Caro José,
Como me pediste e te prometi, aqui estou a dar-te, notícias nossas.
Gostei muito de saber que estás bem e o teu trabalho, aí, no Canadá, é interessante e muito bem pago! Aqui, é o sufoco do costume e que te fez ir para outras paragens.
Já tenho pensado se não seria boa ideia sair deste país cada vez mais pobre e decadente! Estou a ficar farto, José!
Continuas impressionado com as miúdas canadianas? Pelo que me contaste, são giras, loiras mas espertas, desempoeiradas e... gostosas( palavra tua!)! E, tu lá sabes!
Qualquer dia, dou uma escapadela e vou visitar-te. Talvez vá sozinho, o que até nem seria de todo mau, porque a Marina não deve poder ir. Ela é, como sabes, uma mulher muito ocupada, tão activa que, às vezes, quando, de manhã, me diz o que tem para fazer, durante o dia, fico tão cansado que me apetece ir dormir, outra vez!
Ela continua a advogar, dá aulas na faculdade, em Coimbra, aprende Alemão e já se desenrasca muito bem, aperfeiçoa o Inglês que já está mais do que aperfeiçoado, faz yoga, vai ao ginásio e... leva a cadela à escola!
Não te rias José, é assim mesmo!
Lembras-te da cadela que, como tu dizias, era tratada como um bebé? Agora cresceu e vai... à escola !
Já tive de ir também a uma aula, imagina, mas não tenho jeito nenhum e ainda estava mais nervoso do que a "cadela-aluna"!
Alguns maduros e maduras, diga-se, que também levam os cães à escola, aprender, ainda não percebi o quê, organizam passeios e festejam os anos dos bichos, com bolo, champanhe e tudo! Tremo só de pensar o que me aguarda em Fevereiro, quando a canina cá de casa fizer anos! Talvez aproveite e vá ter contigo, que dizes?
A Marina foi há pouco buscar mais uma cadela a um abrigo de cães abandonados. Foi um gesto bonito que até me comoveu!
A cadela que escolheu é muito meiga, agradecida e sossegada. Não vai (ainda) à escola, não está estragada de mimo e até gosto dela!
O pior é que agora é mais uma a dormir no quarto connosco. Esta dorme do meu lado,
no tapete e eu já ía dando um tombo monumental, uma noite, porque me esqueci dela e tropecei miseravelmente! É muito jardim zoológico para mim,Zé!
A mulher da minha vida, quis fazer de mim, jardineiro. Comprou umas plantas e indicou-me onde as queria plantadas, enquanto ía com a cadela-princesa à escola. Fiz o meu melhor mas, pelos vistos, troquei-as todas. Para crescerem mais depressa e mais fortes, pus bastante adubo na raíz. Morreram todas e... a Marina passou-se!!
Ela diz que estou a ficar rezingão e peguilhento! Será, José?
Adoro a Marina.Ela é a mulher que quero a meu lado, muito bonita, inteligente, moderna, independente e activa, como aliás, e tu sabes, aprecio! Mas, amigo, tanta actividade, também é demais!
Temos dias que nos vemos de fugida e quase não conversamos.
Eu, por muito tarde que venha para casa, chego quase sempre primeiro. Aborrece-me chegar e a casa estar ainda fechada e às escuras, com a cadela aos saltos para ir ao jardim. A outra fica sempre lá fora, durante o dia! Há aqui uma certa hierarquia canina, que não me agrada. Mas, enfim...
Jantamos fora ou, mandamos vir a refeição de fora, quer dizer, mando vir a minha refeição de fora, porque a Marina come saladas e fruta. Nem sei como ainda não está às cores, com tanta fruta e salada! Mas, lá que tem uma figura gostosa, como tu dizes das canadianas, isso tem!
Ao Domingo, como nos levantamos tarde, praticamente não se come! Comida de panela, percebes?
E, que saudades eu tenho do bom assado de Domingo, do leite creme, do pudim! E, como eu gostava de chegar a casa, estafado e ter a receber-me, uma casa quente e iluminada, e aquele cheiro bom da comida caseira, apetitosa! E, a Marina serena e sem ter mais uma "coisinha" para estudar ou um "desgraçado" trabalho para acabar, num stress tão grande que, além de esganado de fome, fico também stressado!
Isto, José é só um desabafo, Amigo! Que só posso ter contigo!
Mudando de assunto, que me dizes da nossa selecção? Na minha opinião é um completo desastre! Os gajos parecem umas meninas melindrosas a jogarem de salto alto e saia travada! Parecem umas frágeis gueixas, a arrastarem-se, pelo campo, com passinhos suaves e curtos!
O jogo com a Albânia foi uma vergonha! Ainda não estou em mim! Os jogadores ganham balúrdios mas não vestem a camisola, nem comem a relva! Assim não vamos a lado nenhum!
O nosso Porto é que nos vai dando alegrias e a taça vai ser nossa, outra vez, tu vais ver!
É o FCP do nosso contentamento, José!
Por aqui, têm aparecido uns restaurantes novos, muito simpáticos e uns pubs óptimos para bebermos um copo e conversarmos pela noite fora, quando vieres cá passar uns dias, ao nosso burgo.
Vou terminar por hoje. Cuida-te, diverte-te e namora muito!
Mas, primeiro, certifica-te se a miúda tem cães e jardim. Se tiver, , nem que seja só uma dessas coisas, dá o salto, José! Olha que corres o risco de dormires tu, no tapete e o cão ou a cadela, na cama, com a garota gostosa,(palavra tua!)e teres de plantar florzinhas, no jardim, ao Sábado à tarde!
Quem te avisa...
Um forte abraço, do amigo,
Francisco.
Nota: Receio que este não seja o tipo de texto, politicamente correcto, para figurar num blog, tão bonito e de tanta qualidade, dedicado à Poesia. Se assim for, peço muita desculpa mas, decidi que este 4º e último trabalho de casa deveria ter um registo diferente, deveria ser mais leve, mais descontraído e até mesmo, um bocadinho divertido! Texto mais sério, talvez amanhã!
A verdade, meus queridos Amigos, é que este Francisco que agora vos "fala" se divertiu muito a escrever este e-mail e tem uma tendência danada para ser politicamente incorrecto e... desalinhado!
Maria Celeste Carvalho
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domingo, 19 de outubro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
O mar no seu lugar pôr um relâmpago
Cesare Pavese usou a expressão " O mar parece azeite" e Luís Miguel Nava escreveu o verso "O mar no seu lugar pôr um relâmpago".
São duas frases poéticas, a propósito das quais vou permitir-me divagar, com singeleza e humildade, porque a Poesia, no verdadeiro sentido da palavra, não habita em mim! Não sou poeta! Não é poeta quem quer, ou quem escreve muito, mas quem, como se fora um deus, tem essa chama mágica, esse dom precioso, dentro de si!
O poeta escolhe as palavras, brinca com elas, junta-as, separa-as, mistura-as, a seu gosto e nascem frases assim. como aquelas duas.
O mar, a mim, nunca me pareceu viscoso como o azeite, mas, talvez deslumbrante, como uma cascata luminosa, translúcida de espuma, encantador como um rebanho de carneirinhos brancos e azuis ou, aterrador como um abismo negro, insondável, medonho, em noite de temporal!
Eu nunca pensaria substituir o mar por nada, talvez porque o mar sempre fez parte da minha vida e tenho, por essa massa líquida, imensa e magnífica, com cheiro a sal e a algas, uma atracção irresistível!
Mas, se o fizesse, porque não substituí-lo por um vasto campo de miosótis, pequeninos e azuis, onde eu pudesse dançar descalça, ao som de uma melodia fantástica e única, que o mar tivesse composto e tocasse, onde quer que estivesse, só para mim?
Falando de criação poética, muitos poemas, partindo da fixação descritiva de um determinado aspecto da realidade exterior - a paisagem, o céu, o mar, as flores, os animais - desenvolvem-se num lirismo puro, através da análise de vivências, (experiências), sentimentos, emoções e ideias.
Fernando Pessoa, ortónimo, num dos seus belíssimos poemas sobre a impossibilidade de compatibilização entre o pensar e o sentir, (a dor de pensar), observa o gato que saltita na rua e "pegando" nele, segreda-nos, baixinho, essa dor que o consome:
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Há na escrita poética uma abolição de espaço e de tempo, uma libertação do real e, sempre presente, o anseio do poeta tocar o infinito, o inefável, o indefinível e transcender-se, transcendendo, assim, a realidade.
Nesse sentido, a sintaxe rigorosa dissolve-se pois, a poesia tendendo para a musicalidade, para o ritmo, não pode ser espartilhada por regras, sejam elas quais forem!
A este respeito, Fernando Pessoa afirma: "A arte que se faz com a ideia, e portanto com a palavra tem duas formas - a poesia e a prosa.... Poesia e prosa não se distinguem, pois, senão pelo ritmo. O ritmo corresponde, é certo, a um movimento íntimo da alma ..."
No texto lírico, poético não existe uma história para contar, não é uma narrativa, nem o poeta pretende despertar, no leitor, o desejo de saber como vai acabar o poema.
Como Gomes Ferreira, singelamente, nos confessa, neste extracto de um bonito poema:
" Que bom não saber como um poema acaba!
(...nem que sol segreda
O fio de baba
dos bichos-da-seda).
Apenas palavras que se buscam no papel
Com astros dentro famintas de encontrar."
O carácter não narrativo e não discursivista do texto lírico acentuou-se sobretudo com o movimento literário - o simbolismo.
A Poesia simbolista é uma arte subjectiva e fragmentária, que, como a música sugere,
não diz!
Ao som plangente do seu "Violoncelo", pareceu-me sentir Camilo Pessanha guardar, num suspiro triste, pesado de lágrimas, a sua profunda mágoa e o seu aterrado espanto pela perfeita actualidade do seu poema, datado do fim do século XIX, no País, decadente, quase em ruptura, em que hoje vivemos! Ou, será: em que hoje temos de sobreviver?
Pois, como escreveu José Augusto Saraiva, "...das arcadas do violoncelo emerge um choro convulsivo, que é justamente uma elegia pela pátria amortalhada... este poema, de 1900, é um requiem por Portugal...,na curva mais funda da sua decadência".
Neste belíssimo poema, Pessanha recorda-nos a simbologia da passagem das águas do rio e o som choroso, nostálgico do violoncelo!
Violoncelo
Chorai arcadas,
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos os arcos...
Por baixo passam,
se despedaçam,
No rio, os barcos,
Fundas soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas(ouçam)!
se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas, do violoncelo.
Contudo, para se escrever um poema, tem de se ter experiência, lembranças que se esqueceram mas, que retornam, cristalizadas em nós. O poema não é só sentimento, emoção! É trabalho, aperfeiçoamento e busca.
Como Rainer Maria Rilka afirma num texto admirável e muito belo: " ...Ah, os poemas são tão pouca coisa quando os escrevemos cedo. Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida...Pois os versos não são só sentimento (esses têm-se cedo que baste),- são experiências. Por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã...Tem de se ter lembranças de muitas noites de amor..., de gritos de trabalhos de parto e de mulheres que dão à luz, leves, brancas, adormecidas e se fecham....E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las... Porque as próprias recordações não são nada.Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda."
E, a propósito de duas frases poéticas "O mar parece azeite" e " O mar no seu lugar pôr um relâmpago", o que eu divaguei, os caminhos que trilhei e o que eu gostei de escrever este texto, com Pessoa, com Rilka, com Gomes Ferreira, com Camilo Pessanha, a meu lado! Tão extenso e tão incompleto...
Foi, também, privilégio meu, ter junto a mim, bem ao alcance da mão, o precioso apoio
do Professor Doutor Vitor de Aguiar e Silva, de quem tive o imenso gosto e a honra de ter sido aluna!
" O mar parece um imenso oleado, ondulante e pardo " e "O mar no seu lugar pôr incontáveis cerejeiras em flor e uma fonte´imensa de água e de luz"! Um mar só meu, muitas, muitas cerejeiras perfumadas, em flor, e uma fonte magnífica, só minhas! Para me encantar, para me libertar, para me encontrar e nunca, nunca mais me perder! De mim!
Maria Celeste Carvalho
São duas frases poéticas, a propósito das quais vou permitir-me divagar, com singeleza e humildade, porque a Poesia, no verdadeiro sentido da palavra, não habita em mim! Não sou poeta! Não é poeta quem quer, ou quem escreve muito, mas quem, como se fora um deus, tem essa chama mágica, esse dom precioso, dentro de si!
O poeta escolhe as palavras, brinca com elas, junta-as, separa-as, mistura-as, a seu gosto e nascem frases assim. como aquelas duas.
O mar, a mim, nunca me pareceu viscoso como o azeite, mas, talvez deslumbrante, como uma cascata luminosa, translúcida de espuma, encantador como um rebanho de carneirinhos brancos e azuis ou, aterrador como um abismo negro, insondável, medonho, em noite de temporal!
Eu nunca pensaria substituir o mar por nada, talvez porque o mar sempre fez parte da minha vida e tenho, por essa massa líquida, imensa e magnífica, com cheiro a sal e a algas, uma atracção irresistível!
Mas, se o fizesse, porque não substituí-lo por um vasto campo de miosótis, pequeninos e azuis, onde eu pudesse dançar descalça, ao som de uma melodia fantástica e única, que o mar tivesse composto e tocasse, onde quer que estivesse, só para mim?
Falando de criação poética, muitos poemas, partindo da fixação descritiva de um determinado aspecto da realidade exterior - a paisagem, o céu, o mar, as flores, os animais - desenvolvem-se num lirismo puro, através da análise de vivências, (experiências), sentimentos, emoções e ideias.
Fernando Pessoa, ortónimo, num dos seus belíssimos poemas sobre a impossibilidade de compatibilização entre o pensar e o sentir, (a dor de pensar), observa o gato que saltita na rua e "pegando" nele, segreda-nos, baixinho, essa dor que o consome:
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Há na escrita poética uma abolição de espaço e de tempo, uma libertação do real e, sempre presente, o anseio do poeta tocar o infinito, o inefável, o indefinível e transcender-se, transcendendo, assim, a realidade.
Nesse sentido, a sintaxe rigorosa dissolve-se pois, a poesia tendendo para a musicalidade, para o ritmo, não pode ser espartilhada por regras, sejam elas quais forem!
A este respeito, Fernando Pessoa afirma: "A arte que se faz com a ideia, e portanto com a palavra tem duas formas - a poesia e a prosa.... Poesia e prosa não se distinguem, pois, senão pelo ritmo. O ritmo corresponde, é certo, a um movimento íntimo da alma ..."
No texto lírico, poético não existe uma história para contar, não é uma narrativa, nem o poeta pretende despertar, no leitor, o desejo de saber como vai acabar o poema.
Como Gomes Ferreira, singelamente, nos confessa, neste extracto de um bonito poema:
" Que bom não saber como um poema acaba!
(...nem que sol segreda
O fio de baba
dos bichos-da-seda).
Apenas palavras que se buscam no papel
Com astros dentro famintas de encontrar."
O carácter não narrativo e não discursivista do texto lírico acentuou-se sobretudo com o movimento literário - o simbolismo.
A Poesia simbolista é uma arte subjectiva e fragmentária, que, como a música sugere,
não diz!
Ao som plangente do seu "Violoncelo", pareceu-me sentir Camilo Pessanha guardar, num suspiro triste, pesado de lágrimas, a sua profunda mágoa e o seu aterrado espanto pela perfeita actualidade do seu poema, datado do fim do século XIX, no País, decadente, quase em ruptura, em que hoje vivemos! Ou, será: em que hoje temos de sobreviver?
Pois, como escreveu José Augusto Saraiva, "...das arcadas do violoncelo emerge um choro convulsivo, que é justamente uma elegia pela pátria amortalhada... este poema, de 1900, é um requiem por Portugal...,na curva mais funda da sua decadência".
Neste belíssimo poema, Pessanha recorda-nos a simbologia da passagem das águas do rio e o som choroso, nostálgico do violoncelo!
Violoncelo
Chorai arcadas,
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos os arcos...
Por baixo passam,
se despedaçam,
No rio, os barcos,
Fundas soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas(ouçam)!
se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas, do violoncelo.
Contudo, para se escrever um poema, tem de se ter experiência, lembranças que se esqueceram mas, que retornam, cristalizadas em nós. O poema não é só sentimento, emoção! É trabalho, aperfeiçoamento e busca.
Como Rainer Maria Rilka afirma num texto admirável e muito belo: " ...Ah, os poemas são tão pouca coisa quando os escrevemos cedo. Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida...Pois os versos não são só sentimento (esses têm-se cedo que baste),- são experiências. Por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã...Tem de se ter lembranças de muitas noites de amor..., de gritos de trabalhos de parto e de mulheres que dão à luz, leves, brancas, adormecidas e se fecham....E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las... Porque as próprias recordações não são nada.Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda."
E, a propósito de duas frases poéticas "O mar parece azeite" e " O mar no seu lugar pôr um relâmpago", o que eu divaguei, os caminhos que trilhei e o que eu gostei de escrever este texto, com Pessoa, com Rilka, com Gomes Ferreira, com Camilo Pessanha, a meu lado! Tão extenso e tão incompleto...
Foi, também, privilégio meu, ter junto a mim, bem ao alcance da mão, o precioso apoio
do Professor Doutor Vitor de Aguiar e Silva, de quem tive o imenso gosto e a honra de ter sido aluna!
" O mar parece um imenso oleado, ondulante e pardo " e "O mar no seu lugar pôr incontáveis cerejeiras em flor e uma fonte´imensa de água e de luz"! Um mar só meu, muitas, muitas cerejeiras perfumadas, em flor, e uma fonte magnífica, só minhas! Para me encantar, para me libertar, para me encontrar e nunca, nunca mais me perder! De mim!
Maria Celeste Carvalho
A "minha" África ...
África foi o meu berço, foi a minha escola, foi o meu primeiro amor. Aí cresci, como uma flor que desponta, estremece e desabrocha devagar, nas meias-tintas suaves das madrugadas, na luz forte e exausta dos poentes .
E, parte das minhas raízes ainda lá estão, na terra imensa, suada, sofrida: junto ao embondeiro gigantesco, sentinela imponente da savana africana; junto ao mar, enterradas na areia fina, translúcida e, talvez também, no coração da Ana, a ama-seca negra que me embalou, com doçura, nos braços roliços e macios e me contava histórias que eu escutava, ansiosa, com os olhos redondos de satisfação e de espanto !
A Ana que eu gostaria de ter guardado comigo, só para mim, até ao fim dos meus dias, mas que, por um desígnio mais forte do que todo o querer do mundo, também perdi .
Dela, ficaram, para sempre, docemente aninhadas no meu coração, a ternura, a alegria, as canções de ninar e o encantamento das pequenas histórias, onde a realidade ingénua da sua vivência, o místico e o fantástico se entrelaçavam numa harmonia perfeita e estranha, como se a Ana tivesse, em si, toda a força, todo o mistério e todo o fascínio de África!
África do sol quente, dolente e voluptuoso; do capim, descorado e ressequido e das árvores espectrais, erguidas para o céu, na época seca, como mãos descarnadas, implorantes, quase mortas . Mas, também África da vegetação luxuriante, plantas raras, únicas, de folhagem verde e macia, onde o cacimbo escorre, tranquilo e límpido como lágrimas de reconciliação .
África dos flamingos cor-de-rosa, toque de delicado romantismo nos mangais; dos pássaros de mil cores que cortam o espaço numa vibração de alegria e de plenitude; dos animais selvagens, senhores absolutos de uma terra que é sua, estampas de perfeição e imponência, que aí se criam e reproduzem, numa estonteante explosão de vida e de beleza.
África da espantosa riqueza do minério e das pedras preciosas; das extensas plantações de cana-de-açúcar, do algodão e do café que, em muitas zonas, se oferece espontâneo e farto, num esbanjamento de fidalguia abastada !
África das baías azuis, langorosas e doces como um regaço de mãe; das areias delicadas e douradas como carícias de criança; dos palmeirais esguios, lânguidos e ondulantes, que o vento agita mansamente, amorosamente, com requintes de amante !
África do cheiro consolado da terra depois da chuva. Chuvadas fortes, repentinas, benção do céu que fecunda e cria; das trovoadas violentas, assustadoras que atroam os ares e despertam, malévolas, os velhos medos de infância; dos poentes breves, mas intensos, clarões fortes, vermelhos, sanguinolentos como lagos incandescentes de amor, de ciúme e de traição!
África do cantar monocórdico das cigarras; da alegria atrevida, provocante das acácias em flor; dos milhares de pirilampos, pequenos pontos de luz perdidos no escuro profundo de uma terra adormecida!
E, à sexta-feira à noite, no frenesim das batucadas que irrompem súbitas no ar, África estremece vibrante e ansiosa. Nas sanzalas, os corpos negros, elásticos, suados, agitam-se indomáveis, em frémitos de prazer e de paixão, à luz ardente das fogueiras, ao som agreste e exuberante dos batuques! E, durante duas noites, a sanzala cuidada e pachorrenta, transfigura-se ao ritmo inquietante dos tambores, na sensualidade lasciva da dança, nas brigas violentas, em tremendas bebedeiras!
África do andar lento e requebrado das negras, corpos sinuosos, indolentes, envoltos em panos coloridos, artisticamente traçados, carregando com naturalidade e alegria os filhos que criam livremente, sem pressas e sem angústia, confiantes na força de uma Natureza tantas vezes caprichosa e nem sempre compassiva, mas que respeitam e amam !
Mulheres que aceitam, submissas, o pesado fardo de viver, bebem aguardente de cana, que destilam em alambiques caseiros e saboreiam, vagarosamente, gostosamente, o tabaco ordinário e forte, que fumam com a ponta acesa dentro da boca.
África da gente simples, alegre, dedicada, gente de pele negra, mas onde pulsam corações lindos, puros e cristalinos, que enfeitaram, parte da minha vida, com sorrisos, afecto e luz! E, todos e muitos são, permanecem nítidos, vivos na minha memória!
O Faustino, religioso convicto, a quem eu dava "santinhos" para me deixar comer as batatas estaladiças que ele ía, incessantemente, fritando para o jantar; a Averina, a nossa lavadeira, que adorava o chá da manhã e dizia que, quando eu fosse "grande", ficaria comigo para cuidar de mim e dos meus filhos; o Chipeco que me conhecia desde o berço e sempre que eu, já universitária, viajava até casa, em férias, ía visitar-me, abraçava-me, dizia que eu estava linda mas magrinha e, talvez por isso, oferecia-me, invariavelmente, ovos das galinhas que a mulher criava, na sanzala e um pão de forma branco, macio e fofo, com o doce sabor da ternura; o Mussarilo, que adorava o meu pai, porque ele ajudava-o, muitas vezes, sobretudo, economicamente, e que insistia, teimosamente, em lavar-lhe o carro, todos os dias, e poli-lo até parecer um espelho! O meu pai comovia-se e ficava um bocadinho embaraçado, mas sabia que essa era uma maneira delicada e, talvez a única que, na sua simplicidade, ele tinha, para lhe dizer quanto o estimava e lhe estava grato!
África dos grandes espaços abertos, imensos, impressão de infinito que nos conduz muito para além do trivial e do medíocre, dando-nos da vida e do universo que nós somos, perspectivas novas, mais amplas, mais humanas como se ali, o pensamento e o mundo adquirissem dimensões diferentes, maiores e mais profundas.
Estive, pela última vez, na "minha" África há muitos anos, tantos, que não os quero contar, poucos dias antes de partir rumo a uma Europa bem mais sofisticada, fria e cinzenta.
Nesse dia, frente a mim, resplandecia um pouco da África exuberante e misteriosa que amei apaixonadamente e que, para sempre, retenho na minha memória, nos meus sentidos, nas minhas veias, como parte integrante de mim, como uma marca de fogo, indelével! E, essa terra vermelha, de contrastes vivos e bem marcados, que ainda vejo e guardo na minha alma, permanece bela e intacta, depurada de todo o Mal, pelo filtro mágico da distância e da nostalgia !
Contudo, não é sem espanto e mágoa que, em momentos como este, me vou dando conta do muito que já esqueci. Pedaços de vida que já não são meus, perdidos na névoa de um Passado, aqui e ali, já morto, porque, aqui e ali, já desvanecido pela erosão implacável do Tempo !
E, nas clareiras que os anos foram abrindo na minha memória, ergue-se, solitária e dorida, a Cruz negra da Saudade e florescem, cansadas, estranhas violetas, sem viço e sem perfume!
Naquele dia, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, estendia-se frente a mim um pedaço da "minha" África, num deslumbramento de cascatas, vegetação e árvores altas, numa sinfonia de luz, de sons sussurrantes e de verdes de mil matizes, a mais bela e majestosa catedral, para o mais fantástico Te Deum.
Sem pressas, sem dramatismos, encerrou-se, então, suavemente mas para sempre, um ciclo precioso da minha vida. Foi o ponto final de uma Infância e Juventude sem história, porque dias felizes não têm história, vividos em Cinemascope e em Technicolor, porque tudo em África é, naturalmente, grande, colorido, luminoso!
Ali, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, naquela hora singular, feita de encantamento e de lágrimas, a minha alma rasgou-se numa prece sentida, que era já um infinito adeus:"Domine, miserere nobis! Domine, miserere me!"
Maria Celeste Carvalho
E, parte das minhas raízes ainda lá estão, na terra imensa, suada, sofrida: junto ao embondeiro gigantesco, sentinela imponente da savana africana; junto ao mar, enterradas na areia fina, translúcida e, talvez também, no coração da Ana, a ama-seca negra que me embalou, com doçura, nos braços roliços e macios e me contava histórias que eu escutava, ansiosa, com os olhos redondos de satisfação e de espanto !
A Ana que eu gostaria de ter guardado comigo, só para mim, até ao fim dos meus dias, mas que, por um desígnio mais forte do que todo o querer do mundo, também perdi .
Dela, ficaram, para sempre, docemente aninhadas no meu coração, a ternura, a alegria, as canções de ninar e o encantamento das pequenas histórias, onde a realidade ingénua da sua vivência, o místico e o fantástico se entrelaçavam numa harmonia perfeita e estranha, como se a Ana tivesse, em si, toda a força, todo o mistério e todo o fascínio de África!
África do sol quente, dolente e voluptuoso; do capim, descorado e ressequido e das árvores espectrais, erguidas para o céu, na época seca, como mãos descarnadas, implorantes, quase mortas . Mas, também África da vegetação luxuriante, plantas raras, únicas, de folhagem verde e macia, onde o cacimbo escorre, tranquilo e límpido como lágrimas de reconciliação .
África dos flamingos cor-de-rosa, toque de delicado romantismo nos mangais; dos pássaros de mil cores que cortam o espaço numa vibração de alegria e de plenitude; dos animais selvagens, senhores absolutos de uma terra que é sua, estampas de perfeição e imponência, que aí se criam e reproduzem, numa estonteante explosão de vida e de beleza.
África da espantosa riqueza do minério e das pedras preciosas; das extensas plantações de cana-de-açúcar, do algodão e do café que, em muitas zonas, se oferece espontâneo e farto, num esbanjamento de fidalguia abastada !
África das baías azuis, langorosas e doces como um regaço de mãe; das areias delicadas e douradas como carícias de criança; dos palmeirais esguios, lânguidos e ondulantes, que o vento agita mansamente, amorosamente, com requintes de amante !
África do cheiro consolado da terra depois da chuva. Chuvadas fortes, repentinas, benção do céu que fecunda e cria; das trovoadas violentas, assustadoras que atroam os ares e despertam, malévolas, os velhos medos de infância; dos poentes breves, mas intensos, clarões fortes, vermelhos, sanguinolentos como lagos incandescentes de amor, de ciúme e de traição!
África do cantar monocórdico das cigarras; da alegria atrevida, provocante das acácias em flor; dos milhares de pirilampos, pequenos pontos de luz perdidos no escuro profundo de uma terra adormecida!
E, à sexta-feira à noite, no frenesim das batucadas que irrompem súbitas no ar, África estremece vibrante e ansiosa. Nas sanzalas, os corpos negros, elásticos, suados, agitam-se indomáveis, em frémitos de prazer e de paixão, à luz ardente das fogueiras, ao som agreste e exuberante dos batuques! E, durante duas noites, a sanzala cuidada e pachorrenta, transfigura-se ao ritmo inquietante dos tambores, na sensualidade lasciva da dança, nas brigas violentas, em tremendas bebedeiras!
África do andar lento e requebrado das negras, corpos sinuosos, indolentes, envoltos em panos coloridos, artisticamente traçados, carregando com naturalidade e alegria os filhos que criam livremente, sem pressas e sem angústia, confiantes na força de uma Natureza tantas vezes caprichosa e nem sempre compassiva, mas que respeitam e amam !
Mulheres que aceitam, submissas, o pesado fardo de viver, bebem aguardente de cana, que destilam em alambiques caseiros e saboreiam, vagarosamente, gostosamente, o tabaco ordinário e forte, que fumam com a ponta acesa dentro da boca.
África da gente simples, alegre, dedicada, gente de pele negra, mas onde pulsam corações lindos, puros e cristalinos, que enfeitaram, parte da minha vida, com sorrisos, afecto e luz! E, todos e muitos são, permanecem nítidos, vivos na minha memória!
O Faustino, religioso convicto, a quem eu dava "santinhos" para me deixar comer as batatas estaladiças que ele ía, incessantemente, fritando para o jantar; a Averina, a nossa lavadeira, que adorava o chá da manhã e dizia que, quando eu fosse "grande", ficaria comigo para cuidar de mim e dos meus filhos; o Chipeco que me conhecia desde o berço e sempre que eu, já universitária, viajava até casa, em férias, ía visitar-me, abraçava-me, dizia que eu estava linda mas magrinha e, talvez por isso, oferecia-me, invariavelmente, ovos das galinhas que a mulher criava, na sanzala e um pão de forma branco, macio e fofo, com o doce sabor da ternura; o Mussarilo, que adorava o meu pai, porque ele ajudava-o, muitas vezes, sobretudo, economicamente, e que insistia, teimosamente, em lavar-lhe o carro, todos os dias, e poli-lo até parecer um espelho! O meu pai comovia-se e ficava um bocadinho embaraçado, mas sabia que essa era uma maneira delicada e, talvez a única que, na sua simplicidade, ele tinha, para lhe dizer quanto o estimava e lhe estava grato!
África dos grandes espaços abertos, imensos, impressão de infinito que nos conduz muito para além do trivial e do medíocre, dando-nos da vida e do universo que nós somos, perspectivas novas, mais amplas, mais humanas como se ali, o pensamento e o mundo adquirissem dimensões diferentes, maiores e mais profundas.
Estive, pela última vez, na "minha" África há muitos anos, tantos, que não os quero contar, poucos dias antes de partir rumo a uma Europa bem mais sofisticada, fria e cinzenta.
Nesse dia, frente a mim, resplandecia um pouco da África exuberante e misteriosa que amei apaixonadamente e que, para sempre, retenho na minha memória, nos meus sentidos, nas minhas veias, como parte integrante de mim, como uma marca de fogo, indelével! E, essa terra vermelha, de contrastes vivos e bem marcados, que ainda vejo e guardo na minha alma, permanece bela e intacta, depurada de todo o Mal, pelo filtro mágico da distância e da nostalgia !
Contudo, não é sem espanto e mágoa que, em momentos como este, me vou dando conta do muito que já esqueci. Pedaços de vida que já não são meus, perdidos na névoa de um Passado, aqui e ali, já morto, porque, aqui e ali, já desvanecido pela erosão implacável do Tempo !
E, nas clareiras que os anos foram abrindo na minha memória, ergue-se, solitária e dorida, a Cruz negra da Saudade e florescem, cansadas, estranhas violetas, sem viço e sem perfume!
Naquele dia, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, estendia-se frente a mim um pedaço da "minha" África, num deslumbramento de cascatas, vegetação e árvores altas, numa sinfonia de luz, de sons sussurrantes e de verdes de mil matizes, a mais bela e majestosa catedral, para o mais fantástico Te Deum.
Sem pressas, sem dramatismos, encerrou-se, então, suavemente mas para sempre, um ciclo precioso da minha vida. Foi o ponto final de uma Infância e Juventude sem história, porque dias felizes não têm história, vividos em Cinemascope e em Technicolor, porque tudo em África é, naturalmente, grande, colorido, luminoso!
Ali, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, naquela hora singular, feita de encantamento e de lágrimas, a minha alma rasgou-se numa prece sentida, que era já um infinito adeus:"Domine, miserere nobis! Domine, miserere me!"
Maria Celeste Carvalho
domingo, 5 de outubro de 2008
Ar do rio
Origem ...
Ossos ocos, aéreos, invadidos
Penas terríveis!
Aves ... ar ... calor...
Ar do rio
Percorresse
O interior, primo, próximo
Isoladamente ...
Elo recente, novo artigo
Ar
Libertar aves, linhagem, penas ...
Mais leves!
Resto de pele
Elefante ... ar ... excesso!
Maria Celeste Carvalho
( Que Deus me perdoe por ousar publicar este "elefante" estas "aves" e
estas "penas" ao lado de Pessoa e de Cesário!)
Ossos ocos, aéreos, invadidos
Penas terríveis!
Aves ... ar ... calor...
Ar do rio
Percorresse
O interior, primo, próximo
Isoladamente ...
Elo recente, novo artigo
Ar
Libertar aves, linhagem, penas ...
Mais leves!
Resto de pele
Elefante ... ar ... excesso!
Maria Celeste Carvalho
( Que Deus me perdoe por ousar publicar este "elefante" estas "aves" e
estas "penas" ao lado de Pessoa e de Cesário!)
sábado, 4 de outubro de 2008
Para a Xica ... com Amor !
Hoje, dia quatro de Outubro, é dedicado a S. Francisco de Assis, o Santo protector dos
Animais e a data mais bonita e indicada para recordar uma criaturinha encantadora que tem permanecido na minha memória, como um poderoso testemunho de amor e de entrega!
O animal que hoje aqui vou homenagear é, talvez, um dos mais belos e comoventes motivos da tela, onde vou registando, com tinta de riso e de luz ou de lágrimas e de sombra, cada um dos meus dias, embora, na minha vida, tenha sido apenas uma doce e indelével referência: a Xica, uma pequena e graciosa macaca! A tela a que realmente pertenceu e onde deixou gravada a sua marca, em pinceladas de amor, alegria e doçura, é outra, há muito tempo, interrompida!
Nasci em África. Uma África, então, pacífica, bordada de mar e enfeitada de cores alegres e cintilantes, envolta em sol ardente e cheiros doces e fortes, num arrebatamento de pura beleza e imensidão!
Nesse tempo, faziam-se, ao fim de semana, longos e deliciosos piqueniques, mato adentro, alegres pretextos para convívios familiares e de amigos.
Num desses piqueniques, na Anha, ainda eu não era nascida, a minha Mãe viu e nunca mais perdeu de vista, o que ela pensou ser um macaco, ainda pequeno, meio escondido, fugidio, mas curioso e a seguir, interessado mas, à distância, a divertida reunião.
A certa altura, uns olhos grandes, escuros e redondos como contas, cruzaram-se com os olhos claros de minha Mãe. Olharam-se, mediram-se, entenderam-se e começou, então, um silencioso jogo de sedução e conquista.
Vencido o receio, uma mãozinha esguia, escura e felpuda, perdeu-se, confiante, numa outra, branca e fina que a acolheu ternamente. Ao cair da tarde, no regresso a casa, a pequena macaca, (afinal era uma menina ), que decerto se perdera do bando, já tinha um lar, uma família e um nome: Xica!
E, entre a senhora de olhos claros e a pequena macaquita, nascia uma delicada mas forte relação de afecto e de uma imensa ternura!
Uns dois anos mais tarde, nasci eu e lembro-me de, já crescida, ver fotografias, aquelas fotografias antigas, a preto e branco, com uma pequena margem branca, recortada, onde a minha Mãe sorria e a Xica, os olhos grandes, escuros e redondos, como contas e a boca rasgada num pretenso "sorriso" de dentes brancos, se sentava no seu ombro esquerdo e lhe abraçava o pescoço alto e fino, com a mãozinha esguia, escura e felpuda; noutras, as duas, de mãos dadas, olhavam, divertidas, uma para a outra, numa afectuosa cumplicidade; em algumas, já eu aparecia, risonha, ao colo de minha Mãe, enquanto, a Xica, no chão, agarrada à sua saia, olhava atenta e enternecida, quero crer, mas não tenho a certeza, para nós duas.
Lembro-me de uma fotografia, onde eu e a Xica, estávamos sentadas numa esteira; eu, convencida que era a menina mais bonita da minha rua, fixava, em pose, o fotógrafo, que era, certamente, o meu pai, enquanto a Xica, a meu lado, se inclinava, para mim, com a mãozinha esguia, escura e felpuda pousada, docemente, no meu braço.
Mas, a de que eu sempre mais gostei, era aquela onde eu me aninhava, pequenina, nos braços macios de minha Mãe que sorria, com a Xica, empoleirada no seu ombro, a abraçar-lhe o pescoço alto e fino, ao mesmo tempo que, com o seu peculiar e rasgado "sorriso" de dentes brancos, transbordante de alegria, olhava, vaidosa, para o fotógrafo!
A Felicidade não é permanente! A Felicidade pode estar, simplesmente, nuns minutos, numa hora, quiçá, num dia, plenamente, radiosamente, vividos; pode estar no arroubo de um amor, julgado perdido; no instante fugaz, mas perfeito, de dois olhares que se cruzam e se dissolvem na mesma luz; na esfuziante alegria de um reencontro, há muito tempo adiado; numa notícia boa, ansiosamente esperada; num abraço apertado, tão desejado! Ainda que inconscientemente, sempre pressenti que, naquela fotografia, tinha ficado, para sempre registado, um desses raros e mágicos momentos, de suprema Felicidade que a vida, às vezes, generosamente, nos concede!
E, os dias foram transcorrendo serenos e rotineiros.
Quando eu tinha dois anos, a minha Mãe adoeceu gravemente e viajámos, à pressa, para o Continente, na vã esperança de a salvar e onde, porque a doença podia ainda ser contagiosa, nenhum familiar nos quis receber! Foram amigos que nos ajudaram e acolheram! De coração aberto e sem medo, numa preciosa dádiva de solidariedade e de afecto!
A Xica e a Pequenina, a cadela enorme que, de pequenina só tinha o nome, lá ficaram,
em África, entregues aos cuidados dos meus tios.
A Pequenina deixou de comer uns dias e sentiu, profundamente, a falta dos donos mas, recuperou. O instinto primário de conservação da vida foi mais forte do que o desamparo da ausência, do que a opressão da saudade!
A Xica, a macaquinha meio-selvagem, encontrada sozinha no mato, não!
Deixou-se ficar, teimosamente, sentada num recanto do jardim, com os olhos grandes, escuros e redondos como contas, à espera de ver entrar a minha Mãe, a qualquer momento.
Nunca mais comeu, nunca mais quis brincar, recusou, furiosa, sentar-se no ombro da minha tia e nunca mais saiu do recanto onde seria mais provável ver chegar, enfim, a luz que lhe iluminava a vida, cada dia mais débil, os olhos, sem expressão, cada vez maiores e mais redondos!
Uma manhã, pouco tempo depois, os meus tios encontraram a Xica estendida, imóvel, as mãozinhas esguias, escuras e felpudas, abertas num pungente abandono, o olhar vazio, transfixo. Tinha morrido!
A minha Mãe, que faleceu meses depois, nunca soube que a Xica, a macaquita indefesa que resgatara do mato, resgatando-a, assim, da fome, da solidão e do perigo, tinha desistido de viver, mergulhada na tristeza da sua falta, esgotada da angustiante expectativa de a voltar a ver e abraçar!
Eu, a filha única, desejada e querida, sobrevivi à dor, sem remédio, da sua perda; ao vazio, nunca inteiramente preenchido, da sua ausência; à amputação dolorosa do pequeno mundo dos meus afectos e bebi, cada dia de vida, a haustos longos e ávidos! Mas, a Xica não! A Xica desistiu e deixou-se morrer, presa numa dolorosa teia de amargura e afundada no desespero de uma infinita saudade!
Às vezes, nas minhas noites de insónia, como esta, imagino-as juntas, num jardim imenso, luminoso e perfumado: a minha Mãe sorrindo e a Xica, os olhos grandes, escuros e redondos como contas, para sempre feliz, sentada no seu ombro esquerdo, enquanto a abraça, amorosamente, com o seu bracinho longo e peludo, como na velha fotografia , a preto e branco mas, onde, incompleta, ainda permanecem vazios, os braços de minha Mãe!
Nota: Só é possível tirar a cria a uma macaca, matando-a! Imagino hoje, como a minha Mãe deve ter sentido então, o desespero da mãe da Xica e dela própria, quando, desgraçadamente, se perderam uma da outra!
Mas, só assim, a Xica pôde ser uma benção de dedicação, de ternura e de alegria na nossa família, especialmente, para com a senhora de olhos claros, a quem dedicou, amorosamente,
inteiramente, apaixonadamente, a sua vida!
Maria Celeste S. M. Carvalho
Animais e a data mais bonita e indicada para recordar uma criaturinha encantadora que tem permanecido na minha memória, como um poderoso testemunho de amor e de entrega!
O animal que hoje aqui vou homenagear é, talvez, um dos mais belos e comoventes motivos da tela, onde vou registando, com tinta de riso e de luz ou de lágrimas e de sombra, cada um dos meus dias, embora, na minha vida, tenha sido apenas uma doce e indelével referência: a Xica, uma pequena e graciosa macaca! A tela a que realmente pertenceu e onde deixou gravada a sua marca, em pinceladas de amor, alegria e doçura, é outra, há muito tempo, interrompida!
Nasci em África. Uma África, então, pacífica, bordada de mar e enfeitada de cores alegres e cintilantes, envolta em sol ardente e cheiros doces e fortes, num arrebatamento de pura beleza e imensidão!
Nesse tempo, faziam-se, ao fim de semana, longos e deliciosos piqueniques, mato adentro, alegres pretextos para convívios familiares e de amigos.
Num desses piqueniques, na Anha, ainda eu não era nascida, a minha Mãe viu e nunca mais perdeu de vista, o que ela pensou ser um macaco, ainda pequeno, meio escondido, fugidio, mas curioso e a seguir, interessado mas, à distância, a divertida reunião.
A certa altura, uns olhos grandes, escuros e redondos como contas, cruzaram-se com os olhos claros de minha Mãe. Olharam-se, mediram-se, entenderam-se e começou, então, um silencioso jogo de sedução e conquista.
Vencido o receio, uma mãozinha esguia, escura e felpuda, perdeu-se, confiante, numa outra, branca e fina que a acolheu ternamente. Ao cair da tarde, no regresso a casa, a pequena macaca, (afinal era uma menina ), que decerto se perdera do bando, já tinha um lar, uma família e um nome: Xica!
E, entre a senhora de olhos claros e a pequena macaquita, nascia uma delicada mas forte relação de afecto e de uma imensa ternura!
Uns dois anos mais tarde, nasci eu e lembro-me de, já crescida, ver fotografias, aquelas fotografias antigas, a preto e branco, com uma pequena margem branca, recortada, onde a minha Mãe sorria e a Xica, os olhos grandes, escuros e redondos, como contas e a boca rasgada num pretenso "sorriso" de dentes brancos, se sentava no seu ombro esquerdo e lhe abraçava o pescoço alto e fino, com a mãozinha esguia, escura e felpuda; noutras, as duas, de mãos dadas, olhavam, divertidas, uma para a outra, numa afectuosa cumplicidade; em algumas, já eu aparecia, risonha, ao colo de minha Mãe, enquanto, a Xica, no chão, agarrada à sua saia, olhava atenta e enternecida, quero crer, mas não tenho a certeza, para nós duas.
Lembro-me de uma fotografia, onde eu e a Xica, estávamos sentadas numa esteira; eu, convencida que era a menina mais bonita da minha rua, fixava, em pose, o fotógrafo, que era, certamente, o meu pai, enquanto a Xica, a meu lado, se inclinava, para mim, com a mãozinha esguia, escura e felpuda pousada, docemente, no meu braço.
Mas, a de que eu sempre mais gostei, era aquela onde eu me aninhava, pequenina, nos braços macios de minha Mãe que sorria, com a Xica, empoleirada no seu ombro, a abraçar-lhe o pescoço alto e fino, ao mesmo tempo que, com o seu peculiar e rasgado "sorriso" de dentes brancos, transbordante de alegria, olhava, vaidosa, para o fotógrafo!
A Felicidade não é permanente! A Felicidade pode estar, simplesmente, nuns minutos, numa hora, quiçá, num dia, plenamente, radiosamente, vividos; pode estar no arroubo de um amor, julgado perdido; no instante fugaz, mas perfeito, de dois olhares que se cruzam e se dissolvem na mesma luz; na esfuziante alegria de um reencontro, há muito tempo adiado; numa notícia boa, ansiosamente esperada; num abraço apertado, tão desejado! Ainda que inconscientemente, sempre pressenti que, naquela fotografia, tinha ficado, para sempre registado, um desses raros e mágicos momentos, de suprema Felicidade que a vida, às vezes, generosamente, nos concede!
E, os dias foram transcorrendo serenos e rotineiros.
Quando eu tinha dois anos, a minha Mãe adoeceu gravemente e viajámos, à pressa, para o Continente, na vã esperança de a salvar e onde, porque a doença podia ainda ser contagiosa, nenhum familiar nos quis receber! Foram amigos que nos ajudaram e acolheram! De coração aberto e sem medo, numa preciosa dádiva de solidariedade e de afecto!
A Xica e a Pequenina, a cadela enorme que, de pequenina só tinha o nome, lá ficaram,
em África, entregues aos cuidados dos meus tios.
A Pequenina deixou de comer uns dias e sentiu, profundamente, a falta dos donos mas, recuperou. O instinto primário de conservação da vida foi mais forte do que o desamparo da ausência, do que a opressão da saudade!
A Xica, a macaquinha meio-selvagem, encontrada sozinha no mato, não!
Deixou-se ficar, teimosamente, sentada num recanto do jardim, com os olhos grandes, escuros e redondos como contas, à espera de ver entrar a minha Mãe, a qualquer momento.
Nunca mais comeu, nunca mais quis brincar, recusou, furiosa, sentar-se no ombro da minha tia e nunca mais saiu do recanto onde seria mais provável ver chegar, enfim, a luz que lhe iluminava a vida, cada dia mais débil, os olhos, sem expressão, cada vez maiores e mais redondos!
Uma manhã, pouco tempo depois, os meus tios encontraram a Xica estendida, imóvel, as mãozinhas esguias, escuras e felpudas, abertas num pungente abandono, o olhar vazio, transfixo. Tinha morrido!
A minha Mãe, que faleceu meses depois, nunca soube que a Xica, a macaquita indefesa que resgatara do mato, resgatando-a, assim, da fome, da solidão e do perigo, tinha desistido de viver, mergulhada na tristeza da sua falta, esgotada da angustiante expectativa de a voltar a ver e abraçar!
Eu, a filha única, desejada e querida, sobrevivi à dor, sem remédio, da sua perda; ao vazio, nunca inteiramente preenchido, da sua ausência; à amputação dolorosa do pequeno mundo dos meus afectos e bebi, cada dia de vida, a haustos longos e ávidos! Mas, a Xica não! A Xica desistiu e deixou-se morrer, presa numa dolorosa teia de amargura e afundada no desespero de uma infinita saudade!
Às vezes, nas minhas noites de insónia, como esta, imagino-as juntas, num jardim imenso, luminoso e perfumado: a minha Mãe sorrindo e a Xica, os olhos grandes, escuros e redondos como contas, para sempre feliz, sentada no seu ombro esquerdo, enquanto a abraça, amorosamente, com o seu bracinho longo e peludo, como na velha fotografia , a preto e branco mas, onde, incompleta, ainda permanecem vazios, os braços de minha Mãe!
Nota: Só é possível tirar a cria a uma macaca, matando-a! Imagino hoje, como a minha Mãe deve ter sentido então, o desespero da mãe da Xica e dela própria, quando, desgraçadamente, se perderam uma da outra!
Mas, só assim, a Xica pôde ser uma benção de dedicação, de ternura e de alegria na nossa família, especialmente, para com a senhora de olhos claros, a quem dedicou, amorosamente,
inteiramente, apaixonadamente, a sua vida!
Maria Celeste S. M. Carvalho
domingo, 28 de setembro de 2008
Três mil anos de caçadas...
É um livro aberto...
Lâminas partidas,
Pedras...
Restos...
Desenhos, marfim e ... cenas esculpidas!
Artefacto...
Imagem de baleias,
Como marcação...caçadas!
Últimos dias de ...três mil anos...
Maria Celeste Carvalho
Lâminas partidas,
Pedras...
Restos...
Desenhos, marfim e ... cenas esculpidas!
Artefacto...
Imagem de baleias,
Como marcação...caçadas!
Últimos dias de ...três mil anos...
Maria Celeste Carvalho
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