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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Livro do desejo - poemas de Leonard Cohen


Guy Bourdin

Ela entrou no meu pé com o pé dela
e entrou na minha cintura com a neve dela.
Entrou no meu coração a dizer,
"Sim, é isso mesmo."
E foi assim que o corpo de solidão
se viu coberto por fora,
e por dentro se viu
o corpo de solidão abraçado.
Agora sempre que tento inspirar
ela segreda à minha falta de ar,
"Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo."

Leonard Cohen, Livro do Desejo, quasi, 2008

domingo, 31 de julho de 2011

a história de Shell por Leonard Cohen (II)




Abriu-lhe os olhos e sorriu-lhe a sua curiosidade. Ele levantou-se e dirigiu-se a ela.
- Queres vir comigo?
- Está bem.
- É quase noite.
....
Deram as mãos e desceram a colina a correr. Folhas quebradiças desfaziam-se debaixo dos seus pés, e procuraram montículos delas para calcarem. Depois, ficaram a ver o trânsito a passar a grande velocidade pela rampa lá em baixo, as luzes incontáveis dos automóveis.
...
O ar estava límpido, as estrelas, grandes. Mantiveram-se juntos e herdaram tudo.
- Tenho de me ir embora.
- Passa a noite acordada comigo! Vamos ao mercado do peixe. Há grandes monstros esplêndidos embalados em gelo. Há tartarugas, vivas, para os restaurantes famosos. Vamos salvar uma, escrever-lhe mensagens na carapaça e devolvê-la ao mar, Shell, concha. Ou então vamos ao mercado de legumes e verduras. Eles têm sacas vermelhas de cebolas que mais parecem pérolas.
...
- Eu amanhã trabalho.
- O que não tem nada que ver para o caso.
- Mas é melhor ir andando.

(excerto de um livro de Leonard Cohen)

a história de Shell por Leonard Cohen


Fotografia de Bert Stern

Limitava-se a ser adorada. Por alguma razão curiosa, lembrou-se de um certo vestido que usara quando andava na escola e desejou vagamente estar a usá-lo ou saber onde estava. Ele tinha a cabeça inclinada, estava a sorrir. "Está pronto para passar a noite toda a olhar para mim", pensou ela. Sem falar, sem perguntar nada. Tentou imaginar quem seria ele.
....
Apercebeu-se que, anos atrás, era exactamente assim que desejaria ser observada, com música, diante de uma janela, com a luz suavizada pela madeira antiga.

Em breve deixaria de conseguir distinguir as pedras do muro ou a vedação de ferro encostada aos arbustos. Os passeios eram de madrepérola e, apesar de ela não ser capaz de o ver, sabia que o sol estava a arrastar a escuridão à medida que se retirava por detrás das colinas de cristas rosadas de Nova Jérsia. Será que ele iria fitá-la para sempre?

Fechou os olhos, mas nem assim deixou de sentir os olhos dele. Tinha o poder de um elogio indefensável. Não dizia que ela era bonita, mas dizia-lhe para se deleitar na sua beleza, o que era mais compreensível e humano, e agradou-lhe contemplar o prazer que criava.

(excerto de um livro de Leonard Cohen)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Metade do Mundo


David Hamilton



Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade

Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Quasi 2008

domingo, 23 de janeiro de 2011

À profundidade de mil beijos - Thousand Kisses Deep


………………………………………………….
Amei-te quando te abriste
Como um lírio com o calor
Sou apenas um homem de neve
De pé à chuva e ao granizo
Mas não tens de me ouvir agora
E cada palavra que digo
Há-de contar contra mim
À profundidade de mil beijos

Correm os póneis as raparigas são jovens
As probabilidades são para ser batidas
Ganhas por um momento depois termina
A tua sequência de vitórias
E convocado agora para lidares
Com a tua invencível derrota
Vives a tua vida como se fosse de verdade
À profundidade de mil beijos

Ando a dar ao corpo ando a pôr-me na linha
Estou de volta a Boogie Street
Perdes o controlo da coisa e depois escorregas
Para a Obra Prima
E talvez eu tivesse muito que viajar
E promessas a cumprir
Desfazes-te de tudo para poder viver
À profundidade de mil beijos
…………………………..

Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Trad Vasco Gato Ed. Quasi 2008

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lorca lives


Leonard cohen/Luis Bunuel "los olvidados"


Lorca lives in New York City
He never went back to Spain
He went to Cuba for a while
But he's back in town again

He's tired of the gypsies
And he's tired of the sea
He hates to play his old guitar
It only has one key

He heard that he was shot and killed
He never was, you know
He lives in New York City
He doesn't like it thought



Lorca Vive

Lorca vive em Nova Iorque
Não chegou a regressar a Espanha
Foi até Cuba por uns tempos
Mas está de volta à cidade

Fartou-se dos ciganos
E fartou-se do mar
Detesta tocar a sua velha guitarra
Que tem apenas um tom

Ouviu dizer que tinha sido alvejado e morto
Nunca chegou a sê-lo, sabias
Ele vive em Nova Iorque
Embora não lhe agrade

Leonard Cohen (tradução de Vasco Gato)" O livro do desejo" Quasi

domingo, 20 de setembro de 2009

Suzanne




Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.
And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.