quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A Invenção do dia claro (Excerto)

Caderno de Almada Negreiros

(Texto de Alamada Negreiros em português original)
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.

 * * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

 * * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

lady Orlando

                                         Fotografia Rodney Smith

lady Orlando, quando uma porta se abre, abre-se um centro.
o contexto perde nitidez na descoberta de um interesse, um segredo, um desígnio.
é humano, e o que é humano interessa.
os pássaros voam e não compreendem, e o mesmo acontece
a todos os animais teleologicamente impávidos pela sua natureza.
o humano agita-se nesse vento e sublima  –

será o poema que te faz atravessar fronteiras:
esse rebuliço de palavras escritas no seio
aprisionado de manchas antigas e linhas cruzadas
nascido no campo e dirigido pelas urbanidades
entre a revolta Otomana e o exagero ritual das embaixadas?

lady Orlando, a semana passada, precisamente à uma da tarde, não havia árvores.
nem o pinhal alteado em direção à margem.
nem mesmo ervas sem geometria, rebeldes e propícias a um equilíbrio de gotas de água.
corrias de forma precisa pela ruas aglomeradas de Londres, em direção ao cabo  Horn
impulsiva e fremente, levando na memória palavras, as palavras exatas
que vencem distâncias e voam, voam sem asas –

procuravas, procuravas
uma outra porta, um balcão e a velocidade de um funcionário
na transformação técnica das palavras: a telegrafia da cidade.
a técnica é humana, e por ser humana interessa.
corrias, corrias
em tensão crescente, desproporcionada
entre o desejo e a negação da realidade –

lady Orlando, ninguém te descobre, alcança, domina
quando és farpa e singras
através de portas sólidas ou invisíveis
nessa decisão fática. uma inevitável natureza assim o determina –


quando atravessas essa porta, lady Orlando, sentes o fogo delirante.
a metamorfose aproxima-se, como se de novo Sasha e o navio
a necessidade indizível de mudança: os calções pelo vestido –

tantos eus, poéticos e indescritos, lady Orlando –

a porta, um centro, vozes, miríades de luzes
um uivo, submissão e a extensão de um domínio –

 josé ferreira  7 fevereiro 2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Clandestinidade



Horas nocturnas de libertação.
Todos os carcereiros na prisão
Do sono.
Dono 
Dos sentimentos, 
Do instinto 
E da razão,
Sonho, 
Penso
Imagino.
Faço o pino
Deitado.
E às vezes é-me dado
Neste desatino, 
Por invisíveis mãos
A que nem sequer posso agradecer,
Um poema obscuro
Que de manhã, à luz  do sol, procuro
Claramente entender

Miguel Torga Diário XIV  (1987)