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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Metade de mim

Sou metade de mim
e estou inteira

A vida dividiu-me
só de um lado

Rasura cruel de maneira
a fazer desencontrar
o espaço intacto

Metade tão perfeita
embora queira

Curar no meu oposto
o que é rasgado

Maria Teresa Horta (Lisboa, 1937-) in Inquietude

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


INSUBMISSÃO

Somos corsárias
febris
por areias dos desertos

Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos

Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração

Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão

Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios

Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos

Buscamos os infiéis
com olhos de expiação

Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso

Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso

Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos

A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos

Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão

Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos

Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos

Maria Teresa Horta
Lisboa, 8 de Março de 2013

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poema - Maria Teresa Horta


Malevitch

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no coração enfebrecido

Primeiro a floresta em seguida
o bosque
mais do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é noz
e depois ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta "Poemas Leya" 2009

sábado, 13 de dezembro de 2008

Um poema do David

Na outra noite,de um lado ela
mesmo em frente todos nós
cada um junto dela
ela dentro de nós.

Maria Teresa Horta

Falou-nos sem o peso dos minutos numa auréola encantada de muitas histórias, da tal dimensão que só alguns atingem. Todas as palavras eram leves e sem esforço, naturais, tão claras de sentido, tão deslumbrantes de evidências como se tivessemos sede e de copo ao lado não conseguissemos usar as mãos. Aprendemos a serenidade a tranquilidade de uma mente superior que nunca usou de presunção em momento algum. Fez-nos acreditar que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.
Deu-nos asas!

Também falou dos seus amigos, daqueles que lhe rondam a casa na esperança do convite, da partilha dos seus cozinhados. De muitos que são e de outros que já eram.
Dos que já eram destaco outra mulher de força Natália (Correia), ainda o José (Cardoso Pires) e o David (Mourão Ferreira), a quem tratava pelo primeiro nome, como se ainda ali estivessem vindos de uma animada tertúlia trauteando poemas e melodias, enlevados nas teclas de um piano, de um bar muito conhecido, chamado de Botekim,ali à Graça, no bairro da capital.

Há dias deixei um poema simples do David que para mim não deixa de ser bonito (devo dizer que saiu no teste do 8º Ano do meu filho... no exame nacional do último ano... e portanto é bom sabermos que ainda se dá na escola...)

Hoje deixo outro:

INTERIOR

É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir muito depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória de chuva

Depois de arrebatar o corpo da amada
ao ritmo infernal de um batuque de guerra
é bom permanecer na mesa de montagem
misturando Anfião Vivaldi Apollinaire

É bom lançar ao fogo um velho dicionário
É bom o crepitar das palavras antigas
Adivinhar quais são as que por fim renascem
e que sabem voar ao sair ds cinzas

É bom pedir perdão ao som de uma sonata
Segredar num soneto a ária de um remorso
É bom recomeçar com música de Jazz
Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo
David Mourão Ferreira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:

CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:
O EXCESSO NA POESIA DE MARIA TERESA HORTA
Ana Luísa Amaral

Recensão ao livro de Maria Teresa Horta, Antologia pessoal, 100 poemas, (Lisboa, Gótica, 2003), in Relâmpago, nº 14, Abril, 2004, pp. 131-133

The Road of Excess leads to the Palace of Wisdom.
William Blake

Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega

eu cumpro os meus
limites
não cumprindo as regras
Maria Teresa Horta
“Tacteio à minha / volta / e é só fulgor … // Para a minha sede / nenhuma água chega”. São estas a primeira e última estrofes do poema que figura na contracapa da colectânea de poemas de Maria Teresa Horta, agora dada à estampa pela Gótica. O poema, intitulado justamente “Fulgor”, pode ser pretexto para começar a falar desta poesia como uma poesia de excesso, um aspecto que atravessa todos os livros publicados por Maria Teresa Horta e continua presente nesta selecção, que reúne poemas publicados entre 1960 (Espelho Inicial) e 1999 (Só de Amor) — ressalve-se que, a fechar o livro, se encontram ainda textos inseridos no volume Vozes e Olhares no Feminino, de 2001.
Estamos, então, perante uma antologia pessoal, de cem poemas escolhidos. Sublinho escolhidos, porque a selecção não poderia, a meu ver, ter sido mais feliz. Se se mantém nesta antologia o elemento de excesso, característico, como disse já, da escrita de Maria Teresa Horta, e se continuamos a detectar aqui dois grandes vectores estruturantes, que são o corpo sexual e erotizado e o corpo do texto, erotizado também, o que é certo é que a exclusão de muitos poemas veio transformar este volume num livro novo e diferente, que permite, mais do que revisitar, redescobrir e admirar esta poesia, tão injustamente negligenciada ou mal ajuizada. Seleccionar cem poemas de entre centenas, distribuídos por quinze livros, significa uma enorme capacidade de auto-crítica, mas significa também um gesto de abdicação e contenção, que, aparentemente, colide com a dimensão excessiva de que falei acima. Só aparentemente, todavia, já que esta contenção acaba por tornar ainda mais evidente a presença do excesso, sendo excesso entendido aqui não só como o que se afasta da norma (nesse sentido, o excesso será a diferença), mas ainda como aquilo que a ultrapassa em demasia. É esse demasiado, ou ilimitado, esse lugar de ruptura-para-lá-da-ruptura, que é difícil isolar e definir. Mas, porque o limite se encontra além da norma, num espaço onde a questão da infracção deixa de contar, transgressão, subversão e limite não são elementos alternativos, mas momentos tangentes. Por isso se pode dizer, no poema de que me servi como epígrafe, e que é um dos três únicos poemas do livro que não tem título, que é possível “cumprir … limites, / não cumprindo as regras” (p. 111).
Encontramo-nos, assim, perante uma poesia (e uma poética) servida por dois processos de ruptura com a norma: a transgressão e a subversão. Se a transgressão não destrói o sistema, visto criar um sistema paralelo, a subversão, por seu lado, porque parte de dentro do próprio sistema, efectua sobre ele um efeito de corrosão, que o abala. Os dois processos estão presentes nesta poesia. E ambos resultam numa grande novidade.
Penso que a subversão na poesia de Maria Teresa Horta reside num inteligente aproveitamento da tradição poética ocidental, para, a partir dela, se criar uma versão outra (uma sub-versão): é assim que, a partir da éducation sentimentale de Fréderic, se inventa uma nova Educação Sentimental (1975), onde a mulher pode agora dizer “do [seu] corpo / o uso dos [s]eus dias”, ou da “alegria / do corpo sem disfarce” (p. 95), ou despudoradamente falar da aprendizagem “[d]o vagar da arte” do amor e do erotismo, onde cabem “dedos”, “mãos”, “braços”, e também “suco”, “pénis”, “seios”, “a seda da pele / das virilhas” (pp. 96-7); é assim também que o medieval “minha senhor”, forma de tratamento dado pelo homem à mulher no amor cortês, será re-elaborado, através da reivindicação de um espaço de mulher autónomo e livre, e transformado em “minha senhora de mim” (título para poema e para um dos mais célebres livros de Maria Teresa Horta, publicado em 1971 e retirado pela censura), onde é até permitido ao sujeito feminino “desaver-se” consigo própria (p. 67).
Por outro lado, ou em simultâneo, assiste-se a um processo de transgressão que é notório desde os primeiros livros, aqui epitomizados no “Poema de Insubordinação” (p. 8), evoluindo ao longo dos outros livros. Poderíamos, nesse sentido, isolar inúmeros textos desta antologia, em que são desafiadas as convenções da poesia lírica amorosa, ao instituir-se o sujeito feminino como enunciador e encenador do desejo e elemento de domínio da relação, ou ao proceder-se à re-distribuição, mais do que à inversão, de papéis sexuais tradicionalmente instituídos. São disto exemplos o poema “Segredo” (p. 72), do livro Minha Senhora de Mim (1972): “Não contes do meu / vestido / que tiro pela cabeça // Nem que corro os / cortinados / para uma sombra mais espessa (…) Não contes do meu / novelo / nem da roca de fiar // nem o que faço / com eles / a fim de te ouvir gritar”); ou o poema “Docemente” (p. 89), do livro Educação Sentimental (1975): “Docemente / disponho dos teus braços // dos peixes que navegam / docemente”); ou o poema, intitulado precisamente “Do Excesso” (pp. 121-2), do livro Destino (1997), em que, a dado momento, se pode ler: “Tu escusas o escusado / e só no excesso / me encontrarás a beijar-te o corpo louco // Sou eu que ponho aquilo / que tu vestes / e disponho daquilo que tu escondes” (p. 122); ou, finalmente, o poema “Foz” (p. 138), do livro Só de Amor (1999), em que o sujeito poético, claramente identificado como feminino, se auto-define como “espada”.
Estamos, pois, perante um conjunto de poemas criteriosamente seleccionados e arrumados, o que torna muito mais evidente e fácil detectar estes processos, bem como neles verificar a preocupação constante com o corpo e o corpo do texto. Por isso, ao “dizer do corpo / o corpo da poesia // Os ombros / os seios / o ventre” é “pensar” e “escrever / do corpo / o corpo da poesia” (pp. 125-6), acompanhado pelos “silêncios da fala”, o “silêncio que posto / em cima do silêncio”, como um corpo sobre outro corpo, “usurpa do silêncio o seu magro labor” (p. 162), o sujeito de enunciação reconhece-se como “a voz / onde invent[a] o nada” (p. 138). Nessa invenção (ou reinvenção), é possível à mulher poeta reivindicar o estatuto de “bruxa da palavra” (p. 104), ocupando-se, num gesto novo, subversivo da relevância das musas, de uma maternidade para os poetas — “Quem são as mães / dos poetas? As fadas das serras altas? / As bruxas da floresta?” (p. 123) —, ao mesmo tempo que definindo-os (e definindo-se) como “alquimistas do futuro” (p. 124).
É ainda interessante verificar as diferentes ocorrências de negativas nos poemas que aqui se apresentam, pelo sentido que contêm de afirmativa autonomia: “Não sou escrava / de lamento … // não quero anéis / de aceite / para enfeitar os meus olhos” (p. 69); “Não ergas / meu cavalo / as crinas da memória” (p. 82); “A bota não faz / a espora … // Desterro não faz domínio” (p. 60). “«No» is the wildest Word we consign to Language”, escrevia Emily Dickinson. Na poesia de Maria Teresa Horta exercita-se também um gesto semelhante de força e energia, e tantas vezes violência, porque ser-se “senhora do [s]eu silêncio / com tantos quartos fechados” (p. 68) equivale a instaurar uma espécie de desordem ordenada, em que se pode ser “raivosamente instável” (p. 119).
Maria Teresa Horta elegeu, para encerrar esta antologia (que aproveita dos livros Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Os Anjos (1983) e Destino (1997), os poemas que antes os estruturavam e lhes davam título), o poema “Os silêncios da fala”, já aqui referido, esse poema que fala do silêncio que “usurpa do silêncio o seu magro labor” — o da poesia. O poema que o antecede intitula-se “Português” (pp. 160-1) e é dos melhores exemplos da fusão entre corpo e corpo textual — ambos erotizados e transgressores ambos. Nesse poema, de 2001, retoma-se a imagética do desejo, retomam-se as redes de oposições e contrastes, tal como se retoma a subversão de espaços tradicionalmente femininos, a que pertencem “a roca e o bordado”, para a seguir se diluírem as dimensões literal e simbólica de corpo. “Se a língua ganha / a dimensão da escrita / E a escrita ganha / a dimensão do mundo” (p. 160) — assim começa o poema. E, da hipótese proposta, que se detém no corpo da palavra e nas suas infinitas possibilidades, conclui-se que “[d]escer é preciso até ao fundo / na busca das raízes da saliva / que na boca vão misturar tudo” (id.). Este processo de fusão entre corpo e corpo textual, entre língua e linguagem, culmina nos versos “O tempo a confundir qualquer abraço / entre o visto e o escrito” (p. 161). E assim se confundem e se fundem o palpável e tangível corpo com o impalpável e intangível texto. Ambos capazes de exercitar a liberdade de “subir a pulso / o mundo” (id.).
“Subir a pulso o mundo” — julgo que não haverá melhor expressão para caracterizar esta escolha rigorosa e feliz, a marcar, em cem poemas, quarenta anos de uma poesia nova.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Desperta-me de noite

E este é o segundo:

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

A trégua
a entrega
o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

As nossas madrugadas

Há dois poemas da Maria Teresa Horta que parecem também eles um canto e contraponto. Quase não sei qual deles gosto mais. Deixo os dois para que escolham. Este é o primeiro:

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

Minha Senhora de Mim






Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Maria Teresa Horta

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta (Lisboa, 1937-)