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sábado, 20 de outubro de 2012

Um poema para Manuel António Pina de José Almeida Silva






Homenagem a Manuel António Pina


É lá possível! O Poeta não morre!

É lá possível não ouvir a tua voz
No silêncio que te fizeste.
É lá possível não ficar triste
Ouvindo a notícia da tua morte

E ver-te ao mesmo tempo a dar
Corpo iluminado à tua sabedoria,
Que o tempo e os livros da tua vida
Teceram, e que me tocará para sempre.

Fiquei triste e com o coração sereno
Porque o teu olhar foi sempre a paz
E a serenidade de tratar bem a tudo
E a todos como os mestres da palavra
E da humanidade. Tu não partiste.

Ficaste entre nós nos teus versos
E numa poalha de ouro aspergida
Sobre as nossas vidas – a tua voz
Falando das coisas naturalmente.

A morte nada pode contra a Poesia –
                                               2012.10.19
                               José Almeida da Silva

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Página de diário ou quase




– Oito de setembro.
Nunca visto em S. Félix da Marinha.
Na sala da Teresa, entrou solícito o Mar –
Trazia Vozes – cheio de poemas, e vozes
Muitas vozes na rebentação das ondas – FA4 –
Algumas exibiam Um mar com cidade dentro,
Encrespada espuma nos rochedos, revolta e branca,
E houve piquenique na maresia sob o olhar subtil
Do Preto e do Branco, olfato estimulado
Pelo generoso odor a mar e a guloseimas na mesa postas

As ondas deram voz às palavras do horizonte que no poema
Era suave linha branca – Abraço ténue do céu e do mar
No nosso olhar. Di-lo a nossa memória de era uma vez…
… a nossa infância. Dizem-no os habitantes do mar que nos seduzem
E ergue-se, bela, a memória da Menina do Mar a correr
Para nós trazendo nas mãos acesas corais e cavalos-marinhos
E a evocar-nos que somos adultos e sempre meninos;
Atravessada pela paixão, outra voz acendeu um longo eco
Da alentejana voz de Florbela: “Queria amar-te como o mar/

Numa entrega de perpétua maresia”, e todos vibraram muito
De alegria. Depois chegou do mar dolorosa voz e as cores assim
Lá longe diluídas, para a seguir serem azul só no olhar como o
Amor ao sentir. De repente pula um peixe encarnado mas um
Caranguejo, coitado, pincelou-o. Fotografou este insólito momento,
Um fotógrafo ambulante e era janeiro. Se fosse junho, e o calor viesse,
Os meninos na praia, ou na sala da Teresa se o mar voltasse, assustariam
O caranguejo que começaria andar para o lado, impedindo-o de ir contra
O peixe encarnado. Por falar em fotógrafo, lembro-me de uma voz
Encantada que contava a história de um fotógrafo – O homem
De Imilchil que herdara uma máquina e que tinha um fogo ateado
Na alma: “Ver uma fotografia do mar”. Há poetas que inventam
Estes sonhos e têm máquina fotográfica e fotografam os sonhos.
São “pele e outros temperos”. As saudades que tenho da Inês. Será
Que o Natal trará a luz e que vai amanhecer “sem mais salina”?

De novo o mar a entrar pela varanda. E sorrateiros os fumadores
Aproveitaram essa nesga de azul por onde entrara o Mar. E uma
Voz de palavras e dor oculta no peito soltou um dó menor no ar de luz:
“Era minha dor o mar / (…) /Pena azul, revolta e terna.” Eterno, este
Vaivém: “O meu mar são os teus olhos / Onde me perco e me alcanço /
(…) // (…) azul é a cor do meu amor”. E isto é dor? E é prazer e alegria?
Muitas vezes, o revisita a elegia. E revisitou a casa teresina, eu bem na vi,
Sophia saindo grácil dos seus livros, ali pousados, na mesinha alta. Por ali,
Vivera quando menina saudando o mar da sua infância todas as manhãs e
Aos fins da tarde, e ali se encontrava com o Búzio – um velho amigo sábio.

“O mar intacto” procurou intacto lugar. Há sempre uma primeira vez
Para olhar o nunca visto. Cheguei-me à vidraça que dava para o mar –
“Olho os navios que ainda não chegaram”. E houve comemoração:
“São uma gota de água estes três anos”, e VOZES lidas com o coração.

Apagou-se a luz, já era tarde, o mar recolhera ao Mar, e só a Teresa
Estava em casa. E os outros? Somente a viagem e um calor no coração –
2012.01.06
José Almeida da Silva

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mar - os poemas de José Almeida Silva


Wagner Lima

Gota de água

São uma gota de água estes três anos
E a poesia uma poalha de ouro –
Constroem um tesouro os poetas.

Que o diga o mar de azeite inacessível –


2011.09.09
José Almeida da Silva




.........................................… olha como é brutal o mar.

O mar intacto

Só agora o mar lhes entrou pelo olhar
Trazendo-lhes na espuma esboços de futuro.

Ela surpreende-se de êxtase e desvelo
Dedilhando o recém-passado na maré;

Ele retrai-se diante do oceano imenso
Mas a graça da terra sonha-lhe o futuro.

O futuro e o mar enlaçam-se em segredo
E a esperança e a terra prometem liberdade.

Em mim, os outros são eu sem medo da cidade
E eu o mar na minha transitória eternidade –

2011.09.08



Soneto

Olho os navios que ainda não chegaram
E os pássaros anunciam-me os teus olhos
Eu corro para o cais buscando os molhos
Da ternura que as aves felizes te levaram.

E agora que as ondas vão crescendo,
Vai crescendo o desejo de te ver,
Pois sinto a minha alma a sofrer
E todo o corpo aceso te querendo.

O distante horizonte se aproxima
E os navios em festa vão entrar
No cais do nosso amor que se ilumina,

Para que tu, meu amor, e eu contigo
Naveguemos o Amor no seu altar –
Mar de ternura que guardei comigo.
2011.09.05