e que vão
Mas é certa esta dor
E eu já não te visto, nem te tenho visto
Nem Outono, nem Inverno, nem Verão
Visto sempre e só a solidão
E a longa certeza dos dias compridos
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