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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Vénus e Marte


    fotografia: Rodney Smith

o barco deslizava pelo labirinto das árvores longilíneas.
dirigia-se ao céu. para lá das altitudes da camada de ozono
subiram os dióxidos e o metano tão perigoso: eram quentes as águas.

quantos graus subiu na aorta o fluido veloz, nessa tarde sem rumo?

lenta tarde, por vezes de silêncios na observação íntima dos murmúrios.
não era apropriado o vestido escuro de múltiplas transparências.
nem previsível o vento frenético na passagem do colibri
- asas invisíveis que criaram em traço fino e preciso, os dois cabelos que levantaram
e ondearam, e aeraram, e pousaram, para que a silhueta ficasse imóvel e perfeita
como nas aulas de desenho onde o modelo-estátua era o centro
objeto sem sentimento a circular, a circular, pelas cirurgias do olhar –

mas não era esse o caso, o modelo era foco refletido num único espelho
num bailado de dualidades.
uma Vénus em Marte, Marte em Vénus e Marte em Vénus aprisionado, subjetivado.
não se fecharam os olhos, não se esconderam nas janelas da mente a súbita luz  
mesmo que um mero instante de dúvida, a hesitação instantânea que oscilou o barco –

é incorreto pensar que existe uma democracia de emoções.
uma paz negociada, uma mediação recíproca perante a circunstância de Cronos.
as emoções são como os terramotos, irritações das placas para além do que vês.
as emoções são sabedoria.
impositivas para além do conhecimento que Rousseau ou Diderot julgavam alcançar:
Lisboa ruiu não é uma culpa moral.
as emoções são rizomas sem centro nem periferias.
revelam-se, indizíveis, nessa liberdade de um não-lugar, inapreensíveis na simbologia.
 não existem mãos poderosas ou exercícios públicos da razão
que as possam tornar dóceis e flexíveis: as mais puras, as mais sensíveis
ou os gestos de loucura–

as emoções a flutuar nas águas pesadas esperando os remos dos sentimentos –


os sentimentos chegam sempre, vividos e lembrados, sem o som estridente de campainhas.
invisíveis, cobertos de sombra ou de uma memória perigosa para os batimentos da aorta:
desenhavas silhuetas com os dedos ainda brilhantes de grafite, e nada disse. tantos dias –

não conseguimos parar o tempo, somos sempre contemporâneos a segurar instantes.
mas não devemos parar os barcos que deslizam por entre árvores longilíneas.
e não devemos desvelar essas magias –

 josé ferreira  





terça-feira, 3 de janeiro de 2017

os edifícios precisam ser substituídos por raízes

imagem daqui

nas cidades suspensas os edifícios precisam de ser substituídos por raízes.
da física estática para a dinâmica de células fluidas.
é uma questão de oxigénio quando se procura as asas das borboletas
porque são únicas e sem indício
vestidas da transparência natural de existirem:
sem o humano e a filosofia dos sentidos –

é a surpresa que importa e não a rotina.  o que sempre acontece é previsível.
como a visita da lua ou a luz excedente do astro que se estende
sem a seta e sem destino, sem o sensível e o sibilino 

o mesmo acontece quando o meu ombro e o teu ombro existem, e é física.
sem o reencontro são desperdício: uma redundância de silêncios
na campânula dos ouvidos –

é apenas segunda-feira e sucede de novo o ano e a cronologia:
semanas e meses, a geometria dos números, como  promessa, sem simbologia.
não desvelam o devir, a escrita dos interstícios
e só isso importa enquanto o pêndulo oscila
pela diferença e pelos navios
pelo invisível: o significativo sem o concreto dos cimentos e das tecnologias –

os edifícios são lugares sem autonomia, destituídos de artérias  e veias
não circulam nem imaginam. apesar da génese comum na arquitetura das avenidas
são diferentes as rugas e os signos: na vértebra quatro a contar de cima, o sinal
na pedra cinco, à direita da segunda janela, os pós cinzentos que mudam a cor das borboletas
para que sobrevivam -
as cidades são instrumentos e estão suspensas, porque nunca é delas a narrativa
são objeto, são construídas –

quando caminhas, quando escolhes um lenço de seda ou uma manta de ovelha
um sapato alto ou o andar próximo das sabrinas, és movimento –
a singularidade crítica que origina o poema, permanente ou efémera
nos olhos que estão e são, ou são e não estão, naquele fragmento imprevisível.
passando, passando, em passando, pelos trajetos da cidade e pelos milhares de olhos
feitos edifícios e pelas ruas que os alinham, que os tornam altos e os destroem
na sombra das almas que os significam. que os tornam necessários e representativos
suspensos, sem raízes, na sede do segredo

do segredo e das narrativas –

josé ferreira 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

memória viva

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Elisabeth Forbes, The Leaf, 1897-1898

sabes, no silêncio são memória viva as pedras flamejantes da lareira grande
mãos invisíveis de cobertor que confortam as faces de rosas em brasa –

faz algum tempo crescia em mim este destino, este cavalgar de ondas
como o navio de espelhos de um outro poeta, sem ritmo e sem regras
no único princípio de um pensamento: não devemos guardar as palavras
mesmo que digam muito e nunca digam tudo nas fronteiras de signo –

de novo a ordem incerta dos versos incendeia-me os sentidos e as mãos voam
na forma que te define: as curvas do ombro, o caminho conhecido de um sinal
a extensão longilínea, até onde o braço desliza –

sabes,existes magnífica,sempre que os olhos se fecham nestas planícies sem limites
e, se a perfeição é um mito, subsistes única, ali tão perto
singular e significativa, naquele fragmento vivido por onde flutuam os jacintos
aromas, gestos de sinfonia e o som dos violinos –

não imaginei as ondas altas, o sal e as algas em agitada dança
procurando essa praia de areias movediças. 
e, tudo começou na tua natureza de seres sensível
antes de ser Natal e antes de ser um primeiro dia
quando recolhíamos pinhas em chão de carumas, naquele sussurro de sorrisos -

para ir além da promessa, das folhas estaladiças, da superfície
ao luminoso lugar onde se desvela a utopia –

josé ferreira

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

a casa sem raízes

     imagem daqui

sempre que as nuvens sobressaem
observo os pormenores redondos sem vincos definidos.
a leveza em equilíbrio, descontínua.
estamos sempre em viagem, em aberto, não existe o vazio.
o vazio é uma abstração humana em certos dias.
a interminável serpentina do pensamento avança no interior daquele comboio de Kundera
de estação indeterminada: o comboio que leva a tua história, as tuas mãos e o teu rosto
naquela porta que se abria, rodando o trinco sem ruídos
sem a brutalidade das engrenagens que gritam.
as janelas estavam vivas e as paredes não existiam. era uma casa física sem espíritos.
o mundo era só um, de raios azuis, de lábios vermelhos que se entendiam, sem ideologias –

quantas noites e quantos dias. e depois aquela telha partida, uma pinga, duas pingas
um balde de plástico que se enchia. quantas noites e quantos dias, o silvo do maquinista
a estufa de carvão, o fumo, mas o fumo é indício, o comboio partia –

não consigo fechar os ouvidos, tapar a boca daquela noite, o candelabro sem luz
um tridente escondido a subir a avenida. era inverno e tu sabias -
as nuvens rodeavam a laranja azul, esse planeta de luzes –

receava os símbolos e as tricotomias, colecionei as imagens aditivas, num rodopio.
mas não pude adiar, voltei ao mundo das palavras cristalinas:
a linha contínua que encobre e descobre, como um tricot das Ilíadas.
havia muitas, sabias? pelos caminhos, em mnemónicas repetidas –

as palavras e os teus cabelos são incontáveis, infinitos, finos, fogem e deslizam.
algumas palavras como os teus cabelos são sublimes –
é inverno, não vou contar as noites nem os dias. prefiro tocar nos teus cabelos e senti-los.
os sentidos são o oposto das numerologias  e os números não voam, não se elevam acima
são o chumbo de todos os símbolos, o zero do pensamento –

sopra um vento frio que movimenta o ar pela frincha da janela aflita.
não é urgente, um destes dias coloco a espuma que veda esse atrevimento.
proíbo-lhe a entrada. não lhe permito arrepios na fronteira da pele.
ao vento, esse provocador invisível, na casa de portas e paredes frias.
vou desenhar os teus olhos na porta, nos vidros para que as estrelas se iluminem.
é possível enganar o real por momentos, são múltiplos os fragmentos –

já não sei, já não sei se é urgente.
desvalorizamos a experiência, Benjamim já o dizia: são milhares de fotografias

e a casa sem raízes –

josé ferreira 22 de Janeiro de 2015

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ser

imagem daqui


somos sempre um sonho por inventar
indiferente às polaridades e ao racional
assim como gotas de chuva caídas da nuvem nova
sempre originais.
somos a aura de uma manhã legítima

o acontecimento que os signos procuram explicar –

josé ferreira 16 fevereiro 2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

o valor de uma lágrima

imagem daqui

qual o valor de uma lágrima no teor de sal irrepetível?
elevado ou dispensável?
talvez na proporção inversa da velocidade
segundo a profundidade dos poros ao descer a colina –

qual o valor de um grito ou de um gesto de desvario?
um prato partido na parede inocente
um copo na mão trémula, caindo, tingindo a toalha na cor do vinho –

qual o valor de um sentimento que se sente como uma montanha infinita?
depois de tanto tempo, na substância do presente
feito de vermelho e branco

e de palavras antigas –


josé ferreira 6 fevereiro 2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Quart(z)o adverso


Imagem daqui

sobressaíram poucos sonhos na noite pesada.
cada um para seu lado na prisão das almofadas.
não é uma novidade nessa clausura de Bergman:
um olhar fixo sobre a praia cinza, uma máscara branca
a porcelana fina –
existem marcas nos tectos da casa por detrás de portas fechadas.
as marcas não se pronunciam, subsistem e são sem ruído.
respira-se um ar de chumbo como na subida de uma serra fria:
sob um nevoeiro opaco, lento, contínuo, onde se inscrevem signos
palavras de caligrafia sem o som da língua
silêncios recorrentes na improbabilidade dos caminhos –


não estamos longe nem perto nesse quartzo adverso  –

josé ferreira 13 janeiro 2015

sábado, 4 de outubro de 2014

uma visita inesperada

imagem daqui

um fundo verde e um banco de madeira.
um recorte de dois vultos na moldura de um vidro.
uma janela em guilhotina.
uma esvoaçante cortina.
qual o valor de um gesto sem som à distância de um sorriso?
qual o valor do que se imagina?
analfabetos emocionais dizia Bergman nos filmes.
existe uma prisão dos sentidos na pele que segura os pensamentos
um  mapa de linhas com rios parados
sem fluidos
sem serem fluidos,  sem fluírem. rios de tinta, rios precisos, rios impossíveis.
uma caricatura sem margens, um espaço indefinido –

existe um lugar de sonho  em todos os jardins e em todos os lugares por onde viajam os rios
a possibilidade de uma autobiografia em que mudam as plantas e em que se tingem as folhas
como na época das vindimas: a cor dos bagos e a cor vermelha de um mosto doce
numa  espuma frágil que desliza –

em Outubro o sol brilha. por vezes uma nuvem
e pelas manhãs  um orvalho miudinho. um arrepio.
alguns dias sucedem sem bússola, desorientam-se, experienciam-se e permanecem límpidos.
como naquele dia: um dia de luz, uma túnica branca de linho, uma aragem sensível
um dia sem que alguém pudesse imaginá-lo assim.
um dia sem índice, sem a cartografia falsa dos mapas coloridos.
naquele dia havia um rio e um verde enlouquecido
uma janela aberta e o esvoaçar de uma cortina –


josé ferreira 4 outubro 2014 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

o impossível esquecimento do ser

imagem daqui

hoje não devia procurar as palavras
virar a esquina
atravessar no vermelho do semáforo.
devia ficar quieto como os plátanos
pousar as pálpebras como asas lisas
e subir a noite
quando as árvores estão sossegadas –

devia adormecer sem fundamentos sensíveis
com as músicas smooth e os teus olhos de prata
nos reflexos dos nitratos, um espelho sob a lua
e um traço branco na longitude dos mares –

há cansaços bem sei, os dias estão tão fechados.
doem-te os braços, as pernas, a curva dos ombros
nunca houve um agosto igual.
a minha cabeça está cheia de sombras nas emoções do lembrado
Benjamim e Hanna, o esquecimento do ser , as metáforas;
as viagens são melhores que as chegadas –

já te disse que as multidões são mais felizes quando há sol?
talvez não, nem interessa, a vida já é tão complicada.
e depois o mar, sim o mar, o mar vasto, o mar gigante
reassumindo a força de cavalos desgrenhados –

o mar é um moinho de palavras
o mar é o sal e as escamas, os continentes são demasiado sólidos
apenas margens.
tão irreal e tão aberto este modo de olhar as águas
agora escuras e agora tão paradas.
e ao mesmo tempo vê-las  assim tão ilimitadas –

escrevo-te num outro dia , os tímpanos são tambores índios
hoje sinto-me um prometeu agrilhoado
os olhos estão cobertos de sombras do passado -

mas a natureza é tão leve no jardim quieto  junto ao mar
tão leve tão leve tão leve, não há ruídos de carros nem som de passos na estrada
a natureza acalma:  aquela folha, aquela glicínia rosada
acalma os sentimentos 
e leva-me as palavras –


 josé ferreira 29 agosto 2014

domingo, 17 de agosto de 2014

a cidade que fluía

imagem daqui

em frente de um vidro duplo de um café vulgar
não passou nenhuma das passantes de Baudelaire.
nem aquela alma singular no meio da multidão
de que falava Poe naquele fim de tarde invulgar.
a cidade roía a corda invisível do tempo sem prisão nem abismo.
fluía na sua indiferença fria dos dias habituais.

e é preciso tão pouco
tão pouco e mais nada
para que te estenda a mão –

como quem desprende uma cortina
numa janela demasiado larga, demasiado nua
demasiado lúcida, quando a luz é demasiada.
é preciso tão pouco para desvanecer no teu corpo
na curva dos teus braços mesmo que fechados
apesar do movimento dos barcos –

tão pouco e mais nada
para que as gaivotas pousem na solidez dos muros
e as muralhas acabem –

e os olhos, os olhos, os olhos, os olhos
os olhos como margens
no sublime incrível de se transformarem em asas –


.josé ferreira 17 de agosto 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Entre o linho e o olhar

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imagem daqui

Nesse branco mero instante
Em que te vi chegar
Soltou-se do lado esquerdo
Um  brando ruído de mar

Estendeu-se com a maresia
Passeou pelo areal
Debruçou-se na varanda
Na luz líquida do olhar –

O reflexo de muitas ondas
Corria no mármore das faces
Mais de luz menos de sombras
Nas crinas de outros mares –

Não foi instante fatal
Nem grau zero racional
Mais forte a curva dos dedos
Em mãos leves de luar –

Na manhã mais boreal
Aves andam no ar
Passos na porta lado
Uma chave a rodar –

E nesse branco mero instante
Não como era habitual
Pousaste de novo o rosto
Entre o linho e o olhar –

josé ferreira 6 Agosto 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cordélia e o Rei Lear

  
                                                               “The way of this sad time we must obey;
                                                            Speak what we feel , not what we ought to say” W. Shakespeare

esquece e perdoa pois não há dor que doa
em ninguém de forma igual.
és única, sabes, como um trevo de pétalas simbólicas
como uma brisa ou um raio de sol que leva a chuva do mar:
pouco a pouco, em sequência morna de dedos invisíveis
a deslizar, a deslizar –
os nossos poemas  são formas e linhas de pele
há um sumo de alma em cada um deles
um lugar de tempo e espaço, um rio de sangue
por vezes, um oceano de palavras acariciando as rochas
e subsiste a longitude dos olhos, as memórias  e as baías desiguais.
se falo de mim? mas sempre falamos de nós, sempre falamos de nós.
numa medida sem dono,  sem o sossego das métricas
sem o peso definido do número e da  percentagem.
uma ilusão que nos ilude sempre  como se fosse verdade
uma verdade inalcançável, singular e infinita –

há nevoeiro ao acordar, uma cor cinza. lembras-te de Shakespeare?
lembras-te do Rei Lear? tinha três filhas e uma era original.
Cordélia era o seu nome e põe-me sempre a pensar.
era única, sabes. e no fim, é uma tragédia:
em cinco actos, quatro mortes e uma lição moral.
se reparares bem, o rei não resistiu à tempestade
pediu que o coração falhasse.
partiu com a sua dor numa piedade de cima.
a coroa era uma casca de ovo, partida e vazia (disse-lhe o Bobo).
a sua Rainha há muito adormecida e os cavaleiros perdidos
e Cordélia, de lábios abertos não criava a névoa
o fumo breve, na imagem fugidia dos espelhos.
o corpo de Cordélia já não era aquele que jazia
era o outro, imanente e intangível na imagem reflectida –
porquê ficar? o Rei na sua dor, que era só sua, partia.

sabes, és única. vejo interrogações nas tuas pestanas de libelinha
na tua pele luzidia.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
o nevoeiro passa. o nevoeiro vai passar –

sabes, na história do Rei Lear, há quatro mulheres fundamentais
a génese e um mundo de falsas velocidades. tudo tão rápido.
uma voz ausente de mãe e não há descendentes.
o Rei de França que recebe a alma mais pura
ausenta-se  inexplicavelmente, não cuida:
Cordélia sem vida, como Antígona.
depois as duas irmãs,  iguais na ambição, na traição e na perfídia
desvanecidas, entre o veneno e uma lâmina assassina.
por fim os homens. os bons homens predominam.
mulheres nenhumas para as últimas palavras, as da epígrafe.
por fim distribuem-se títulos, terras e honrarias.
a paz predomina. um ciclo e um círculo como as noites e os dias.

os teus dedos são ainda aves que ondeiam os cabelos por detrás dos ouvidos.
sorris sempre com esse gesto simples de levantar uma cortina
de deixar entrar luz na superfície da pele
na curva definida do rosto.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?

a tua dor é singular, assim a minha, ocupa um centro
não se divide. é um bom indício –


 josé ferreira 6 Agosto 2014

quarta-feira, 19 de março de 2014

sublima

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imagem daqui

a velocidade aflita pode ser o fundamento
para o teu  zig-zag permanente :
os teus olhos de horizonte
os teus passos de gazela
os teus cabelos fulminantes  –

a não procura de um rumo é a negação do absoluto.
a certeza do transitório e do fugidio.
uma flânerie como diria Baudelaire.
por vezes, o instinto na distância da razão
por vezes, a velocidade da lebre e o sono das árvores
por vezes,  o casulo de seda sem a iminência do vulcão –

alguém disse: é da experiência singular que nasce a obra de arte.
emoção e acto que interage, a procura de um outro espaço
a libertação do tempo: a nudez do sentimento -

senta-te no banco de um jardim. 
recebe a luz e a sombra de uma forma natural.
 elimina a rotina dos teus olhos de cidade:
o excesso de imagem, o mar de signos
o esforço mínimo de abstracção, a transcendência impossível
o ruído, o ruído, o ruído -

pára, desce as pálpebras, sublima -

josé ferreira 19 março 2014







segunda-feira, 17 de março de 2014

os teus olhos no meio da cidade



naquela tarde de março o sol era um astro luminoso
onde   raios  oblíquos atravessavam o azul, um azul ténue –
               
não era ainda o dia das glícinias
era um dia de camélias  distintas
e de múltiplas flores de azálias em cores de vestidos –

as flores existem como invenção dos deuses num dia de luz e brisas.
as flores fundem-se  nas mãos das mulheres numa harmonia uníssona
como uma música sem som, só nos ouvidos –

como naquela tarde de março, quando 
as tuas mãos límpidas e longilíneas
faziam dançar as pétalas, em círculo, em círculos
de uma sensualidade pura, descobrindo

a cor dos teus olhos e a verdade do sorriso –

josé ferreira 16 de março 2014

sábado, 8 de março de 2014

magnolia - um poema para o dia da mulher



aquela imagem improvável só de flores e braços
fez descer o silêncio no meio da luz.
um momento de sossego na tarde pesada
com meias luas aos pés
pétalas e pétalas numa seda branca.
é estranho alguém sentar-se na relva com carros de ambos lados
 não escutar buzinas nem seguir os passos das gentes da cidade.
é estranho tentar compreender as magnólias
a sua quietude singular
o equilíbrio frágil das muitas flores pousadas
o seu ar de mistério
o seu ar de mulher –

josé ferreira 8 de março 2014

imagem daqui

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

outros dias























penso em todas as diferenças: as do género e as outras
 a luz de uma manhã  sumindo sombras
 os versos escritos nos espelhos  de um rio
os remos guardados dentro de um barco magnífico
o ruído dos pássaros
e o silêncio nas margens sem indícios –

outros dias –


josé ferreira 25 fevereiro 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

jardins adormecidos

Boticelli " Alegoria da Primavera"

as árvores são singulares sem exclusão alguma
folhas, flores e frutos
como as últimas tangerinas num jardim adormecido
como as camélias rubras resistindo à chuva
como as primeiras folhas da glícínia 
anunciando aromas, subindo das raízes e atingindo a luz
na primavera por chegar –


os silêncios do Inverno falam dentro de nós
propagam o som de muitas palavras nas abóbadas da catedral
nas múltiplas cores dos vitrais, no imaginário das imagens
que crescem, crescem, crescem
para se transformarem em pó 
e nascerem de novo 
como atitude natural  –

os jardins adormecidos podem acordar –

josé ferreira 15 fevereiro 2014


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

apenas

imagem daqui


hoje não vou falar das filigranas do passado
nem dos nevoeiros das manhãs pesadas
apenas te trago o poder do girassol
que segue a lúcida luz

mesmo de olhos fechados –

josé ferreira 12 fevereiro 2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O homem e a sua circunstância



















Saul Leiter


nem toda a circunstância se faz de lugares comuns
de orientações velozes e do íman das cidades
do metálico e do plástico, da irrealidade quotidiana.
há faces brancas nas manhãs plácidas do presente e do passado
existem pétalas sem nome pelos passeios molhados
as almas podem habitar possibilidades –

chovem sem mágoa gotas lentas.
os carros passam lançando um nevoeiro húmido
e os pés avançam.
os passos seguem outros passos
como se fizessem parte de um exército de rostos elevados
ritmados, passo a passo: em frente, atrás, ao lado  –

se um homem caminha no meio da cidade
mimesis simplifica a poesia distingue
e transcende para além da certeza de haver flores doces e amargas
na circunstância que se persegue, pelo espírito e pelo acto
entre a coragem de encontrar e a possibilidade da descoberta.
porque os segredos são poços fundos
como paredes submersas de Atlântida ou estrelas de uma nova galáxia –

o verdadeiro pulsar  do humano não pode ser determinado
esconde-se atrás de uma simbiose de luminosidades.
não és tu nem o outro o mestre dos sentidos
apenas peças de uma dramaturgia invulgar
onde as almas são sempre únicas, sem artérias, sem geografias
habitando a circunstância dos espaços:
como quando o azul se distende
e completa o mar –


josé ferreira 30 janeiro 2014 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

a noite de winter (soneto improvável)

Saul Leiter


a minha cidade está escura na noite de winter.
caem ainda as folhas dos plátanos, secas e castanhas  pelo vento frio.
forram as artérias do jardim, rodeiam as grandes tílias.
não há nenúfares no lago.  as águas estão geladas, vazias –

na noite de winter não surgem sonhos azuis.
a escuridão preenche as esquinas.
a solidão está escrita na luva que aperta a gola
para que a garganta não esfrie –

não é este o teu modo, a tua sina
- sopram vozes caídas do infinito -
porque és assim em melancolia  e sem ritmo?

passos ecoam invisíveis na incerteza do caminho.
nos lampiões pousam os corvos.
onde andam as cotovias?


josé ferreira 30 Janeiro 2014