segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

memória viva

Resultado de imagem para elizabeth adela stanhope forbes
Elisabeth Forbes, The Leaf, 1897-1898

sabes, no silêncio são memória viva as pedras flamejantes da lareira grande
mãos invisíveis de cobertor que confortam as faces de rosas em brasa –

faz algum tempo crescia em mim este destino, este cavalgar de ondas
como o navio de espelhos de um outro poeta, sem ritmo e sem regras
no único princípio de um pensamento: não devemos guardar as palavras
mesmo que digam muito e nunca digam tudo nas fronteiras de signo –

de novo a ordem incerta dos versos incendeia-me os sentidos e as mãos voam
na forma que te define: as curvas do ombro, o caminho conhecido de um sinal
a extensão longilínea, até onde o braço desliza –

sabes,existes magnífica,sempre que os olhos se fecham nestas planícies sem limites
e, se a perfeição é um mito, subsistes única, ali tão perto
singular e significativa, naquele fragmento vivido por onde flutuam os jacintos
aromas, gestos de sinfonia e o som dos violinos –

não imaginei as ondas altas, o sal e as algas em agitada dança
procurando essa praia de areias movediças. 
e, tudo começou na tua natureza de seres sensível
antes de ser Natal e antes de ser um primeiro dia
quando recolhíamos pinhas em chão de carumas, naquele sussurro de sorrisos -

para ir além da promessa, das folhas estaladiças, da superfície
ao luminoso lugar onde se desvela a utopia –

josé ferreira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Luz na Escuridão

Fotografia daqui https://blog.myheritage.pl/2013/12/swieta-konkurs-na-najstarsze-zdjecia-swiateczne/




Não sabia que é tão bela
a escuridão se nela habitam
todas as estrelas
que iluminam o assombro
que tantas vezes me dá
sentido à vida

É que o jorro de luz
é tão intenso
que me deslumbra
e me lembra o Natal
da minha infância

Surpreende sempre a magia –
                                          Dezembro, 2016

                                      José Almeida da Silva

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tripas coração tantas memórias


Tripas coração tantas memórias 
O mar longínquo dança-lhe no olhar 
É longe o porto para o alcançar 
E oculta grande parte do caminho. 
O Infante sabe-o mais que ninguém,
 
E o que é preciso também e solta a 
sua súplica – E a carne para levar? 
São muitas as bocas a comer, e os 
Nautas hão-de ser heróis por dar a 
Saber ao Mundo novos mundos 
Estendendo ao longe o nosso Império. 

Quem não faz das tripas coração 
Para um tão nobre intento invicto? 
– O Porto empunhou o estandarte:
 Repartiu e escolheu a menor parte. 

Assim pelo coração se fez tripeiro –
2011.03.15
José Almeida da Silva

terça-feira, 26 de abril de 2016

imagem de 

Envelheceu a cama
mas os meus cabelos escurecem
a pele fica mais lisa
as ideias curiosas como criancinhas
saltitantes de olhos esbugalhados
porque tudo isto é um milagre.
E a cama rangendo
sempre que me viro –
gosto de deitar-me de um lado
depois do outro repetidas vezes
na noite longa
– um lado e depois o outro.
Às vezes durmo de barriga para baixo
como quando era pequena.
Envelhecer é sonhar com
ser criança.

A cama queria ser berço.
Eu queria caber no colo quente da minha mãe.

Marta Pais de Oliveira
publicado AQUI 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

eu do avesso

Digital Art: Federico Bebber

o avesso do meu avesso não sou eu é o avesso
do avesso de eu.
na matemática é diferente
a negação da negação é uma operação simples
e peculiar e única que não acrescenta
nem retira atributos.

mas com o avesso do meu avesso nada se passa
assim. o meu avesso invade-me serve-se
dos fantasmas que me habitam e usa a sua magia
para me ampliar o desassossego. e o seu avesso
que é o avesso do avesso de eu
transmuda com a mesma agudeza
o efeito do anterior. por isso cada vez mais
eu me confundo
irremediavelmente
com o meu desassossego.

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Livro para Luaty Beirão

A liberdade começa nos teus braços 
Quando olhas o mundo de asas abertas
E vais à descoberta das estórias 
Escondidas num livro de gestos proibidos.
Sacodes os ruidos que te abafam
E escutas os sons das silabas em movimento
Há palavras estendidas no chão vermelho
Da terra quente
E tu lês,
até ferirem teus olhos,
A distância que vai de ti ao sopro longinquo de um rubro cravo
De abril do outro lado
Do mar português _
E no rosto vendado
Da verdade
Escreves
quanto dói
A liberdade

ana margarida borges

terça-feira, 5 de abril de 2016

Leite-Creme


Mostrar-te Leite-creme 
é um prazer - e fácil: 
açúcar à colher, 
leite a ferver, 
em poalha a farinha 
e muito grácil.

Na cozinha, 
os teus olhos: 
duas chávenas meias
de razão.
As palavras totais 
e todas claras. 

Não te posso, infinita, 
proteger, 
evitar-te o fogão. 
Mentir-te sobre, às vezes, 
minha filha, 
a vida: 
um batedor sem varas

Só deixar-te
poalha de farinha:
amor 
em Via-Láctea. 


Ana Luísa Amaral in Epopeias 

domingo, 3 de abril de 2016

Adoro ler-te

Imagem: Fiona Banner 

Adoro ler-te,
nas entrelinhas das tuas frases.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus gestos.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus toques.

Adoro ler-te.

Teresa Freitas, in  therasia 

sexta-feira, 25 de março de 2016


Tenho as mãos cheias de dunas
e saudades
As mãos cheias de possibilidades
e um mar para navegar.

As dunas entre mim
e as possibilidades.

Tenho uma inquietação idunável
e um mas … [sempre um mas]
a impedir que
o mar se faça
futuro

Teresa Almeida Pinto
Foto de Filipe Carneiro, selecionada pelo FineArt-Portugal

quinta-feira, 24 de março de 2016

ilustração de Chris Mars

Doí-me como te torturas,
descarnando-me da tua pele,
no ensejo vão
de me fazeres
ferida

Teresa Almeida Pinto 

sexta-feira, 18 de março de 2016

pedaços

Imagem de Derya Qasem 

hoje
colo os pedaços das memórias
enlaçados
ficam poemas de Pessoa e Sena
em meadas de aço
e aguarelas de Cruz suspensas
em azul de espanto
e as cantatas de Bach e as árias de Puccini
e tantas e tantos outros

e ficam os códices que toquei
com luvas brancas
irrepreensivelmente limpas
que me transportaram a passados
remotos

ao todo faltam porções de vida
diluída no tempo
e sobram fragmentos de arestas ácidas
que recupero dos momentos
sombrios

impossível desconjuntar esta amálgama
imperfeita
de ferro e algodão

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite

Ana Luísa Amaral  traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite. 
A Ronda da Noite

(clicar no link para aceder ao video)

sexta-feira, 11 de março de 2016

NECESSIDADES



é necessário algum caos como
gavetas abertas, um garfo entre as colheres
despentear o mundo com toda a certeza
também beijar os olhos logo ao nascer
falo de todos aqueles que for possível, sim
esquecer o que esperar se tudo são
lírios e delírios
e o que há mais

é necessária a fúria de uma onda enorme
olha como transforma quem a vê da praia
ou do farol ou do carro
podem ser crianças besuntadas de gelado
podemos ser nós a secar lembranças na pele, somos
e apesar do medo do abismo
queremos vê-lo para contar a todos como é
mas a nós não

são necessárias palmeiras altas para subirmos
a essa ideia que se escondeu no fim de tudo
num sonho dentro de um sonho e outro
onde pedimos licença mas somos selvagens
animais cheios de dúvidas, tantas
– não arrumes o garfo
– não?
– sim


Marta Pais de Oliveira

domingo, 6 de março de 2016

Foi assim.



Foi assim.  
No silêncio da história. Não poderia ser de outro modo.
Guardámos a lua.
Em caixa de papel mistério. E laço de coração.
Ficou-nos a memória.
Foi assim 

Teresa Freitas


Soneto de Lentilhas


  Picar uma cebola com cuidado
  Colocar com azeite num tachinho
  Levar a refogar um bom bocado
  Até ficar com toque coradinho.
 
  Depois de preparado o refogado
  Retirar as lentilhas do frasquinho
  Juntar-lhe a salsa e o pão ralado
  E três ovos batidos, mas pouquinho.
 
  Nozes picadas leite ao natural
  Em 3 -1 -2- 1 -1- medida certa
  Vão completar a parte principal
 
  E antes de ir à fornalha bem esperta
  Uma pitada de pimenta e sal.
  Eis aqui a fórmula descoberta!


M. Céu Silva (SLV)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


A não perder:

DIA 26, SEXTA-FEIRA
22h00 - Mesa 9
O escritor mente, o leitor acredita

Álvaro Laborinho Lúcio
Ana Luísa Amaral
Jaime Rocha
Javier Cercas
Mário de Carvalho
Carlos Quiroga-Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)



DIA 27, SÁBADO
10h00 - Mesa 10
Quantos livros tem um livro

Carmo Neto
Cristina Valadas
João Paulo Sousa
Raquel Patriarca
Vergílio Alberto Vieira
João Gobern - Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)

Programa Aqui

domingo, 14 de fevereiro de 2016

NÃO


Não escreverei um poema que diga
Meu amor,
meu amor.


Marta Pais de Oliveira


CASAS


sobre as casas o que sabemos
que comem insetos por vezes humanos
aos pássaros não chegam
– voam depressa –
respiram de noite e de dia
quando a luz é maior
e a cor inteira



Marta Pais de Oliveira 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

DO JUSTO EXCESSO OU DOS PEQUENOS FURTOS

imagem daqui 

Um dia, num poema,
ao servir-me do verso de um poeta,
cortei-lhe uma palavra

Não foi por mal que censurei o verso:
a distracção, a havê-la,
foi em puro desvelo,
um sentir-me tão quente e abraçada
que lhe errei o seu espaço
por amor

Não foi por mal,
não pensei que esse verso tinha tantas palavras a cobri-lo,
que uma palavra a menos:
ínfimo cobertor em noite
morna

Mas o espaço sem forma
de o verso lá não estar
podia de entre as pedras
fazer nascer a mais rasante cor,
o justo excesso, e mais por isso ainda,
a terra onde vivemos:

bater quase invisível
de haste de girassol,
abrindo brechas pelo chão
do mundo

Não foi por mal o corte da palavra
no verso do poeta,
nem quem depois olhou o meu poema
viu crime de maior

Mas hoje ainda
o roubo me persegue:
pensar num cobertor de sílabas tão leve
sustendo uma paisagem
com sons e gente
ao fundo

Ana Luísa Amaral in E Todavia 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Foto: Gary Lai 

Casulo
que não foste
casa
Descasaco
de mim
Casa
sem asas
onde quase
não voei

Teresa Almeida Pinto  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A casa que habito

A casa que habito
não tem lembranças nos ladrilhos
não tem porta presente
porão de passado
janela pro futuro

Na casa que habito
as notícias não passam da soleira
com o irônico capacho de bem-vindo
– todos pisam na hospitalidade
e beijam a porta na cara –
as ‘novidades’ amarelam do lado de fora
e são abandonadas em alheias varandas
que o mundo insiste em enganar
com tragédias velhas
repetidas à exaustão

Na casa que habito
ouço o sussurro das tábuas
o gemer dos pregos
nada é concreto
tudo é devaneio
acredito em papais noéis
só não tenho chaminés

Na sala há uma cadeira de balanço
que só vai e nunca volta
No quarto, uma cama de casal solteira
com uma mancha de arrependimento no lençol
Na cozinha, o relógio está sempre faminto
com os ponteiros devorando as madrugadas
e regurgitando escuridões nas horas de luz

A torneira da pia do banheiro
goteja solidões
a banheira é colo
o corpo nu fetal
o eco dos azulejos embaçados
e o choro primordial
de um parto sem útero

A casa que habito
não está em rua alguma
encontra-se em um eu desconhecido
na alameda dos ausentes,
sem número.



André Telucazu Kondo

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

madrugada


não procuro nada em ti
só o hábito da
tua roupa
palavras não
silêncio

entre ti e ti
habito eu

faltas-me tu em ti
nas escolhas da madrugada


não procuro nada em ti
só o tu em ti que sou eu

Teresa Freitas
Janeiro, 2016



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Três Cenário na Cidade



Numa tarde de sol e Abril
a cidade atravessa-se
diante dos meus olhos

Um pai amarrotado pelo trabalho
leva o filho na mão direita.   
A esquerda,
deslarga,  discreta
o que lhe resta de esperança

Uma gorda festeja o seu vestido vermelho.
Feliz na medida do possível
porque felicidade é assunto que não conhece,
mas já ouviu falar disso

Um prédio que já nem andaimes atrai, 
lembra que outrora teve vocação para loja de terylenes  
Agora pinga estragos, pinga o passado
pinga o que resta de sol e Abril na cidade.


Teresa Almeida Pinto 
19.Abril. 2014

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

a casa sem raízes

     imagem daqui

sempre que as nuvens sobressaem
observo os pormenores redondos sem vincos definidos.
a leveza em equilíbrio, descontínua.
estamos sempre em viagem, em aberto, não existe o vazio.
o vazio é uma abstração humana em certos dias.
a interminável serpentina do pensamento avança no interior daquele comboio de Kundera
de estação indeterminada: o comboio que leva a tua história, as tuas mãos e o teu rosto
naquela porta que se abria, rodando o trinco sem ruídos
sem a brutalidade das engrenagens que gritam.
as janelas estavam vivas e as paredes não existiam. era uma casa física sem espíritos.
o mundo era só um, de raios azuis, de lábios vermelhos que se entendiam, sem ideologias –

quantas noites e quantos dias. e depois aquela telha partida, uma pinga, duas pingas
um balde de plástico que se enchia. quantas noites e quantos dias, o silvo do maquinista
a estufa de carvão, o fumo, mas o fumo é indício, o comboio partia –

não consigo fechar os ouvidos, tapar a boca daquela noite, o candelabro sem luz
um tridente escondido a subir a avenida. era inverno e tu sabias -
as nuvens rodeavam a laranja azul, esse planeta de luzes –

receava os símbolos e as tricotomias, colecionei as imagens aditivas, num rodopio.
mas não pude adiar, voltei ao mundo das palavras cristalinas:
a linha contínua que encobre e descobre, como um tricot das Ilíadas.
havia muitas, sabias? pelos caminhos, em mnemónicas repetidas –

as palavras e os teus cabelos são incontáveis, infinitos, finos, fogem e deslizam.
algumas palavras como os teus cabelos são sublimes –
é inverno, não vou contar as noites nem os dias. prefiro tocar nos teus cabelos e senti-los.
os sentidos são o oposto das numerologias  e os números não voam, não se elevam acima
são o chumbo de todos os símbolos, o zero do pensamento –

sopra um vento frio que movimenta o ar pela frincha da janela aflita.
não é urgente, um destes dias coloco a espuma que veda esse atrevimento.
proíbo-lhe a entrada. não lhe permito arrepios na fronteira da pele.
ao vento, esse provocador invisível, na casa de portas e paredes frias.
vou desenhar os teus olhos na porta, nos vidros para que as estrelas se iluminem.
é possível enganar o real por momentos, são múltiplos os fragmentos –

já não sei, já não sei se é urgente.
desvalorizamos a experiência, Benjamim já o dizia: são milhares de fotografias

e a casa sem raízes –

josé ferreira 22 de Janeiro de 2015

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Debruçado em mim até ao mar (Passeio das Virtudes)


Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro
a tremer até ao Douro

olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar

cinco janelas, cinco cavaleiros
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado

aqui regresso
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua

segura em aperto de mãos
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar


em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem
em murmúrio de nevoeiro quando há luar

por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar

a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos

Joana Espain

Foto retirada daqui 

NASCIMENTO

Acordei e és a minha casa
O meu colo embala-te em vida
Sonhei e és o meu sorriso
O meu coração a tua música

Cresces dentro, bem perto
Numa história nunca escrita
Há um tempo diferente na minha pele
Que se estende na tua

Um tempo eterno e tão breve
Que nos muda e em nós fica
Uma magia infinita
A colorir de amor
A cor cinzenta da dor.


Liliana de Castro

AS CASAS

Dentro de nós as casas habitam-nos
Casas de nós mesmos somos deuses
Os lugares dos outros em nós
Repousam nos quartos íntimos da dor

Dentro de nós os outros habitam-nos
Casas de nós mesmos entranham-se na pele
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Repousam-nos no ventre e dançam

Dentro de nós as horas habitam-nos
Casas de nós mesmos gravam-se em rugas
Repousam no tempo vivido da memória
No vai e vem do coração apressado

Dentro de nós só o amor conta histórias
Casas de um poema e de poetas que se juntam
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Embalados nas artérias do sentir
A sorrir pensamos: como é bom chegar a casa!
Liliana de Castro

As Casas

Não sei o que dizer. Não sei. Desde o início da semana ando a ruminar no tema. Olho para ele, dou a volta, volto a olhar. E não sei por onde lhe pegar. Se pelo telhado, se pelo chão, se pelas paredes, ou se pelo que existe dentro das casas e só se vê quando olhamos com os olhos do coração. Raio de tema este. Não lhe encontro poesia. Pronto! Talvez alguma, naqueles grãos de areia que servem para ajudar a cimentar os tijolos. Ai se apanho quem fez a escolha do tema…
Posso começar por falar da minha casa. Uma senhora casa, com vida própria e muito independente. Existe há 63 anos e está de boa saúde. Foi a casa que os meus pais construíram quando casaram. Sempre vivi nela. Nunca tive outra. Nasci onde agora é a sala de estar. E pensando bem, acho que já dormi em quase todos os compartimentos, menos na casa de banho e na cozinha, claro. Sei que a nossa casa não tem de ser um espaço rígido e fixo. A casa é onde estamos e onde nos sentimos bem. Mas reflectindo na minha experiência, eu, tão aparentemente solta e desligada, quando fora alguns dias e retorno a casa tenho uma sensação inigualável. É como voltar ao embalo dos braços da minha mãe. A minha casa tem a minha identidade, a minha marca, regista todas as minhas vivências e memórias. Voltar a casa é voltar para mim própria, para dentro de mim. Voltar à minha infância. Ao tempo em que tomava banho com o meu irmão numa banheira branca de plástico no pátio em frente à cozinha. Ao tempo em que me armava em cantora pimba e cantava acompanhada pelo mesmo irmão que sacava sons dignos de uma bateria aos baldes virados ao contrário. Escusado será dizer da vida curta desses baldes. Ao tempo em que juntávamos primos vizinhos em duas equipas de hóquei e com troços de couve fazíamos belos exemplares de sticks. Ao tempo em que tomávamos banho no tanque de lavar a roupa com direito a camara de ar de pneu e tudo. Depois, os espaços diminuem na mesma proporção com que nós crescemos. E fico-me a olhar para o tanque e até rio a pensar que já tive medo de me afogar ali naquele nico de espaço.
Talvez seja a minha casa o alicerce que me acompanha desde que sou gente. Faz parte de mim e do meu crescimento. Disso não tenho qualquer dúvida.
Não sei se fará algum sentido comparar as casas a uma pele. À pele que nos reveste o corpo. Mas também não tem de haver sempre sentido nas coisas. Quando existe poesia e liberdade de escolha podemos comparar até o incomparável. Afinal, sempre parece haver alguma poesia. Alguns grãos, bem boleados de areia, que insistem em entrar na engrenagem deste texto. Quem fez a escolha do tema pode dar passo em frente. Está desculpado!
Sim. Definitivamente, as casas, do sítio onde me sento para observar, são a pele que revestem o nosso corpo. Se dizemos que os olhos são as janelas da alma podemos bem dizer que cada um de nós é uma casa. Uma construção feita diariamente e em constante manutenção. A pele é a parte exterior das paredes das casas que somos nós. Protege e confina a um único espaço o que está dentro. Mas, ao mesmo tempo que é a linha que separa o interior para o exterior e vice versa, é o ponto de contacto entre essas duas realidades. Tal qual uma ponte, uma linha fronteiriça. Une as duas margens. Por essa ponte existem trocas constantes. Algumas até conseguimos percepcionar outras, nem nos damos conta. A pele é um registo diário de todas as nossas vivências, em especial um registo dos nossos afectos. Um mapa afectivo. Haverá forma mais absoluta de demonstração de afecto que um abraço silencioso e sentido? Mesmo que a roupa impeça o contacto direto de pele com pele, a forma como nos entregamos no abraço faz desaparecer qualquer outra necessidade de comunicação. Um toque de mãos diz tanto sem serem precisas palavras. É com a pele mais do que com outro sentido que nos ligamos ao outro e ao mundo que nos rodeia. Que somos casas complexas, pois somos. Tantas vezes nos destruímos e reconstruímos. Tantas vezes a precisar de valente limpeza e arejamento interior. Sempre em mutação diária. Sempre em descoberta do mistério que albergamos dentro de portas e que somos nós.
Resta agradecer à Ana Luísa pela generosidade com que abre ambas as portas das suas casas. Bem, depois disto, e a precisar de um abraço, continuo sem saber o que dizer. Para a próxima vez, quem escolhe o tema sou eu!


claraoliveira 2016.01 


A casa

A casa está desabitada –
Não há calor nem frio
Não há emoção nem sentimento
Ninguém a habita e eu estou aqui
Sozinho. Se passeasse pelo interior,
Talvez o fogo me aquecesse
Mas não, o fogo está apagado

A casa é somente ideia,
Se ao menos fosse nítida,
A ideia torna iguais
Todas as casas, e essa casa
Nítida vive apenas na minha memória,
Ou na minha saudade

Quando aqui cheguei pude reparar –
As heras haviam tomado todas as paredes,
E olhando as heras pensei em ti
E na destruição da casa –
Entrei na sala das teias do tempo,
A um canto num fio pendente de uma teia
Cintilava o teu sorriso
A outro canto, a maciez dos teus afetos,
E o frio tomou-me o coração

Havia mais dois cantos habitados –
Coisas do dia-a-dia acumuladas 
E o teu sofrido cansaço
Mas a tua sombra escondeu a teia
E os fios da vida e os caminhos –
A cada memória sucede um abismo –
O vazio encheu o espaço da minha alma

De súbito, a sorrir-me enigmática
Veio a Morte, visita costumeira desta casa
Agora definitivamente
Despojada do fogo primordial – 

José Almeida da Silva
22.01.2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

DA SOLIDÃO DA LUZ



A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –

Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.

Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.

Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror

À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.

Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportado e oscilando em paz.

Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?

E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.


Ana Luísa Amaral, in Vozes, 2011

imagem retirada daqui