segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Não posso adiar o amor - Um poema de António Ramos Rosa

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imagem daqui

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa,  Matéria de Amor, Presença, 1985

domingo, 22 de setembro de 2013

Onde Calha




 
"sapiãos"

ONDE CALHA

Emily dou-te a minha frase,
A rosa não deixaria de ter espinhos, nem perfume, nem pétalas brancas!
Dou-ta por gratidão, só, a quem sabe guardar de enlevo

Ó aurora mesmo assim leda, mesmo que ali quase continuamente
quedo lesta para te saber escutar, e nunca me fintar em qualquer um

Negalho de alguns, atas, és, te acho, e assim senti
agora dão, te ririas da feeria
tu mulher, tão sábia Emily!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Meu Soneto - um poema de Florbela Espanca

imagem daqui

Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastros...

E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" lido aqui

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

e por vezes os cisnes

 
 imagem daqui

o transitório não te define.
a linha, o ponto, a vírgula, o tracejado
ou mesmo a curva que se inclina sem fim à vista.
permanece o indefinível, o que se recupera depois do redemoinho.
somos sempre a um lugar de janelas e de cortinas
entre  transparências e  sombras da mente.
entre verdades que se tornam acessíveis
e mentiras que se escondem
entre o espelho dos lagos
e a poeira dos dias.

somos sempre
e por vezes  os  cisnes –


 josé ferreira 2 de setembro 2013