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sexta-feira, 26 de julho de 2013

"Em seu entender o poeta..." por David Mourão


imagem daqui

                   XLI

Em seu entender, o poeta nunca
aprende; nem ensina. Limita-se
a apreender; e a ficar apreensivo
ou a superar a apreensão

David Mourão Ferreira, Jogo de Espelhos, Presença

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Secreta Viagem


                                                imagem daqui

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira in A Secreta Viagem

sexta-feira, 2 de março de 2012

Afogo no teu ombro - um poema de David Mourão Ferreira


Gabriel Rosseti 1880

Afogo no teu ombro
tudo o que não te digo
o pânico do sonho
o resplendor do risco

É de ti que me escondo
Em ti é que me afirmo
Antes de já ser ontem
sentir que estamos vivos


David Mourão Ferreira In O corpo iluminado

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Precocemente pressentiu - palavras de David Mourão Ferreira


Ralph Gibson

XXI

Precocemente pressentiu
que na Mulher coexistem quatro figuras:
a Mãe, a Irmã, a Filha; e a Fera.
Ou,melhor dizendo, a Terra, o Ar, a Água; o Fogo.

David Mourão Ferreira
Jogo de Espelhos, Presença, 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

XCII


fotografia retirada da internet

Entre a cereja e um computador
apenas a cereja lhe provoca
verdadeira admiração

David Mourão Ferreira,Jogo de espelhos, Presença, 2011

XLI


William Bourgereau 1898

Em seu entender, o poeta nunca
aprende; nem ensina. Limita-se
a apreender; e a ficar apreensivo;
ou a superar a apreensão

David Mourão Ferreira, Jogo de espelhos,Presença, 2011

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

E por vezes


Edward Hooper " Sol num quarto vazio" 1963

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão Ferreira "Matura Idade"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ternura


Manet "A leitura" 1868

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 1927-1996)
Cancioneiro de Natal

sábado, 13 de dezembro de 2008

Um poema do David

Na outra noite,de um lado ela
mesmo em frente todos nós
cada um junto dela
ela dentro de nós.

Maria Teresa Horta

Falou-nos sem o peso dos minutos numa auréola encantada de muitas histórias, da tal dimensão que só alguns atingem. Todas as palavras eram leves e sem esforço, naturais, tão claras de sentido, tão deslumbrantes de evidências como se tivessemos sede e de copo ao lado não conseguissemos usar as mãos. Aprendemos a serenidade a tranquilidade de uma mente superior que nunca usou de presunção em momento algum. Fez-nos acreditar que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.
Deu-nos asas!

Também falou dos seus amigos, daqueles que lhe rondam a casa na esperança do convite, da partilha dos seus cozinhados. De muitos que são e de outros que já eram.
Dos que já eram destaco outra mulher de força Natália (Correia), ainda o José (Cardoso Pires) e o David (Mourão Ferreira), a quem tratava pelo primeiro nome, como se ainda ali estivessem vindos de uma animada tertúlia trauteando poemas e melodias, enlevados nas teclas de um piano, de um bar muito conhecido, chamado de Botekim,ali à Graça, no bairro da capital.

Há dias deixei um poema simples do David que para mim não deixa de ser bonito (devo dizer que saiu no teste do 8º Ano do meu filho... no exame nacional do último ano... e portanto é bom sabermos que ainda se dá na escola...)

Hoje deixo outro:

INTERIOR

É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir muito depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória de chuva

Depois de arrebatar o corpo da amada
ao ritmo infernal de um batuque de guerra
é bom permanecer na mesa de montagem
misturando Anfião Vivaldi Apollinaire

É bom lançar ao fogo um velho dicionário
É bom o crepitar das palavras antigas
Adivinhar quais são as que por fim renascem
e que sabem voar ao sair ds cinzas

É bom pedir perdão ao som de uma sonata
Segredar num soneto a ária de um remorso
É bom recomeçar com música de Jazz
Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo
David Mourão Ferreira

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um poema de que gosto

Um dos primeiros livros que li há muitos anos atrás numa
mesa partilhada da Biblioteca Municipal do Porto,
chamava-se "A secreta viagem" de David Mourão Ferreira.
Guardo na memória essas descobertas e alguma propensão
para nem tudo desvendar, dar lugar ao segredo.
Em homenagem a esse lugar, que pode ser a cadeira e
a mesa larga onde me sentei para descobrir o encanto da
poesia, deixo-vos um poema deste autor.

A escada sem corrimão

È uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quantos mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.