Ela entrou no meu pé com o pé dela e entrou na minha cintura com a neve dela. Entrou no meu coração a dizer, "Sim, é isso mesmo." E foi assim que o corpo de solidão se viu coberto por fora, e por dentro se viu o corpo de solidão abraçado. Agora sempre que tento inspirar ela segreda à minha falta de ar, "Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo."
Abriu-lhe os olhos e sorriu-lhe a sua curiosidade. Ele levantou-se e dirigiu-se a ela. - Queres vir comigo? - Está bem. - É quase noite. .... Deram as mãos e desceram a colina a correr. Folhas quebradiças desfaziam-se debaixo dos seus pés, e procuraram montículos delas para calcarem. Depois, ficaram a ver o trânsito a passar a grande velocidade pela rampa lá em baixo, as luzes incontáveis dos automóveis. ... O ar estava límpido, as estrelas, grandes. Mantiveram-se juntos e herdaram tudo. - Tenho de me ir embora. - Passa a noite acordada comigo! Vamos ao mercado do peixe. Há grandes monstros esplêndidos embalados em gelo. Há tartarugas, vivas, para os restaurantes famosos. Vamos salvar uma, escrever-lhe mensagens na carapaça e devolvê-la ao mar, Shell, concha. Ou então vamos ao mercado de legumes e verduras. Eles têm sacas vermelhas de cebolas que mais parecem pérolas. ... - Eu amanhã trabalho. - O que não tem nada que ver para o caso. - Mas é melhor ir andando.
Limitava-se a ser adorada. Por alguma razão curiosa, lembrou-se de um certo vestido que usara quando andava na escola e desejou vagamente estar a usá-lo ou saber onde estava. Ele tinha a cabeça inclinada, estava a sorrir. "Está pronto para passar a noite toda a olhar para mim", pensou ela. Sem falar, sem perguntar nada. Tentou imaginar quem seria ele. .... Apercebeu-se que, anos atrás, era exactamente assim que desejaria ser observada, com música, diante de uma janela, com a luz suavizada pela madeira antiga.
Em breve deixaria de conseguir distinguir as pedras do muro ou a vedação de ferro encostada aos arbustos. Os passeios eram de madrepérola e, apesar de ela não ser capaz de o ver, sabia que o sol estava a arrastar a escuridão à medida que se retirava por detrás das colinas de cristas rosadas de Nova Jérsia. Será que ele iria fitá-la para sempre?
Fechou os olhos, mas nem assim deixou de sentir os olhos dele. Tinha o poder de um elogio indefensável. Não dizia que ela era bonita, mas dizia-lhe para se deleitar na sua beleza, o que era mais compreensível e humano, e agradou-lhe contemplar o prazer que criava.
Todas as noites ela vinha ter comigo Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá Ela tinha trinta e tal naquela altura conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens Deitávamo-nos para dar e receber debaixo do mosquiteiro branco E uma vez que nenhuma contagem começara vivíamos mil anos num só As velas ardiam, a lua descia a colina polida, a cidade leitosa transparente, sem peso, luminosa, destapando-nos aos dois naquele chão fundamental, onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado e do mundo perfeito se acha metade
…………………………………………………. Amei-te quando te abriste Como um lírio com o calor Sou apenas um homem de neve De pé à chuva e ao granizo Mas não tens de me ouvir agora E cada palavra que digo Há-de contar contra mim À profundidade de mil beijos
Correm os póneis as raparigas são jovens As probabilidades são para ser batidas Ganhas por um momento depois termina A tua sequência de vitórias E convocado agora para lidares Com a tua invencível derrota Vives a tua vida como se fosse de verdade À profundidade de mil beijos
Ando a dar ao corpo ando a pôr-me na linha Estou de volta a Boogie Street Perdes o controlo da coisa e depois escorregas Para a Obra Prima E talvez eu tivesse muito que viajar E promessas a cumprir Desfazes-te de tudo para poder viver À profundidade de mil beijos …………………………..
Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Trad Vasco Gato Ed. Quasi 2008
Suzanne takes you down to her place near the river You can hear the boats go by You can spend the night beside her And you know that she's half crazy But that's why you want to be there And she feeds you tea and oranges That come all the way from China And just when you mean to tell her That you have no love to give her Then she gets you on her wavelength And she lets the river answer That you've always been her lover And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that she will trust you For you've touched her perfect body with your mind. And Jesus was a sailor When he walked upon the water And he spent a long time watching From his lonely wooden tower And when he knew for certain Only drowning men could see him He said "All men will be sailors then Until the sea shall free them" But he himself was broken Long before the sky would open Forsaken, almost human He sank beneath your wisdom like a stone And you want to travel with him And you want to travel blind And you think maybe you'll trust him For he's touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes your hand And she leads you to the river She is wearing rags and feathers From Salvation Army counters And the sun pours down like honey On our lady of the harbour And she shows you where to look Among the garbage and the flowers There are heroes in the seaweed There are children in the morning They are leaning out for love And they will lean that way forever While Suzanne holds the mirror And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that you can trust her For she's touched your perfect body with her mind.