terça-feira, 30 de abril de 2013

escrevo-te XVIII - num teatro de sonhos e num mar de imagens

Salisbury International Arts Festival
imagem daqui


escrevo-te pela luz, pela arte e pela dança
num teatro de sonhos e num mar de imagens.
sento-me em frente ao palco e os olhos voam na elasticidade absoluta
nos pés de gazela, na impulsão alta como se não fossem tábuas
e em seu lugar, a invisibilidade de molas e braços  que te elevassem –

e não sei como fazes
sei apenas que admiro cada gesto e cada espaço preenchido no teu salto –~

e se não fosse um palco,  e se não fosse esta cidade
e se fosse sábado numa clareira iluminada
ou uma selva onde as panteras fossem cor de rosa
 e fizessem parte de um plano, de um desejo do Éden
para que o mundo deixe de rodar tão depressa
tão tonto, tão cego, perante as estrelas que nascem –

escrevo-te com as mãos abertas e as palavras a saltar do corpo
como se adquirissem a forma sem arestas de Gestalt
um círculo bem redondo, um colo, a completude óbvia
perante um mundo desorientado na irrealidade contemporânea –

escrevo-te como as velas dos barcos e as pranchas de Mcnamara
porque nem todos os dias são claros, há nuvens, o risco de chuvas
e há quem dance
não como o dealbar dos mitos, os primórdios sem consciência
mas para que se ilumine o palco, para que uma aurora tome conta do mar –

 e há quem escreva poemas
pela abertura das nuvens
para que o algodão caia, leve, suave, na transcendência das palavras 

e torne as praias brancas –

josé ferreira 29 Abril 2013



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro (23 de Abril) - um poema de Rilke



imagem daqui

O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde… em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
O Livro das Imagens, Rainer Maria Rilke(lido aqui)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

um poema maravilhoso de um amigo maravilhoso


Os livros 

Silenciosos quietos pacientes um a um
Irmanados esperam a luz do teu olhar.
São assim os livros: secretos universos:
Intimidades imaginadas do quotidiano
Milenar, tragédias inexperientes – virgens
Antiquíssimas; dramas à espera da luz
Do dia; longínquas memórias ou próximas
Distantes – uma identidade colectiva –; histórias
À esperam de duplos para serem compreendidas;
Outros universos menores e cheios de fascínio
E exotismo a plasmar humanas raízes milenares.


Silenciosos quietos pacientes um a um
Irmanados resignam-se esperançosos
À partilha contigo da sua comum intimidade.


O mais é pó e é pobreza e a riqueza ali
Lado a lado como a sede e a preguiça
À beira da água. A luz e a água são essência
Da vida. São um manancial de luz, os livros! O calor
Há-de secar-te e a sede refrescar-se-á na água
Ou na tinta que ilumina os livros – pacientes quietos
Silenciosos, obedientes amantes que comandam!


– Só falta mesmo o teu agudo olhar a fascinar-se!
Nessa luz irregular do meio-dia, do poente ou do luar
Tomando-te o olhar singular desse momento subtil
– Oiro na sombra onde se inscreve a alma de perfil.


As estrelas que se acendem generosas nos universos
De um livro! A poeira que aspergem sobre ti iluminando-te
O olhar assim tão recolhido vivendo a magia de outro mar!
                                                                                      

José Almeida da Silva | 2008.04.12

quinta-feira, 18 de abril de 2013

escrevo-te (XVII) - a metamorfose da lua em dia ondulante

anna karina
imagem daqui

escrevo-te sobre a metamorfose da última lua
na aura envolvente de um sol de primavera.
talvez seja obrigatório falar do lugar da obra de arte
não o museu de paredes silenciosas, caladas de branco
mas um mundo, um novo mundo, onde possa ser reinventada
reproduzida numa rotação de muitos instantes;
pés deslizantes de uma dança -

sim, bem sei, não é novidade
escrevo-te de uma  esplanada debruçada sobre o mar
num colo de areia
na concentração célere de ondas que chegam e fogem
um lugar que significa linhas de um desenho
o contorno de uma face, os olhos, os lábios
a fixa precisão de traços de grafite
a antecipação dos próximos dias, enquanto os teus cabelos
se elevam, leves e únicos,  preenchendo fragmentos de céu
um céu muito azul, sem ser cinzento -

escrevo-te ainda sobre a transcendência do humano
a poesia, a música, a arte infinita, sublime e multiforme
 na poeira dos tempos e na espuma dos dias
de múltiplas maneiras: a miríade dos sentidos -

e escrevo-te sobre as naturezas do mundo
quando se desmaterializa a complicação de células evoluídas
e se recua muito tempo, sem as sinapses que sublimam
em formas mais simples
os olhos de lince , as asas de pássaro, as escamas de peixe
o caule frágil das plantas, a inclinação das folhas
a semente e o nascimento de flores intensas, em hipérbole
a cor e o aroma  que não se explica
apenas existe -
como o lilás na cor luminosa das glícinias
as primeiras que surgem no jardim
inscritas  numa nuvem de jasmim, já florida, já de aromas
ali ao lado.
mas são as glicínias, os novos cachos que inebriam
os mesmos que invadiram a noite
e provocaram a metamorfose da lua em dia ondulante
de mãos de solstícias, aquecendo a futura declinação
em dias maiores, mais luminosos
os dias de verão que se aproximam -

escrevo-te, sim, escrevo-te na esplanada atlântica
a mesma dos descobrimentos
das caravelas, das naus frágeis e pequenas, tábua a tábua desfraldando velas
entregando-se na metereologia, no astrolábio e no sextante
e rumando na infinitude
por entre as ondas, nas mãos profundas de um mar de neptuno
um mar de horizontes, de letras a sílabas
palavras e ondas, muitas, fortes e decididas
ondas que chegam, chegam e fogem
mas empurram, abrem o véu fechado do futuro
e no seu ruído, no seu odor a maresia, na sua espuma branca
sorriem e renovam-se, e renovam-se sempre -

e assim se escrevem os dias -

josé ferreira 17 Abril 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013


«A pior das solidões não é estar só, mas ser um companheiro... terrível para si mesmo.»

Jacques Salomé 



«La Patience a beaucoup plus de pouvoir que la force.»

Plutrarque,  Vie de Sertorius

terça-feira, 16 de abril de 2013

sabes, houve um antes, há muito tempo


 
imagem daqui

sabes, houve um antes, há muito tempo
talvez um acaso ou um  papiro no Éden
uma ordem de Zeus
e há um depois, o desejo de ser árvore
a protecção dos ramos e das folhas verdes
para que sossegues e descanses
para que sintas as raízes seguras nas pontas dos pés
para crescermos juntos em direcção ao céu
sabes, tu és 
a metade prometida pelos olhos da lua
a ave perfumada que propaga  o som -


josé ferreira 15 abril 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Escrevo-te com ofogo e com a água - um poema de António Ramos Rosa



Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te 

no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.


António Ramos Rosa
Volante Verde - 1986
in Antologia Poética
Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes lido aqui

sexta-feira, 5 de abril de 2013

escrevo-te XVI - Jeanne e Modigliani

                                 imagem daqui




sabes,  há uma lua desenhada sobre a  parte escura do jardim
as camélias vermelhas, as orquídeas de matizes, estão adormecidas
e os meus pés descalços são sem ruído, por vezes lentos, por vezes rápidos
e não importam as areias, os pedaços sem relva
os pequenos torrões de terra que se desfazem
enquanto os passos passam em  S’s  que não tropeçam;
tenho uma folha branca e uma caneta cheia de tinta, escrevo-te –

escrevo-te sobre as telas de Paris e um bairro de pintores
no início de um século e de uma arte nova
escrevo-te sobre o pós-impressionismo na era de Rodin e de Camille –

sabes, em tempos fui um pintor, devo ter sonhado, talvez fruto de arquétipos
fui um pintor na era das clarabóias depois de Renoir.
habitava um sótão perto do Sena e experimentava o poder das cores
a paleta no polegar e pedaços de óleos na fluidez da essência
a navegar por cima de outros pedaços
 e um azul ultramarino na longitude da alma -


Jeanne, assim te chamavas e  queria pintar, queria deslumbrar
queria ser uma estrela do Norte no salão dissonante des artistes
queria desafiar Picasso, fazer esquecer Rivera, Seurat e Degas
tirar o lugar de Manet no piquenique –

mas não queria pintar a cidade, a sua névoa de prédios altos
os seus passeios cheios de gente, sabes, não como Pissarro
queria ser diferente -

e queria dar-te tudo,  Jeanne
ser o sol e a lua , o tórrido verão e a brisa que perdura
o cansaço de muitas noites  e o embalo de muitos braços
a queda d’água e um rio de ternura –

sabes, Jeanne, fui pintor na neblina de Paris no boulevard St. Michel
e os artistas do Quartier prolongam-se no tempo
as suas obras são as trinta moedas num chão de Páscoa
no suor das pedras, na memória das lágrimas
das vidas difíceis que tiveram –

sabes, Jeanne, ficaram as formas na imortalidade das telas
a dialogia concreta de paixões como setas
o simbolismo eterno e o excesso
a aura de pintar os olhos na cor exacta -

depois de conhecer a alma -

josé ferreira 5 Abril 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

Dia Internacional do Livro Infantil



.
Lemos juntos, tu e eu.
Vemos que as letras formam palavras
e as palavras se convertem em livros
que estreitamos nas nossas mãos.
Ouvimos sussurros
e rios buliçosos nas suas páginas,
ossos que cantam
graciosas melodias à lua.
Entramos em misteriosos castelos
e das nossas mãos sobem até às nuvens
árvores em flor. Vemos meninas valentes que voam
e meninos que apanham as estrelas.
Lemos juntos, tu e eu, dando voltas e voltas,
percorrendo o mundo com a alegria dos livros.

  
dois.abril.doismiletreze
mensagem de Pat Mora 
para todas as crianças no Dia Internacional do Livro Infantil
 trad. Raquel Patriarca

escrevo-te XV - a rua das gaivotas e a metamorfose dos pássaros



imagem daqui 


escrevo-te no primeiro dia de abril
no simbolismo de inscrever verdades e negar mentiras.
não sei  dos teus olhos nem qual o mar em que navegam
quais as ondas, quais os ventos, quais os últimos caminhos
sei que andam soltos e sei que brilham –

vou-te contar: num pinheiro perto de moinhos e de sargaços
havia um pássaro pousado, recortado na cor da sombra contra o mundo
e fazia soar uma melodia, numa transparência tão cristalina que comovia.
sabes, não chovia e algumas linhas de sol abriam. fiquei parado
surpreendido, naquela dicotomia:
um silêncio na rua e o fluir seguro de uma melodia.
o que  diria a ave na árvore e naquele dia?
seria uma carta sem  palavras na metamorfose da música?
a quem escrevia?

escrevo-te e digo-te, as cores de acordes eram luminosidades perto do mar
sequenciais:  sol de sétima, si bemol, dó maior.
magnífica melodia. fiquei parado
sabes, fiquei petrificado, preso pelos ouvidos –

vou-te contar: à volta daquela redoma de sons nada ousava tocar
e ficámos parados, eu, o silêncio e a árvore.
depois de cinco minutos naquela quietude completa
por detrás de uma janela
numa casa abraçada de ambos os lados, por irmãs gémeas
por detrás de uma janela, uma cortina oscilava de nascente a poente
na perpendicularidade do mar da Apúlia, onde ondas chegavam e partiam
sem ganharem qualquer protagonismo, envolvidas e mudas
nos cristais da melodia –

a luz de fora das janelas escondia as mãos, os dedos, a fisionomia
mas não escondia a leveza de gestos, a sensibilidade feminina.
sabes, fiquei parado, qual mármore em estátua, e a melodia subia, subia -

a ave depois da cortina oscilar, cantava mais expressiva, esdrúxula e afirmativa
como uma ópera de Puccini, como  um uníssono sem vozes no deslizar de cerdas
sobre cordas de violinos –

escrevo-te e digo-te, foi uma surpresa de rouxinol, uma história infantil
reassumida na memória dos primeiros livros, Andersen, o nórdico
e outras histórias em que se acredita em fantasias
em que não queremos crescer para os mundos modernos, tão frios
sem qualquer poesia -

 lembro-me e digo-te o que me ocorreu naquele dia
naquela hora parada de uma tarde de sábado
em que o mar estava demasiado longe para que juntasse a força das ondas
provavelmente povoado de búzios em dunas de areias sozinhas
e em que se ouvia no lado esquerdo do pinheiro
o pulsar da melodia, cristalino, interminável
enquanto a cortina, segura nos dedos femininos, escutava e escutava
na mesma linha, sem desistência, sem movimento e em silêncio -

sabes, talvez fosse um príncipe
talvez fosse um príncipe que cantava e uma princesa que ouvia
e vão ser felizes, vão ser felizes
na rua das gaivotas e na metamorfose dos pássaros -

josé ferreira 1 de abril de 2013