imagem daqui
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda lido aqui
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Matilde - Um soneto de Pablo Neruda
Matilde, nombre de planta o piedra o vino,
de lo que nace de la tierra y dura,
palabra en cuyo crecimiento amanece,
en cuyo estío estalla la luz de los limones.
En ese nombre corren navíos de madera
rodeados por enjambres de fuego azul marino,
y esas letras son el agua de un río
que desemboca en mi corazón calcinado.
Oh nombre descubierto bajo una enredadera
como la puerta de un túnel desconocido
que comunica con la fragancia del mundo!
Oh invádeme con tu boca abrasadora,
indágame, si quieres, con tus ojos nocturnos,
pero en tu nombre déjame navegar y dormir.
Pablo Neruda Cien Sonetos de Amor
MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho,
do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio rebenta a luz dos limões.
Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que em meu coração calcinado desemboca.
Oh nome descoberto sob uma trepadeira
como a porta de um túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!
Oh invade-me com tua boca abrasadora,
indaga-me, se queres, com teus olhos noturnos,
mas em teu nome deixa-me navegar e dormir.
Pablo Neruda Cem sonetos de Amor lido aqui
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Mostrai-me de uma pátria à outra
o infinito fio da vida
cosendo o fato da primavera.
Mostrai-me uma máquina pura,
azul de aço sobre o grosso azeite,
pronta para avançar nos trigais.
Mostrai-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é a vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
as vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento electrizado.
Do volga fecundo trazei água
à água do Arno dourado.
Trazei sementas brancas
da ressurreição da Polónia,
e das vossas vinhas levai
o doce fogo vermelho
ao Norte nevado!
Eu, americano, filho
das mais vastas solidões humanas,
vim conhecer a vossa vida
e não a morte, e não a morte!
Não atravessei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência das prisões paraguaias,
para vir ver
ao pé dos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
as vossas órbitas sem olhos e o vosso sangue seco
nos caminhos.
Ao mel antigo e ao novo
esplendor da vida é que vim.
à vossa paz e às vossas portas,
às vossa lâmpadas acesas,
às vossas bodas é que vim.
às vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
Às vossas fábricas deslumbrantes
venho trabalhar um momento
e comer com os operários.
Nas vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na bela Hungria,
em Copenhaga me vereis,
em Leninegrado, conversando
com o jovem Puchkine, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Sou a testemunha que vem
visitar a vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo partirei.
Espera-me em toda a parte
a primavera.
Pablo Neruda " As uvas e o vento" Campo de Letras (Trad. Albano Martins)
o infinito fio da vida
cosendo o fato da primavera.
Mostrai-me uma máquina pura,
azul de aço sobre o grosso azeite,
pronta para avançar nos trigais.
Mostrai-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é a vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
as vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento electrizado.
Do volga fecundo trazei água
à água do Arno dourado.
Trazei sementas brancas
da ressurreição da Polónia,
e das vossas vinhas levai
o doce fogo vermelho
ao Norte nevado!
Eu, americano, filho
das mais vastas solidões humanas,
vim conhecer a vossa vida
e não a morte, e não a morte!
Não atravessei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência das prisões paraguaias,
para vir ver
ao pé dos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
as vossas órbitas sem olhos e o vosso sangue seco
nos caminhos.
Ao mel antigo e ao novo
esplendor da vida é que vim.
à vossa paz e às vossas portas,
às vossa lâmpadas acesas,
às vossas bodas é que vim.
às vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
Às vossas fábricas deslumbrantes
venho trabalhar um momento
e comer com os operários.
Nas vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na bela Hungria,
em Copenhaga me vereis,
em Leninegrado, conversando
com o jovem Puchkine, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Sou a testemunha que vem
visitar a vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo partirei.
Espera-me em toda a parte
a primavera.
Pablo Neruda " As uvas e o vento" Campo de Letras (Trad. Albano Martins)
terça-feira, 3 de abril de 2012
Era o tempo de Puchkine -um poema de Pablo Neruda

Pablo Picasso
Era o tempo de Puchkine,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelos prados levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leninegrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho. Para Leste
caminhavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as raparigas.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
a sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.
(…)
Pablo Neruda
sexta-feira, 23 de março de 2012
Soneto IV - um poema de Pablo Neruda

Waterhouse
Recordarás aquella quebrada caprichosa
a donde los aromas palpitantes treparon,
de cuando en cuando un pájaro vestido
con agua y lentitud: traje de invierno.
Recordarás los dones de la tierra:
irascible fragancia, barro de oro,
hierbas del matorral, locas raíces,
sortílegas espinas como espadas.
Recordarás el ramo que trajiste,
ramo de sombra y agua con silencio,
ramo como una piedra con espuma.
Y aquella vez fue como nunca y siempre:
vamos allí donde no espera nada
y hallamos todo lo que está esperando.
Pablo Neruda 1959
terça-feira, 29 de novembro de 2011
C de cem - um poema de Pablo Neruda

Richard Avedon
No meio da terra afastarei
as esmeraldas para te ver
e tu estarás copiando as espigas
com uma pluma de água mensageira.
Que mundo! Que profunda salsa!
Que navio navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
E não haverá separação nos sinos.
E haverá apenas o ar livre,
as maçãs levadas pelo vento,
o suculento livro na ramada,
lá onde os cravos respiram
criaremos uma roupagem que resista
à eternidade de um beijo vitorioso.
Pablo Neruda "Cem sonetos de amor", Campo de Letras, 2004
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Soneto XXXV - um poema de Pablo Neruda

Thomas Cooper Gotch
Tu mano fue volando de mis ojos al día.
Entró la luz como un rosal abierto.
Arena y cielo palpitaban como una
culminante colmena cortada en las turquesas.
Tu mano tocó sílabas que tintineaban, copas,
alcuzas con aceites amarillos,
corolas, manantiales y, sobre todo, amor,
amor: tu mano pura preservó las cucharas.
La tarde fue. La noche deslizó sigilosa
sobre el sueño del hombre su cápsula celeste.
Un triste olor salvaje soltó la madreselva.
Y tu mano volvió de su vuelo volando
a cerrar su plumaje que yo creí perdido
sobre mis ojos devorados por la sombra.
Pablo Neruda Cem Sonetos de Amor
quarta-feira, 13 de julho de 2011
XLVVIII

De um filme de Godard
Dois amantes felizes fazem um só pão,
uma só gota de lua sob a erva,
deixam andando duas sombras que se juntam,
deixam um único sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios, mas com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A alegria é uma torre transparente.
O ar, o vinho, vão com os dois amantes,
a noite dá-lhe as suas pétalas felizes,
têm direito aos cravos que apareçam.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.
Pablo Neruda " Antologia Breve" Dom Quixote 1977
segunda-feira, 11 de julho de 2011
De um poema de Pablo Neruda - O homem invisível

...e olho as estrelas
deito-me na erva, passa
um insecto cor de violino
ponho o braço
num pequeno seio
ou sob a cintura
da doce mulher que amo,
e olho o veludo
duro
da noite que treme
com as suas constelações congeladas,
então
sinto que sobe à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o choro às escondidas,
a adolescência triste,
e dá-me o sono,
e adormeço
como uma macieira,
fico a dormir um instante
com as estrelas ou sem as estrelas,
ou com a amada ou sem ela,
e quando me levanto
foi-se a noite,
e a rua despertou antes de mim...
em Poesia do séc XX Pablo Neruda Trad. Fernando Assis Pacheco "Antologia Breve" Dom Quixote, Lisboa 1977
sexta-feira, 15 de abril de 2011
XXXV - Um poema de Pablo

Salvador Dali "A aparição da cara de Afrodite" 1981
A tua mão voou dos meus olhos para o dia.
A luz entrou como uma roseira florida.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
A tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
galhetas com azeite amarelo,
corolas, fontes e, sobretudo, amor,
amor: a tua mão pura poupou as colheres.
A tarde foi-se. Secretamente a noite deslizou
sobre o sono dos homens sua cápsula celeste.
A madressilva soltou um triste aroma selvagem.
E a tua mão voltou voando do seu voo
a fechar suas penas que julguei perdidas
sobre os meus olhos devorados pela sombra.
Pablo Neruda "Cem sonetos de amor" Trad. Albano Martins, Campo de letras
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Os três pablos de setenta e três
Pablo Picasso "Bailarina sentada"
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Pablo Neruda
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Palavras para a Europa

(pintura retirada da internet))
Eu, americano das terras pobres,
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se junta ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
orfão de ros rios e dos vulcões que me geraram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e do azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
digo-vos: vim aqui
para aprender convosco,
com uns e com outros, com todos,
pois de que me serviria
a terra, par que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
um pouco de todos os seres.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
da minha materna Espanha)
não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas largas ruas gastas
pelo esplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostrai-me de uma pátria à outra
o infinito fio da vida
cosendo o fato da primavera.
Mostrai-me uma máquina pura,
azul de aço sobre o grosso azeite,
pronta para avançar nos trigais.
Mostrai-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é a vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
as vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento electrizado.
Do volga fecundo trazei água
à água do Arno dourado.
Trazei sementas brancas
da ressurreição da Polónia,
e das vossas vinhas levai
o doce fogo vermelho
ao Norte nevado!
Eu, americano, filho
das mais vastas solidões humanas,
vim conhecer a vossa vida
e não a morte, e não a morte!
Não atravessei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência das prisões paraguaias,
para vir ver
ao pé dos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
as vossas órbitas sem olhos e o vosso sangue seco
nos caminhos.
Ao mel antigo e ao novo
esplendor da vida é que vim.
à vossa paz e às vossas portas,
às vossa lâmpadas acesas,
às vossas bodas é que vim.
às vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
Às vossas fábricas deslumbrantes
venho trabalhar um momento
e comer com os operários.
Nas vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na bela Hungria,
em Copenhaga me vereis,
em Leninegrado, conversando
com o jovem Puchkine, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Sou a testemunha que vem
visitar a vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhâ cedo partirei.
Espera-me em toda a parte
a primavera.
Pablo Neruda " As uvas e o vento" Campo de Letras (Trad. Albano Martins)
domingo, 29 de novembro de 2009
Saudade
.jpg)
Edgar Degas "Retrato de M. Duranty" 1879
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage
segunda-feira, 13 de abril de 2009
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Vinicius e Pablo Neruda
Em tempos ouvia com frequência uma cassete (fita magnética inscrita da pré-história da tecnologia) de uma actuação ao vivo de Vinicius, Toquinho e o Quarteto em Cy. Neste registo havia lugar à poesia (a poesia também é um lugar... um refúgio que pelo menos a mim me preenche, dá espaço ao sonho e ao tempero das emoções) e havia uma sentida homenagem a Pablo Neruda. Dizia o grande poeta brasileiro :" malvado ano de 1973 que levou de uma só vez três Pablos, não três Pablitos... três Pablões" referia-se a Pablo Picasso, Pablo Casals e Pablo Neruda cada um em sua superior arte sem substitutos.
Nesta recordação resolvi publicar dois poemas que a voz inconfundível de Vinicius recitou na companhia (tantas vezes minha) dos acordes perfeitos de Toquinho e um coro celestial das vozes femininas do Quarteto em Cy, terminando na apoteose final de palmas (...e ruídos das gravações imperfeitas, alguns encravamentos que engoliam as fitas e obrigavam ao enrolamento manual com a ajuda de um lápis levando a fita à frente e atrás na esperança de conservar a preciosa cassete, o que foi conseguido).
Não vos chateio mais com conversa de "chacha", aqui vão os dois sonetos:
Soneto de homenagem a Pablo Neruda
Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor - dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor - o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
mas mais e melhor do céu entoas
teu furioso material!
( 1960 )
De seguida Vinicius leu um outro soneto escrito em 1938 a bordo de um barco que o conduzira a Inglaterra. Chama-se "Soneto da separação" e foi aqui adaptado à partida do grande poeta chileno. ( algo que nunca acontecerá porque nos deixou a sua poesia )
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais do que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Espero que gostem!
Saudações poéticas a todos!
Nesta recordação resolvi publicar dois poemas que a voz inconfundível de Vinicius recitou na companhia (tantas vezes minha) dos acordes perfeitos de Toquinho e um coro celestial das vozes femininas do Quarteto em Cy, terminando na apoteose final de palmas (...e ruídos das gravações imperfeitas, alguns encravamentos que engoliam as fitas e obrigavam ao enrolamento manual com a ajuda de um lápis levando a fita à frente e atrás na esperança de conservar a preciosa cassete, o que foi conseguido).
Não vos chateio mais com conversa de "chacha", aqui vão os dois sonetos:
Soneto de homenagem a Pablo Neruda
Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor - dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor - o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
mas mais e melhor do céu entoas
teu furioso material!
( 1960 )
De seguida Vinicius leu um outro soneto escrito em 1938 a bordo de um barco que o conduzira a Inglaterra. Chama-se "Soneto da separação" e foi aqui adaptado à partida do grande poeta chileno. ( algo que nunca acontecerá porque nos deixou a sua poesia )
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais do que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Espero que gostem!
Saudações poéticas a todos!
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Um poema de que gosto
Pablo Neruda tinha a sabedoria simples e profunda que atravessava as paisagens azuis
dos Oceanos e o fez correr mundos nas asas de belas poesias.
Para quem, como a maior parte de nós, foi desafiado a entrar pelas regras dos sonetos, no início do Workshop com a nossa "Prezada" Mestra, aqui vos deixo um soneto de amor que acho de rara beleza
XLV
Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.
Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda o meu coração perdido.
Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.
Pablo Neruda "Cem sonetos de amor"
dos Oceanos e o fez correr mundos nas asas de belas poesias.
Para quem, como a maior parte de nós, foi desafiado a entrar pelas regras dos sonetos, no início do Workshop com a nossa "Prezada" Mestra, aqui vos deixo um soneto de amor que acho de rara beleza
XLV
Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.
Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda o meu coração perdido.
Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.
Pablo Neruda "Cem sonetos de amor"
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