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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

(des)inspiração de chuva.

E sento-me em divagações lacónicas
prostrações canónicas
e ausências de ti.
Inspiro -
e sorrio se transpiro -
se por acaso de luas
ou sintaxes do destino
se abriram outras gavetas
e em tecido
(ou meias pretas)
me surgi.
Sonhei-te algures por aí.

Amanheci.
E em sombras vãs,
horas despidas,
perdi-te as linhas de insónias
em estruturas mal cosidas.
Expiro -
e as palavras em retiro.
Se acaso não for de luas
então de uvas ou de amoras
que eu espero em curtas demoras
e cruéis morfologias.
E partias
sem conceitos ou estruturas
em versos de chuvas amenas
e tardes de luz.
Por fim deserta.

E anoiteceu na casa do poeta.

Inês Beires

sábado, 14 de novembro de 2009

(des)inspirar por fora

lagos escuros
luz de gotas em fuga
nuvens à chuva

(des)inspirar por dentro

bocados vermelhos de ser
pequenas dobras livres
saltos esgrimistas lá dentro
à escuta

será que entrei
- devo ter entrado-
tudo à mesma marcação
eu o espaço
o tempo da palavra
a entropia

não trouxe nada
nada me enviesou
nem pássaros ou navios
só o mundo
em nó vermelho de mim

lembro água
ou areia ainda liquida
a desintegrá-la por precisar
e linhas em fuga de mim
que partem

como chegam olhos baixos
de rostos que habitava
e comboios
de encontros subitamente lúcidos
que não souberam parar,
e pele, sei que há pele
- ainda devo ter pele-
sinto-lhe o grito a transpirar

não trouxe nada,
encosto-me a ver passar linhas
em dolorosa minúcia de ti,
agarro a linha do tempo
e enrolo-a ao pescoço
na esperança que te repita em si

mas o fluxo desata a vibrar
a meada doba irritada
em vez de linhas, ondas,
a velocidade aumenta, deriva
o espaço das palavras
e já nada chega ou se parte
só elas a rir de mim

perdi os olhos,
a pele vermelha,
o comboio
e a precisão da areia

Não sei sair
à roda o tempo
fechou-me cá dentro
a um canto neste poema

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

segundo ensaio sobre a "desinspiração"

deserto de palavras
não as consigo tecer
entrançar umas nas outras
formar imagens de cor

aridez de palavras
mergulho os dedos nestes grãos
escorrem sem dono
por entre as minhas mãos

vazio de palavras
atravessar esta lonjura
por dentro sinto-me rasgar
derrete-me a mente nesta loucura

deserto cheio
de aridez vazio
de palavras

Clara Oliveira

terça-feira, 10 de novembro de 2009

primeiro ensaio sobre a "desinspiração"

"















"

Haikai

nada se escreve
tanto se entende

Clara Oliveira

Nada nem uma metáfora




Inspira, inspira, apenas o gato
Sossegado na corda da cauda
Que alisa o tecido de um e outro lado
da almofada.

Nada nem uma metáfora.

Os dedos aprumados na caneta
De superfície lisa, permanente
Tinta de uma “Parker” 75
Prenda de outros anos;
Despedida do Alexandre
Entrada na Universidade.

Mas nada, a folha em branco.

E agora depois de tanto tempo
Nem que queira, a tinta seca;
Os batimentos de cadência
O ritmo de pontos brancos
Que se iluminam de novo
Na cor preta
E não era assim costume –
Azul a cor
Os dias, a força, o presente sorriso
E um livro irónico e supremo
De um “Conde Sandwich”, aceso
Na invenção do piquenique;
O pão de forma, o ovo fatiado
Queijo, presunto, o tomate de salada.

E nada nem uma única palavra.

A folha em branco picotada
De bico seco e o tormento
De nem uma, uma única
Qualquer ideia. Nada.

De súbito olho o gato
Que estende a pata e solta as garras –
Penso logo, claro - a selva.
E abre a boca, uma língua de víbora
Dentes sinuosos, os olhos vedados
Claro, claro que vejo – as feras.

Agarro os olhos no cimo da mesa
Procuro de novo o tricot da caneta
E eis que alguém chega, abre a porta
Salta o gato, eriça-se a cauda
Cai a almofada, sopra o vento
Esconde-se a folha
E nada, desgraça.

Alguém chama –