sábado, 29 de junho de 2013

escrevo-te (XIX) - bem sabes como sou um barco


Renoir

escrevo-te sobre os rios inquebráveis
e bem sabes como sou um barco
sem remos nem margens navegando nas tuas águas calmas.
debruço-me sobre a prata reflexiva que me devolve os olhos
que me transforma os dedos numa pintura oscilante
e de vez em quando falo a dois palmos do peixes
que me visitam e sabem das minhas tábuas
dos meus nós de madeira, das minhas quilhas viajantes
da minha indelével marca como fios sobre o  rio –

nas tardes mais quentes existe a sede minuciosa
de pousar no teu corpo sem receio dos outros barcos
como numa sonata für elise, surdo,  mas entendendo tudo
porque os teus olhos ensinam, estão cheios de sentido
sim,  como se os únicos habitantes na superfície
nos picos da Europa, nos Evereste do mundo
e no ar mais puro –

no Brasil, no Egipto, na Síria ouvem-se gritos
e as almas que se perdem são gotas de vidro
deixam lanhos, abrem a pele e deixam sair sangue e sangue.
não há ninguém que possa recusar estas fotografias vivas
em movimento, coleccionadas como cromos
numa existência dos média - os heróis das notícias
que se querem péssimas para que surjam vítimas 
se aglomere o vazio
para que se faça a paz pela dor alheia em sacrifício –

escrevo-te sem o tabu dos motivos
posso beijar-te os pés numa suavidade segura
envolver-te o rosto na distância milimétrica dos dedos
e sendo um barco segurar o rio
mas não fecho as cortinas sobre as matérias  escuras
apenas as guardo nas prateleiras de cima
para que todos os nossos minutos se cruzem
se multipliquem, cresçam como feijoeiros gigantes
e subam acima do físico –

sabes, escrevo-te sem explicar a química
e gostava de conhecer o mágico, aquele que decide
 o dia do aroma de glícinias
o dia da revolução tranquila
o dia dos duetos, entre viola e violinos
entre um samba de Jobim e um concerto de Paganini –

sabes, escrevo-te neste aparo que segue o invisível da tinta.
as palavras nascem antes, emergem numa urgência de brilho
como notas de música ou aguarelas impressivas
e fundem-se em símbolos
na longitude da carícia, na latitude linha a linha –

escrevo-te na luz de um foco, na boca de cena
de uma dramaturgia  que não termina
e quando a luz se apaga
os teus braços misturam-se no sonho
na cúpula de cima
rodeiam o barco 
e trazem lábios que deslizam -

josé ferreira  29 junho 2013 

Bordar poemas quando os poemas saem de passagem

                                     José Ferreira (pastel baseado em Vermeer)

                                                   o que fazer quando tudo arde?


As janelas abrem
os poemas saem de passagem
versos e rimas; ritmos símios
trajectos de lianas nas selvas
da mensagem.

Vertigem sem sinal antes do fim de página
nas costas de um formulário, benefício
exacto de um suspenso final
abrupto se descubro
que se esconde a veia
revolteia o tema
no consumé das palavras, nas saladas
das ideias, ratoeiras de pontes,
vidas e contos, cegonha de fontes,
bacia das baías, promontório,
esquinas das memórias
Rainhas!

Seguem os ventos, a rosa dos sentidos
-sérias ou traquinas as melodias.
farinha de afectos ou castigo,
ironias desfolhadas aos pedaços,
filosofia; jardins, vestidos,
maresia,estrelas, lua,
recantos e cortinas, os contornos
e os traços das Marias!

Pesam de socorros como lastro
os poemas.

Mares de surpresa,
fluido plâncton de diademas,
anémonas e corais, golfinhos
e baleias, coloridos palhaços
tropicais de leme e brânquias.
Melodias de Corelli, paraísos
de túnicas, finas musas
no cintilo de cristais!

Às quartas-feiras os poemas
e as magias, bençãos divinas,
esquiços de traços e linhas,
sensíveis liames imersos
na descoberta das fatias;
bolos de cereja e licores,
lumes vivos, pés mansos razias,
acertos, partilhas unidas.

Quando chega a noite
abrem-se os poemas
um vaso de estrelas
a planta do céu
o aroma dos dias!



josé ferreira  dezembro de 2008

segunda-feira, 24 de junho de 2013

poema da noite de S.João

                                          imagem da internet  


cheiravas a manjerico
o teu rosto trazia a suavidade da seda
os olhos brilhavam mais do que a lua
que sendo assim se tornava pequena
para o tamanho do meu mundo -

foi como se um puzzle se completasse
a peça de muitos milhares que faltava
e os meus braços abraçaram-te tanto
no teu tamanho exacto  -

foi como se um anjo descesse à terra
e não fosse a madrugada
de novo a noite grande imensa
de novo a noite de balões que sobem
de foguetes que disparam
de novo o rio, a ponte e a cidade
de novo a noite iluminada -

josé ferreira 24 junho 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Plaino


Estou cansada demais
não há, vedo memória
Nunca se abrir passado
que
num segundo sequer inutilize!

Noutra altura
contagem decrescente
Quem tinha dito esquecesse
era o que não queria

Amanhã, alguém me chame
aquela flama...
Por tudo o mais, outros dias...

domingo, 2 de junho de 2013

Um poema de Baudelaire - À Une Passante



À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


Charles Baudelaire lido aqui



A uma passante

A rua ia gritando e eu ensurdecia.
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com mãos sumptuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado com um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efémera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

To a Passer-By

The street about me roared with a deafening sound.
Tall, slender, in heavy mourning, majestic grief,
A woman passed, with a glittering hand
Raising, swinging the hem and flounces of her skirt;


Agile and graceful, her leg was like a statue's.
Tense as in a delirium, I drank
From her eyes, pale sky where tempests germinate,
The sweetness that enthralls and the pleasure that kills.


A lightning flash... then night! Fleeting beauty
By whose glance I was suddenly reborn,
Will I see you no more before eternity?


Elsewhere, far, far from here! too late! never perhaps!
For I know not where you fled, you know not where I go,
O you whom I would have loved, O you who knew it!


— William Aggeler, The Flowers of Evil (Fresno, CA: Academy Library Guild, 1954) lido aqui