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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Estou vivo e escrevo sol - um poema de António Ramos Rosa




Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida
melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde"

António Ramos Rosa

sábado, 6 de outubro de 2012

É por ti que escrevo





É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Em tuas veias - um poema de António Ramos Rosa


                                    Maurice Denis 1892


Em tuas veias de rosa
de cândida maturidade
quero derramar o meu encanto
quero fluir no meu outono
Na tua nudez de piscina
dourada e marinha
com minúsculas sombras de melancolia
beberei a tua noite azul
e repousarei a salgada dolência
na firmeza macia dos teus róseos músculos
já não serei o fumo de uma sombra
mas um sopro de estrelas
desfalecendo no moroso júbilo
da minha sombra inteiramente aberta
cheia da nítida substância de um páramo terrestre
em dois vasos num só vaso de lucidez ardente



in «Meditações Metapoéticas», António Ramos Rosa
 e Robert Bréchon, Ed. Caminho, 2003

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Poema de um funcionario cansado - António Ramos Rosa


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaçoSoletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só.

António Ramos Rosa

As palavras esperam o sono - um poema de António Ramos Rosa





As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

António Ramos Rosa
(Publico este poema como homenagem ao poeta que admiro e que ontem completou 87 anos)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

um poema de António Ramos Rosa


Henri Matisse 1917

Este poema para ti é decerto uma surpresa ou talvez a melodia

que vem de tão longe e de tão perto

porque vem de ti do delicado tumulto das tuas vibrações

que são como espirais instantâneas que parecem ir dispersar-se

mas mantêm a delicadeza límpida das suas linhas.

Elas são a relação que se inebria na vertigem dos limites

e te oferecem o mundo como o campo da tua identidade aberta.



Tu és um corpo de meandros em que um sangue solar flui

e como danças dentro de ti as tuas linhas são evidências

imprevisíveis e nunca te deixas fechar mais do que um segundo

porque logo te abres como um leque de cores vibrantes que reúne

e dispersa porque é a relação do universo com a harmonia dinâmica

da variedade elementar que é a matéria da unidade universal.



Se tu te transcendes em cada movimento

é porque tu ascendes constantemente como se a tua coluna fosse

o vento vertical como um enxame de pássaros vertiginosos.

Se tu és quem és é porque a luz no teu corpo voa e vibra

e o teu olhar respira a transparência de um jardim

e a tua boca pronuncia as palavras que são chamas de vento

e são chamas do mar

mas também têm o peso das pedras intactas.



António Ramos Rosa

sábado, 23 de abril de 2011

Ah as aparências como são obscuras


Edouard Boubat

Ah as aparências como são obscuras
como são ambíguas!
Elas são e não são
Elas acendem-se e apagam-se
Mas nunca dizem Aqui dói
Aqui é

Elas passam por cima
do que está por passar
como se não estivesse por passar
Com a sua incessante mecânica
preenchem as concavidades
que deixam atrás de si
Elas ocultam a sombra
nos seus espelhos de areia

O osso nunca lhes sai
porque tudo arredondam
para que não lhes escape o vento
pelas frestas das suas frases
e pelas sonoras lâminas
da sua armação de vidro

Elas não revelam o tigre nem a águia
que estão ou não estão dentro delas
e não vêem a dançarina exausta
que se deitou sobre uma cama de folhas
porque entrou no âmbito da imobildade pura


António Ramos Rosa

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sim, quero dizer sim ao inacabado


Marc Chagall

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.



António Ramos Rosa

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Talvez um dia se atinja a redução do pensamento


Oskar Schlemmer "Bauhaus Stairway

Talvez um dia se atinja a redução do pensamento
pela mediação do vento
E será essa a mais preciosa economia
O osso vibrará em consonância com o músculo
O joelho e o ombro serão um só adágio

Bastará a mão na página
para que uma ave branca siga a linha azul
As incertezas terão o frémito das folhas
A obscuridade será um oboé saindo do lodo
Um gafanhoto sobre a mesa restabelecerá o estatuto do universo

A melancolia do ouvido a estranheza da visão
em entrelaçadas estrelas líquidas
beberão a alma da solidão como uma linfa branca
e os fulvos frutos da terra estarão unidos
num indivisível acorde



António Ramos Rosa "Deambulações Oblíquas" Quetzal Editores

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Este poema é absolutamente desnecessário


Joana Vasconcelos

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um
[útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?



António Ramos Rosa
in Deambulações Oblíquas

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa (Faro, 1924-)

Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa (Faro, 1924-)

domingo, 2 de novembro de 2008

Poesia de que gosto

Aliança


Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade

Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro

Ò longa meia-noite em que oscilo nó fluído
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!

António Ramos Rosa "matéria de amor"