terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Hoje não

Escrevia poemas
hoje não acredita 
ou ver não pode
a palavra impossível de isolar da
vida, 
agarrada a isto e a aquilo,
porquê separar som e 
significado do cego iluminado?

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Porto II

 

O Porto assim serenado

nascerão as camélias

de anos, largos, jardins

praças, cidadelas


domingo, 22 de dezembro de 2013

História Antiga



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

[Para Quê Poetas em Tempo de Indigência?]


imagem daqui 

Levantar a gola do casaco, esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz
radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.

Luís Filipe Castro Mendes in Revista Ler (dez. 2013)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

o meu filho é um poeta

.
o mar é como um ser poderoso
que me recebe no seu palácio e
traz ondas para eu nadar e
empurra as coisas que eu construo na areia
como se quisesse brincar comigo.
.
o mar é um amigo.
.


Pedro Miguel Ribeiro
dois.dezembro.doismiletreze

domingo, 1 de dezembro de 2013

entrego-te o meu coração, percebe-o bem

David Bowers

entrego-te o meu coração percebe-o bem
porque não há limites para o infinito da composição.
o finito importa o vermelho dos vasos, a aorta que abre
e esse é apenas um fragmento  que o compõe:
um mundo físico de átomos, falíveis e infalíveis conforme o tempo
o tempo que a natureza não mede e portanto não tem –

talvez seja esse o grande desconforto, a grande desordem
que pontua o humano, o cronómetro
o pêndulo que oscila como condição
o limite desde o óvulo da criação –

o meu coração, percebe-o bem.  coloca –lhe a cor única
como a impressão imediata de uma  valsa de flores de um bailado
ou o impacto de um quadro de Leonardo
um surrealismo de Dali, um segredo de amantes de Magritte-
o coração pode ser infinito, para sempre, como um livro de Tolstoy –

o coração é um segredo e vive de fragmentos  –

o coração não pressupõe a analogia de uma ciência pura
uma matemática de células, um big-bang de vida
o coração não se remenda, comporta os fragmentos da lesão e avança
 para  a delicadeza das rendas e  a passagem de pontes 
e,  por vezes,  a paragem necessária para recolher as memórias da nascente
os caminhos inapercebidos do poente, a compressão das margens
ou  as parecenças de um mar parado 
num grande leito, amplo e muito sossegado –

entrego-te o meu coração, percebe-o bem, pela moldura dos vimes
pela sazonalidade dos dias -  o sol e a chuva dos caminhos
pelo azul e pelo lilás, pelas asas das borboletas  e o voo doce das abelhas
pelos pássaros e pelas marcas nos troncos de árvores
entre o jogo dos hábitos e a transcendência do espírito –

o coração não é fragmento, não tem princípio e fim
existe antes de existir na imagem inatingível
e vai para além do último minuto
se foi forte, se fez sentido, se foi sublime  –

entrego-te o meu coração, percebe-o bem  –

josé ferreira 30 Novembro 2013