sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

madrugada


não procuro nada em ti
só o hábito da
tua roupa
palavras não
silêncio

entre ti e ti
habito eu

faltas-me tu em ti
nas escolhas da madrugada


não procuro nada em ti
só o tu em ti que sou eu

Teresa Freitas
Janeiro, 2016



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Três Cenário na Cidade



Numa tarde de sol e Abril
a cidade atravessa-se
diante dos meus olhos

Um pai amarrotado pelo trabalho
leva o filho na mão direita.   
A esquerda,
deslarga,  discreta
o que lhe resta de esperança

Uma gorda festeja o seu vestido vermelho.
Feliz na medida do possível
porque felicidade é assunto que não conhece,
mas já ouviu falar disso

Um prédio que já nem andaimes atrai, 
lembra que outrora teve vocação para loja de terylenes  
Agora pinga estragos, pinga o passado
pinga o que resta de sol e Abril na cidade.


Teresa Almeida Pinto 
19.Abril. 2014

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

a casa sem raízes

     imagem daqui

sempre que as nuvens sobressaem
observo os pormenores redondos sem vincos definidos.
a leveza em equilíbrio, descontínua.
estamos sempre em viagem, em aberto, não existe o vazio.
o vazio é uma abstração humana em certos dias.
a interminável serpentina do pensamento avança no interior daquele comboio de Kundera
de estação indeterminada: o comboio que leva a tua história, as tuas mãos e o teu rosto
naquela porta que se abria, rodando o trinco sem ruídos
sem a brutalidade das engrenagens que gritam.
as janelas estavam vivas e as paredes não existiam. era uma casa física sem espíritos.
o mundo era só um, de raios azuis, de lábios vermelhos que se entendiam, sem ideologias –

quantas noites e quantos dias. e depois aquela telha partida, uma pinga, duas pingas
um balde de plástico que se enchia. quantas noites e quantos dias, o silvo do maquinista
a estufa de carvão, o fumo, mas o fumo é indício, o comboio partia –

não consigo fechar os ouvidos, tapar a boca daquela noite, o candelabro sem luz
um tridente escondido a subir a avenida. era inverno e tu sabias -
as nuvens rodeavam a laranja azul, esse planeta de luzes –

receava os símbolos e as tricotomias, colecionei as imagens aditivas, num rodopio.
mas não pude adiar, voltei ao mundo das palavras cristalinas:
a linha contínua que encobre e descobre, como um tricot das Ilíadas.
havia muitas, sabias? pelos caminhos, em mnemónicas repetidas –

as palavras e os teus cabelos são incontáveis, infinitos, finos, fogem e deslizam.
algumas palavras como os teus cabelos são sublimes –
é inverno, não vou contar as noites nem os dias. prefiro tocar nos teus cabelos e senti-los.
os sentidos são o oposto das numerologias  e os números não voam, não se elevam acima
são o chumbo de todos os símbolos, o zero do pensamento –

sopra um vento frio que movimenta o ar pela frincha da janela aflita.
não é urgente, um destes dias coloco a espuma que veda esse atrevimento.
proíbo-lhe a entrada. não lhe permito arrepios na fronteira da pele.
ao vento, esse provocador invisível, na casa de portas e paredes frias.
vou desenhar os teus olhos na porta, nos vidros para que as estrelas se iluminem.
é possível enganar o real por momentos, são múltiplos os fragmentos –

já não sei, já não sei se é urgente.
desvalorizamos a experiência, Benjamim já o dizia: são milhares de fotografias

e a casa sem raízes –

josé ferreira 22 de Janeiro de 2015

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Debruçado em mim até ao mar (Passeio das Virtudes)


Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro
a tremer até ao Douro

olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar

cinco janelas, cinco cavaleiros
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado

aqui regresso
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua

segura em aperto de mãos
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar


em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem
em murmúrio de nevoeiro quando há luar

por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar

a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos

Joana Espain

Foto retirada daqui 

NASCIMENTO

Acordei e és a minha casa
O meu colo embala-te em vida
Sonhei e és o meu sorriso
O meu coração a tua música

Cresces dentro, bem perto
Numa história nunca escrita
Há um tempo diferente na minha pele
Que se estende na tua

Um tempo eterno e tão breve
Que nos muda e em nós fica
Uma magia infinita
A colorir de amor
A cor cinzenta da dor.


Liliana de Castro

AS CASAS

Dentro de nós as casas habitam-nos
Casas de nós mesmos somos deuses
Os lugares dos outros em nós
Repousam nos quartos íntimos da dor

Dentro de nós os outros habitam-nos
Casas de nós mesmos entranham-se na pele
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Repousam-nos no ventre e dançam

Dentro de nós as horas habitam-nos
Casas de nós mesmos gravam-se em rugas
Repousam no tempo vivido da memória
No vai e vem do coração apressado

Dentro de nós só o amor conta histórias
Casas de um poema e de poetas que se juntam
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Embalados nas artérias do sentir
A sorrir pensamos: como é bom chegar a casa!
Liliana de Castro

As Casas

Não sei o que dizer. Não sei. Desde o início da semana ando a ruminar no tema. Olho para ele, dou a volta, volto a olhar. E não sei por onde lhe pegar. Se pelo telhado, se pelo chão, se pelas paredes, ou se pelo que existe dentro das casas e só se vê quando olhamos com os olhos do coração. Raio de tema este. Não lhe encontro poesia. Pronto! Talvez alguma, naqueles grãos de areia que servem para ajudar a cimentar os tijolos. Ai se apanho quem fez a escolha do tema…
Posso começar por falar da minha casa. Uma senhora casa, com vida própria e muito independente. Existe há 63 anos e está de boa saúde. Foi a casa que os meus pais construíram quando casaram. Sempre vivi nela. Nunca tive outra. Nasci onde agora é a sala de estar. E pensando bem, acho que já dormi em quase todos os compartimentos, menos na casa de banho e na cozinha, claro. Sei que a nossa casa não tem de ser um espaço rígido e fixo. A casa é onde estamos e onde nos sentimos bem. Mas reflectindo na minha experiência, eu, tão aparentemente solta e desligada, quando fora alguns dias e retorno a casa tenho uma sensação inigualável. É como voltar ao embalo dos braços da minha mãe. A minha casa tem a minha identidade, a minha marca, regista todas as minhas vivências e memórias. Voltar a casa é voltar para mim própria, para dentro de mim. Voltar à minha infância. Ao tempo em que tomava banho com o meu irmão numa banheira branca de plástico no pátio em frente à cozinha. Ao tempo em que me armava em cantora pimba e cantava acompanhada pelo mesmo irmão que sacava sons dignos de uma bateria aos baldes virados ao contrário. Escusado será dizer da vida curta desses baldes. Ao tempo em que juntávamos primos vizinhos em duas equipas de hóquei e com troços de couve fazíamos belos exemplares de sticks. Ao tempo em que tomávamos banho no tanque de lavar a roupa com direito a camara de ar de pneu e tudo. Depois, os espaços diminuem na mesma proporção com que nós crescemos. E fico-me a olhar para o tanque e até rio a pensar que já tive medo de me afogar ali naquele nico de espaço.
Talvez seja a minha casa o alicerce que me acompanha desde que sou gente. Faz parte de mim e do meu crescimento. Disso não tenho qualquer dúvida.
Não sei se fará algum sentido comparar as casas a uma pele. À pele que nos reveste o corpo. Mas também não tem de haver sempre sentido nas coisas. Quando existe poesia e liberdade de escolha podemos comparar até o incomparável. Afinal, sempre parece haver alguma poesia. Alguns grãos, bem boleados de areia, que insistem em entrar na engrenagem deste texto. Quem fez a escolha do tema pode dar passo em frente. Está desculpado!
Sim. Definitivamente, as casas, do sítio onde me sento para observar, são a pele que revestem o nosso corpo. Se dizemos que os olhos são as janelas da alma podemos bem dizer que cada um de nós é uma casa. Uma construção feita diariamente e em constante manutenção. A pele é a parte exterior das paredes das casas que somos nós. Protege e confina a um único espaço o que está dentro. Mas, ao mesmo tempo que é a linha que separa o interior para o exterior e vice versa, é o ponto de contacto entre essas duas realidades. Tal qual uma ponte, uma linha fronteiriça. Une as duas margens. Por essa ponte existem trocas constantes. Algumas até conseguimos percepcionar outras, nem nos damos conta. A pele é um registo diário de todas as nossas vivências, em especial um registo dos nossos afectos. Um mapa afectivo. Haverá forma mais absoluta de demonstração de afecto que um abraço silencioso e sentido? Mesmo que a roupa impeça o contacto direto de pele com pele, a forma como nos entregamos no abraço faz desaparecer qualquer outra necessidade de comunicação. Um toque de mãos diz tanto sem serem precisas palavras. É com a pele mais do que com outro sentido que nos ligamos ao outro e ao mundo que nos rodeia. Que somos casas complexas, pois somos. Tantas vezes nos destruímos e reconstruímos. Tantas vezes a precisar de valente limpeza e arejamento interior. Sempre em mutação diária. Sempre em descoberta do mistério que albergamos dentro de portas e que somos nós.
Resta agradecer à Ana Luísa pela generosidade com que abre ambas as portas das suas casas. Bem, depois disto, e a precisar de um abraço, continuo sem saber o que dizer. Para a próxima vez, quem escolhe o tema sou eu!


claraoliveira 2016.01 


A casa

A casa está desabitada –
Não há calor nem frio
Não há emoção nem sentimento
Ninguém a habita e eu estou aqui
Sozinho. Se passeasse pelo interior,
Talvez o fogo me aquecesse
Mas não, o fogo está apagado

A casa é somente ideia,
Se ao menos fosse nítida,
A ideia torna iguais
Todas as casas, e essa casa
Nítida vive apenas na minha memória,
Ou na minha saudade

Quando aqui cheguei pude reparar –
As heras haviam tomado todas as paredes,
E olhando as heras pensei em ti
E na destruição da casa –
Entrei na sala das teias do tempo,
A um canto num fio pendente de uma teia
Cintilava o teu sorriso
A outro canto, a maciez dos teus afetos,
E o frio tomou-me o coração

Havia mais dois cantos habitados –
Coisas do dia-a-dia acumuladas 
E o teu sofrido cansaço
Mas a tua sombra escondeu a teia
E os fios da vida e os caminhos –
A cada memória sucede um abismo –
O vazio encheu o espaço da minha alma

De súbito, a sorrir-me enigmática
Veio a Morte, visita costumeira desta casa
Agora definitivamente
Despojada do fogo primordial – 

José Almeida da Silva
22.01.2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

DA SOLIDÃO DA LUZ



A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –

Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.

Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.

Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror

À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.

Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportado e oscilando em paz.

Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?

E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.


Ana Luísa Amaral, in Vozes, 2011

imagem retirada daqui

O ROSTO DO MEU VIZINHO

1.
O rosto do meu vizinho, o professor
cuja mulher morreu,
ficou nu de repente, sem protecção nenhuma.
Sempre que nos cruzávamos no pátio
e ele começava de súbito a falar, de uma maneira franca,
das coisas todas que o recordavam dela,
era como se eu visse o seu rosto pela primeira vez.

Como a casa em frente –
resguardada até há pouco por um castanheiro imenso,
mas destruiu-a uma tempestade e teve de ser cortada.
E antes que a fenda cresça, habitada pelo hábito,
vejo as janelas da casa, a vida por detrás, acontecendo.

2.
Uma camisa de cor pálida. A cabeça de um patrício romano.
Um lugar de estacionamento inviolado
junto de um muro baixo, onde, depois da chuva,
os caracóis estacionam também.
Durante muito tempo pensei: o perfeito cavalheiro
que atravessa uma vida ordenada, certa,
tal como passa pelo pátio, todas as manhãs.
Nunca lhe dei mais de setenta anos.

Tem oitenta, disse-me no outro dia,
esteve no ghetto de Varsóvia em criança.
O pai e o irmão morreram. A mãe e ele sobreviveram.

Alina Szapocznikow escreveu sobre o baptismo do desespero.
Tantos em silêncio, que nunca falaram daquilo por que passaram.


Poema de Krystyna Dabrowska
(traduzido do inglês por Ana Luísa Amaral)
A saudade
tem teto
e soalho:
é uma casa
vazia. 

Teresa Almeida Pinto 

sábado, 23 de janeiro de 2016

As Casas

Pelas casas que habitam 
em mim
crescem aprumadas 
as trepadeiras
muros altos de verde
impossível 
floridos –
às vezes –
de cores mais quentes.

As casas
como estúdios
indulgentes
entornam a cidade
nas janelas
cantam de amigos e
vizinhança
jardins comunais onde –
de verão –
nascem pimentos e sardinhas
de São João.

As casas
como faróis isolados –
mar imenso
silente ou zangado
única e verdadeira companhia –
habitam a vontade que
em mim
se abriga do mundo
tão agreste. 

Entre as casas que trago
comigo
há corredores extensos
vazios
onde os pensamentos
ecoam
sempre demais.

Há recintos de
sol
nas clarabóias.
E varandas
de vidro claro
onde a
chuva de Janeiro
vem escorrer.

Salas de lume e
gatos
ao colo.

Quartos escuros
assombrados
de medos em vão.

Há cozinhas de
mesas alargadas
a servir
os gostos que a vida traz.

Salinhas pequenas
para costura
onde nada se borda
além da memória –
mãos pequeninas

dedais a cair  
costura de pontilhado
imperfeito
em pano de ternura
inteira. 

As casas
que senti construir
têm despensas repletas
de livros
e lugares cativos
nos cadeirões.

Têm abraços –
secretos e revelados –
que se guardam à beira
da porta, 
no cabide grande
de todos os agasalhos.

Um salão de baile
para as dúvidas
dançarem à solta.

E uma viga mestra onde
se pousam –
como os pássaros –
os absolutos.

Têm sempre um sótão
para sonhar
e uma escada
para subir.

Um jardim com terra
para mexer
uma árvore – ou duas –
a crescer 
ou a florir.

Vou chegando, vivendo e partindo
hóspede
sedentária ou peregrina
de lugar em lugar.

Eu
em casas nenhumas
só o desassossego de
vir a ser
como desconhecida
ou ausente entre
as casas
que habitam em mim. 
raquel patriarca
vinteedois.janeiro.doismiledezassete