
fotografia: Rodney Smith
josé ferreira
o barco deslizava pelo labirinto das árvores longilíneas.
dirigia-se ao céu. para lá das altitudes da camada de ozono
subiram os dióxidos e o metano tão perigoso: eram quentes as
águas.
quantos graus subiu na aorta o fluido veloz, nessa tarde sem
rumo?
lenta tarde, por vezes de silêncios na observação íntima dos
murmúrios.
não era apropriado o vestido escuro de múltiplas
transparências.
nem previsível o vento frenético na passagem do colibri
- asas invisíveis que criaram em traço fino e preciso, os dois
cabelos que levantaram
e ondearam, e aeraram, e pousaram, para que a silhueta
ficasse imóvel e perfeita
como nas aulas de desenho onde o modelo-estátua era o centro
objeto sem sentimento a circular, a circular, pelas
cirurgias do olhar –
mas não era esse o caso, o modelo era foco refletido num
único espelho
num bailado de dualidades.
uma Vénus em Marte, Marte em Vénus e Marte em Vénus
aprisionado, subjetivado.
não se fecharam os olhos, não se esconderam nas janelas da
mente a súbita luz
mesmo que um mero instante de dúvida, a hesitação
instantânea que oscilou o barco –
é incorreto pensar que existe uma democracia de emoções.
uma paz negociada, uma mediação recíproca perante a
circunstância de Cronos.
as emoções são como os terramotos, irritações das placas
para além do que vês.
as emoções são sabedoria.
impositivas para além do conhecimento que Rousseau ou
Diderot julgavam alcançar:
Lisboa ruiu não é uma culpa moral.
as emoções são rizomas sem centro nem periferias.
revelam-se, indizíveis, nessa liberdade de um não-lugar,
inapreensíveis na simbologia.
não existem mãos
poderosas ou exercícios públicos da razão
que as possam tornar dóceis e flexíveis: as mais puras, as
mais sensíveis
ou os gestos de loucura–
as emoções a flutuar nas águas pesadas esperando os remos
dos sentimentos –
os sentimentos chegam
sempre, vividos e lembrados, sem o som estridente de campainhas.
invisíveis, cobertos de sombra ou de uma memória perigosa
para os batimentos da aorta:
desenhavas silhuetas com os dedos ainda brilhantes de
grafite, e nada disse. tantos dias –
não conseguimos parar o tempo, somos sempre contemporâneos a
segurar instantes.
mas não devemos parar os barcos que deslizam por entre
árvores longilíneas.
e não devemos desvelar essas magias –
















