quinta-feira, 28 de março de 2013

Entrada de Bala


Mariposa



Noite de prazer na África Austral: nós nos comendo e os mosquitos nos comendo a nós

O tempo anda a correr ao contrário do sentido dos ponteiros do relógio

As coroas fazem mal à cabeça

Lei seca versus T-shirt molhada, duelo de pesos líquidos pesados

O relógio sem pilha e a barriga a dar horas

Estamos perante cozinha sofisticada quando há espaço
para colocar as mangas da camisa no prato

(Entre parêntesis, também há pontuação!)

Um académico suicida-se deixando a sua carta de
despedida com notas de rodapé e bibliografia

A Tomada da Pastilha

Depois de tantas plásticas já só dorme de olhos abertos

Cortar as unhas é uma tarefa inacabada

Curso intensivo: domesticar um pinheiro bravo

Dieta infalível: sexo e pistachos

Os dias não passam de vésperas

Hei-de saber: cusque o que cuscar


De Nuno Milagre, Um Beijo No Meio Da Crise

Premissas






Não sei porquê, não há palavras doces entre nós! Ou sei! Acabei de dizer uma coisa completamente estranha! Não cobres os meus olhos. Nos retratos vejo outras coisas, só, mas por largos dias nunca te via. A curiosidade é fanática. É lixado!... Hoje estou cobarde?! Precisamente agora?! Não vou fazer o que me apetece! Não sei como me safe. Podes dizer-me, deixei o raciocínio. Ou não. Está a ser bastante pacífico viver este absurdo.

E hoje vi um filme, fintas, que não era dos de Final Feliz, ou se calhar isso depende… e não me interessa o que depende do depende - ando cada vez com menos paciência para o desnecessário.
Começou num encontro de um homem com uma mulher. Até ao fim do filme não é mostrado o rosto do homem. E não se percebe bem como é o sítio onde se encontram. As paredes são escuras, parece de cinza tudo, até mesmo o vestido da mulher. Ele a dizer que ela parece ser de outro mundo… Transforma-se o cenário, tudo o que se vê passa para a cor bege; a mulher que se vai embora em segundos, para aparecer outra, a quem ele diz como é bela, um charme…
Entretanto vai ter com um amigo, suponho eu, diz-lhe que a primeira mulher tinha um sabor doce, e a segunda é pedra de brilho. O outro diz-lhe, como lhe luzem os olhos pela segunda.
Digo agora eu, e entre o gosto e o pé, entre a realidade e a fantasia, qualquer lugar por cá é pequenino.
Foi pena, o cenário podia ser uma imensa autoestrada americana, na plena luz do dia. E ele podia estar a escolher uma estação de rádio. É que ficaria sempre sozinho, de qualquer modo, mas pelo menos ficaria a personagem para sempre naquela planície, imensa. Assim, sem ele ficar - nem nós; sem um dilema: apreciar ou viciar, prazer ou alivio, chocolate ou joanete.
Não há escolha neste filme mesmo sendo feita a sua escolha. Se ele não vive é porque é personagem imaginada - como se não fosse certo o ditado, a realidade ultrapassa a ficção; ou não vive porque não vive! Ilude-se!

Às vezes, se obrigada a pausa, depois, estou bem mais perto. É de calma depois! E sempre sou como fui, como vi há muito tempo, de honra, palavra e dignidade. “Coisas” que nunca soubeste como é, e já nem fico triste!

Anabela Couto Brasinha

quarta-feira, 27 de março de 2013

sem acordar a cidade




 The girl by the window  Edward Munch 1893


entrou dentro do quarto.
conduzido em sussurros descobriu espaços.
as peças de vestuário tornaram-se inexistentes
perderam o peso dos significados -

adormeceram como um rio fluido num correr suave
sem margens -

acordaram  na presença de todos os momentos.
asas moravam dentro e fora do corpo;
podiam voar de qualquer jeito pelo ar e pela relva
pelo mar e pela areia -

abriu a janela de pés descalços na primeira claridade.
ele saltou sem medo e deixou-se aconchegar 
pelas cores macias do jardim
junto de flores de jasmim e braços de glicínia -

não se abriram mais cortinas, ninguém deu por nada.
saiu sem ruído, incógnito e completo sem acordar a cidade -

josé ferreira 27 março 2013

sábado, 23 de março de 2013

escrevo-te (XIV) - quando a luz é seta


                                        imagem daqui


escrevo-te pela manhã luminosa e depois do arco aberto das pontes.
a luz é uma filigrana que atravessa a abertura da porta
simbólica no dourado, real no soalho
no verniz laminado das tábuas
e há silêncio entre nós, uma melancolia breve que por vezes surge
que atravessa a nado o rio criando o ruído das águas
 águas que se afastam no remo dos braços
uma melancolia breve que se espelha nos olhos
quando o rio abre -

escrevo-te na púrpura da época e sem definições exactas
talvez só mais à frente se possa criar uma escultura com as letras
talvez só mais à frente se possa medir o pulso e os batimentos
talvez só mais à frente se possa abrir e fechar os lábios
talvez só mais à frente se possa caminhar pela lonjura dos dedos
pelas suas linhas concretas
e talvez por isso te escrevo hoje
quando a luz é seta, sobre os nós de antigas árvores-

quando a luz é seta e a melancolia é breve -

josé ferreira 22 março 2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

au printemps - um poema para o dia mundial de poesia



imagem daqui
é Primavera, o primeiro dia.
dormi encostado e protegido pelos teus dedos
no infinito dos teus braços.
acordei forte como as árvores
senti que o lado esquerdo batia, batia, e batia -
  
as flores  vão crescer 
as flores vão tornar-se grandes
nascem agora de um pólen diferente.
não são rosas, nem magnólias, nem jasmim;
únicas, são únicas como pálpebras amanhecidas
cintilantes, cintilantes como cabelos reflectindo  luz
puras,  são puras como um algodão branco 
sensíveis como as superfícies 
dos seios e dos lábios adormecidos -

é Primavera, o primeiro dia
vou sentir-te na longitude dos passos
por cada minuto de cidade
por cada gota de água  
por cada grão de areia
por cada átomo
enquanto o tempo se escoa nos cronómetros e na clepsidra
para que se cumpra o destino:
para que a distância cesse
para que sede acabe
para que o mar se torne mais leve
quando o rio desce das colinas  -

josé ferreira 21 Março 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


INSUBMISSÃO

Somos corsárias
febris
por areias dos desertos

Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos

Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração

Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão

Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios

Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos

Buscamos os infiéis
com olhos de expiação

Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso

Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso

Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos

A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos

Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão

Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos

Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos

Maria Teresa Horta
Lisboa, 8 de Março de 2013