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quarta-feira, 14 de março de 2012

Começávamos o dia por baixo - um poema de Catarina Nunes Almeida


Henri Matisse

Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.
Uma subsistência sonora era esse
o estado da arte: éramos as claves do sul
de lábios estendidos à medida das máscaras.
Eu ia de rastilho, de árvore acesa. Ia iluminando a mão
com que batias no fundo. Traçava as águas
juntava as pernas para as covas do teu dente.
Passavam orlas e orlas e nós naquela descoberta
naquela terra toda à vista brincando ao verão
aos redemoinhos na chávena.

Catarina Nunes Almeida lido aqui

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Irei eu em todas as minhas mãos - um poema de Catarina Nunes Almeida




Irei eu em todas as minhas mãos
pégasos e ventanias
o corpo preso por um frio gentil
o corpo a tilintar de sonhos.

Serei eu o que ele for
na cavalgada.

Catarina Nunes de Almeida, Bailias, Deriva, 2010

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Colhe de um corpo o carvão verde


Felix Revello

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.


Catarina Nunes Almeida Revista Cráse

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Avistei a boca ao entardecer


(fotografia retirada da internet)


Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas,

mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.


Catarina Nunes de Almeida "A Metamorfose das Plantas dos Pés" Deriva, 2008