enquanto recebo o calor da celeuma lembro letra a letra a carta de Olympia a surpresa de a ver assim (in)vestida de nudez, nas cores do seu poema o adeus:
"manet meu ingénuo e querido amigo
beijo a tua mão direita
comovi-me
naquele divã de donzela o lugar das minhas linhas. sentida perfeita no meu corpo no meu olhar felino que domina.
maria vestida de flores escondida no seu olhar de noite guarda os segredos daqueles que autorizo os meus melhores momentos a voz aguda dos amantes e são tantos. não os quero loucos nem distantes de fogueiras impertinentes ou amores frios trato-os como filhos nos meus seios a quem sugo os receios, os seus medos na falta dos berços.
comovi-me
na largura dos traços nas camadas de tinta por sobre a tela virgem de muitas horas e anseios.
beijo a tua mão direita
a do laço de cetim trémula de pudor quando inclinavas o rosto e pousavas a paleta.
meu querido e ingénuo amigo espero não te ver sob pena de não ser olympia-
e assim será manet serei o poema o teu espelho e só meu o teu olhar até ao fim -
Enviaste-me as tuas mãos
e os teus dedos travestidos
de flores. Entre elas havia
uns lábios gordos de sangue,
dispersos de desejo. De mim?
Deitada e nua, espero-te
com meu olhar aceso
como o da negra,
como o do gato,
na serena tarde alvoroçada.
[De certo tiveste uma reunião
ou não foste capaz de confrontar
a força do prazer e a consciência.
Enviaste-me flores anunciando
a perversa bondade da acção.]
Agora só te falta a minha mão
os meus adornos, a minha flor
entre laços e abraços de ilusão.
Vem despentear a loucura
que Eros semeou em nós. Vem
ser meu rei e meu prazer. Serei
a tua Vénus e a tua Olympia – corpo
de sede no calor de um beijo e fogo
convidando o fogo do outro olhar.
lembro-me bem de ti no hotel de paris. a avenida larga repleta de almas as doces palavras, as mãos dadas o casaco apertado, a cor do frio no fumo branco do cigarro.
a japonesa de ar pequeno a boina, o cabelo negro, o laço magro os lábios excessivos de um rouge lascivo os laivos de perfume que subiam. reparaste no olhar, na mão segura as calças de pirata sem navio as sabrinas e disseste "não é vénus de urbino mas olympia" e rias, rias e rimos ao entrar na pizzaria. o tinto "rufino" os copos de pé alto e riamos, riamos.
"marlboro" a marca de um couro duro no quarto, descomposto abandonado sem corpo no reflexo do espelho no qual nos revejo.
sem fumo o telhado cinza, lousa sem giz e tantas, tantas frases soltas que pousavam e subiam sem raiz, livres e céleres nos ecos de paris. lembro-me bem de ti
e dela na avenida a atitude longa da limousine alguém de fama; a sombra da boina, a luva branca a última sabrina. a pergunta o navio -