quinta-feira, 28 de novembro de 2013

gôndola

imagem da internet


e se um barco em Veneza pousasse
de casco incompleto nas águas com sabor a tábuas?
e se pousasse parado sem nenhuma  ponte que convide  ao passo?
e se fosse agora mesmo?

nos olhos fechados -

josé ferreira 27 Novembro 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

You are welcome to elsinore - Mário Cesariny (9 Agosto 1923 - 26 Novembro 2006)

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

                 Mário Cesariny, in Pena Capital

  (Lisboa, 9 de Agosto de 1923 - 26 de Novembro de 2006)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

fragmentos

Félix Vallotton (1865-1925) 



ao estacionar o barco em horas primeiras do poente
fugiu da sombra das árvores para encarar melhor o espelho do rio
essa ausência calma de diacronias num espaço sem almas
esse lugar sem lados subjectivos –

a natureza pergunta-lhe pelas dores e pelo vazio
não lhe impõe o silêncio, que grite se é preciso
mas que arranque de dentro esse grito.
faça-o soar com a legitimidade das pedras:
os muros de Berlim, as muralhas da China, o granito das injustiças  –

não simplifique, não esconda, não pinte
não iluda a cor do sentimento
faça soar o grito com a força dos vulcões
(a natureza permite)
e não esqueça nunca que por mais que a transição subsista
de mil fragmentos entre o início e o presente
a vida é contínua e completa:
com este grito que se prolonga para além da filosofia
pelo eco e pela imensidão visível e invisível das margens
atravessando o quotidiano e as diacronias –

o grito é um fragmento na tarde vazia
um fragmento  imerso, um e um só fragmento
na corrente do rio –

josé ferreira 21 novembro 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O homem que lê - um poema de Rilke

imagem daqui



Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira lido aqui

terça-feira, 19 de novembro de 2013

existem dois mil livros

Shakespeare and Company Bookstore, Paris, France.
imagem daqui

chegou  a saudade dos violinos com a quebra de luz na janela.
o escuro invade a sala, o computador e a cadeira ocupada;
uma penumbra que se abre -
onde andas borboleta de mil folhas?
onde andas estrela cintilante de tantos dias e tantas noites?
porque parou a luz agora, neste instante?
arrefecem os pés com o inverno à solta, o frio não voa

e existem dois mil livros que nos chamam pelos nomes  -

josé ferreira    19 novembro 2011

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A força das palavras de Almada Negreiros




Entretanto não é o celulóide que mente
nem o mercúrio do espelho,

nem a cópia do disco,
nem as ondas do ar,
e eu assisto-me a mim-próprio
representando o que não sou
um papel que não faço
num enredo onde não existo
senão para que não se desacerte a multidão,
senão para que não se corte a onda,
senão para que não se altere a corrente,
senão para que o público siga o programa
e passa mais umas horas deste mundo.

Como hei-de eu - o próprio
livrar-me do público e da multidão,
livrar-me da corrente e da onda,
livrar-me de todas as cores da multidão e do público, da onda e da corrente?
Se bem que eu não faça parte deles
as suas imensidades cobrem o mundo
e com a forma do mundo parecem inteiras!

Como hei-de eu - o próprio
levar-me a salvo
e deixar em terra firme
a minha legítima vida intacta?
Hei-de gastar a minha existência inteira
a guardar para quando
a minha legítima vida intacta?
Por quanto mais tempo
digam!
por quanto mais tempo
peço-lhes!
hei-de estar comigo à espera?
Digam lá que não há-de chegar-me a vez
da minha legítima vida intacta!

Ao sabor da corrente deixar-me-ei ir na onda
e estarei bem atento até que chegue a minha vez.
Já tenho o hábito de andar comigo no meio da multidão:
já sei fazer-me sua parte sem me perder de vista.
Leve-me para onde me leve a multidão
eu a trago sempre bem justa a mim
a minha legítima vida intacta!

Tenho um amigo que também vai na onda
e tem uma história igual à minha.
Diz o amigo que a nossa história é muito antiga
e já os antigos lhe puseram nome
prà não confundir com as outras histórias.
Chamavam-lhe Eternidade
e era o sonho daqueles que querem mais do que têm.
O sonho não acabava
nem acabava a onda
nem acabava a corrente
nem acabava a gente.
Quem acha pouco a onda,
quem acha pouco a corrente
e ainda por cima quer ser gente
fica assim eternamente.

Mas por hoje basta.
Hoje já é muito tarde,
hoje já se esgotaram todas as esperanças que havia para hoje
não serve de nada insistir.
Ainda não foi hoje que chegou a vez
da minha legítima vida intacta.
Não deram resultado todas as esperanças
que eu tinha posto no dia de hoje.
Mas amanhã se Deus quiser
logo de manhã muito cedinho
todas as esperanças começam outra vez
à procura da minha vez.
Já sei que primeiro vê-se a estrela do futuro,
antes do futuro vê-se a estrela,
dizem que a estrela está quase pronta
para ser vista pela primeira vez uma madrugada
e assim todos os dias
sempre
até que eu acabe.

Almada Negreiros

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Amor em Visita








Hoje,  8 de Novembro, pelas 21h30,  no Porto, no Palacete Balsemão sito à Praça Carlos Alberto, será apresentado o 1º livro editado pela Poetria uma colectânea de 40 textos escritos pelos vencedores do concurso "O Amor em visita" - autores dos textos e ilustradora da capa.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

a irrealidade

fotografia daqui

a irrealidade seguiu a água nas ribeiras;
pequenas curvas e  tremuras de luz nos socalcos de pedras lavadas.
um percurso líquido.
a irrealidade conseguiu  afastar cortinas e abrir uma janela
num 1º andar por cima de uma azenha com roda de pau;
o som da água, o translúcido de uma nuvem de poeira pousando na superfície
pela corrida de crianças em pés pesados
sapatos sem cordões,  botas de couro desapertadas.
a irrealidade construiu uma imagem; uma tela gigante, onde
o sino, o carro de bois lento, o rebanho rápido, o toque no chão do cajado
o cão de cauda varrendo o ar.
a irrealidade agradava-lhe: uma casa no ramo de uma árvore perto dos pássaros
na árvore mais larga da antiga aldeia, onde havia aquelas pessoas
aquelas crianças, aquelas ruas de domingo, ruídos e passos sem pressa
daquelas pessoas que seguiam e acenavam
naquela tela rectangular
gigante
na irrealidade, na irrealidade, na irrealidade.

pela manhã nuclear, o sol cravou-lhe uma seta na tela. 
uma selva de carros inundou a cidade.
os prédios eram prédios e as casas eram casas
as árvores eram poucas e pouco largas.
em nenhuma delas havia casas.

josé ferreira 4 novembro 2013