Cruzam os dedos
o dia e a noite, inseparáveis.
Traçam
um círculo: a linha da vida
que nos inscreve. Olham
como eu sussurro ao teu ouvido
palavras de amor, macia
sumaúma com que encho
a almofada onde
repousas a cabeça. Digo:
“Quanto mais te amo, mais
te amo.” A tua cabeça
comprime as palavras, sob
o peso elas cantam. Afinal
o amor tem um rosto perene,
uma espessura, paredes
de uma casa litoral, voz
que nos caminhos do corpo
se insinua
descendo pela chuva, os dias
que a vida possa ter
sob um telhado azul, braços
para embalar, para dormir.
Os lábios movem-se nos lábios.
As aves recolheram
a semente das lágrimas. Inseparáveis,
a noite e o dia cruzam
os dedos. Olham. Traçam
o círculo, desenham
a linha de vida do amor. Vamos
percorrê-la. Seguir-lhe o rumo,
o subtil rumor.
Construir o percurso
até ao osso do tempo.
Egito Gonçalves In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
Cruzam os dedos - um poema de Egito Gonçalves
terça-feira, 5 de junho de 2012
Sento-me então a olhar o rio
Roland Gerth
Sento-me então a olhar o rio,
os meus pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.
O rio bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é um momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.
Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos o romance de amor
que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...)
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que nos amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida. Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajectória do seu alvo.
Egito Gonçalves In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
convite - um poema de Egito Gonçalves

Matisse the dream 1940
Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -
podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores
Egito Gonçalves
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