segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O “poema”

O poema olha-me de viés enquanto escrevo.
Reclama palavras teatrais,
conjugações antológicas:
uma pequenina luz bruxuleante
um ramalhete rubro de papoulas
uma alameda inteira de rododendros


Olho o papel em branco
e o poema agiganta-se
Adamastonda-se
Pede mar, mar, muito mar
(daquele de ir e voltar)
e amor também:
se possível urgente,
com um nadinha de Penélope

Digo-lhe que sou pequena, que não sou nada,
que da minha aldeia não se vê o mundo.
- Mas ser poeta é ser mais alto e por um poema tudo vale a pena.
Responde

Eu não sei conjugar pretéritos perfeitos
nem sonhar em sereno sobressalto,
mas ele exige desinências complexas
e palavras esdrúxulas,
a saber a chocolate e eternidade.
Quer sílabas capazes de atravessar o deserto
sonetos que ardam sem se ver
e odes marítimas a cheirar a pátria

Não sei se o poema me levará no tempo
quando eu já não for eu


No fundo de mim, sei que o traí,
pois ainda não escrevi
o poema que acaba aqui.

Teresa Almeida Pinto


Para além da alusão a vários poemas, este “poema” tem referências directas de:
Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena
O ramalhete rubro das papoulas, Cesário Verde
O Excesso Mais Perfeito, Ana Luísa Amaral
Tabacaria, Álvaro de Campos
Ser Poeta, Florbela Espanca
Mar Português, Fernando Pessoa
Poema, Sophia de Mello Breyner

sábado, 17 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral no Ípsilon: O que é Cultura Geral?

                                         


Ana Luísa Amaral

Poeta, professora universitária, 1956


Obras seleccionadas:
O Cavaleiro da Dinamarca Sophia de Mello Breyner
Toda a poesia de Emily Dickinson
O Jogador Dostoievski
As peças (quase todas) e os sonetos de William Shakespeare
A canção Veinte años Patxi Andión
A poesia toda de William Blake
A canção A noite passada Sérgio Godinho
O acto O coro dos escravos hebreus, Ópera Nabucco, de Verdi
A tapeçaria A Dama e o Unicórnio
Tempos ModernosCharlie Chaplin

O que é que pode lançar mundos no mundo? A arte, o pensamento, a palavra — e talvez, no exercício dela e na paixão por ela, a palavra da poesia, porque é a menos sujeita às leis do mercado, a mais livre. A palavra faz sentir e faz pensar. Por esta razão, por exemplo, para o estado de ditadura social em que nos movemos, a incultura e a falta de pensamento são úteis: porque uma pessoa que pensa é uma pessoa que questiona, que exige, que resiste.

Se pensarmos que a palavra “cultura” vem de “cultivar” e que se refere inicialmente ao amanho da terra, então ela tem que ver com preparação, com cuidado, com aprimoramento de capacidades que estão latentes em todos e todas nós e que vão sendo desenvolvidas através da comunicação. Ter cultura geral incluiria conhecer a Bíblia, claro, tanto quanto a Pietá, incluiria saber do folclore de um povo, tanto quanto apreciar Bach, incluiria entender as razões para a Revolução Francesa, tanto quanto perceber a guerra económica e social movida pelo que foi a chamada “bolha de Wall Street”...

As pessoas que passaram pela minha vida e que foram fundamentais para a minha formação foram várias. Penso na minha tia, Manuela Amaral, que eu amava e admirava; em duas professoras que tive no colégio onde andei, Dora de Vilhena, que lia poemas em voz alta na aula, e Isabel Lago. Com a Isabel Lago li O Cavaleiro da Dinamarca, e essa leitura foi fundamental: senti a beleza da palavra, quase no seu estado puro. Muito mais tarde, já na faculdade, uma professora de Cultura Norte-Americana, Cristina Ribeiro, abriu-me o mundo para “os outros” Estados Unidos, na sua dimensão de discriminação, de violência, de racismo. Deu-me autores como Langston Hughes, Aimé Cesaire (ainda me lembro de cor de partes de Cahiers d’un retour au pays natal). Mais tarde, Maria Irene Ramalho, que me orientou o doutoramento e me ensinou a verticalidade que a literatura traz. Depois, os meus alunos todos, ao longo de tantos anos de ensino; com eles me formei também. De alguns, destaco Marinela Freitas, minha colega agora. E ainda o meu pai, que me ensinou uma ética de vida. E a minha filha, que me ensinou e continua a ensinar a crescer e a ser melhor pessoa. Com todos eles e todas elas, aprendi a ler o mundo — e a ler mundos.

Eu acho que devia ser ensinado o que faz parte das artes, da ciência, da ética, do conhecimento, do pensamento humanos. Acharia muito bem estudar os Beatles, desde que se falasse dos anos 1960 e do que eles significaram em termos de movimentos sociais, e do feminismo, e das minorias; tal como, no caso do jazz, de como ele nasce, e a propósito disso, da questão da chamada “Renascença de Harlem” nos Estados Unidos e, ligada a ela, da exploração da identidade e, com ela relacionada, do racismo e por aí fora...

“Grandes descobertas/acontecimentos”: é de ordem enciclopédica. Mas falar na relatividade implicaria mostrar o seu impacto a diversos níveis. O que quero dizer é que uma disciplina de Cultura Geral, a existir, deveria ser transdisciplinar e comparatista, relacionando tudo com tudo. Como tudo está, de facto, relacionado com tudo. Até mesmo mostrar que, em 1940, um escritor como Hemingway oferece a um romance seu um título como Por quem os Sinos Dobram porque existiu três séculos antes dele um poeta chamado John Donne que escreveu um poema que dizia: “Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”

Platão expressou-se de uma forma que é comum às Ciências e às Humanidades. Ou seja, expressou-se em palavras. Mais facilmente uma pessoa das Ciências consegue ler o que Platão escreveu do que uma pessoa de Letras consegue perceber Física Quântica. Porque Platão usa uma linguagem que, embora servindo-se de conceitos filosóficos, é mais comum a todos nós. E essa linguagem organiza o pensamento, ordena-o, cria questionamentos sobre o nosso lugar como humanos no mundo, interroga-nos e interroga o mundo, na própria constituição de conceitos.

Excerto de Público  11 Janeiro 2015: 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Quart(z)o adverso


Imagem daqui

sobressaíram poucos sonhos na noite pesada.
cada um para seu lado na prisão das almofadas.
não é uma novidade nessa clausura de Bergman:
um olhar fixo sobre a praia cinza, uma máscara branca
a porcelana fina –
existem marcas nos tectos da casa por detrás de portas fechadas.
as marcas não se pronunciam, subsistem e são sem ruído.
respira-se um ar de chumbo como na subida de uma serra fria:
sob um nevoeiro opaco, lento, contínuo, onde se inscrevem signos
palavras de caligrafia sem o som da língua
silêncios recorrentes na improbabilidade dos caminhos –


não estamos longe nem perto nesse quartzo adverso  –

josé ferreira 13 janeiro 2015