sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Emily querida



“A Manhã é de todos —
A Noite — a alguns dada —
Para os poucos do império —
A luz da Madrugada.”
Emily Dickinson


é uma carta, uma carta poética com asas leves , largas e sem espessura;
o teu sorriso é magnífico.
sabes, a temperatura é elevada e não há sombras no meio-dia
a luz invade  e lembro-me
lembro-me sempre -

era Setembro
a altura em que as flores dão lugar aos frutos
a altura em que os bagos de uvas rolam entre os dedos e dão lugar ao brilho
a altura em que o polegar apaga  a cor cinza e  quando o mosto doce circula  -

era Setembro dizia
os teus olhos refletiam a cor do rio, um Douro intenso rodeado de vinhas
um vale onde Abraão não existia, apenas a paisagem, um azul em cima
e os teus pés descalços envolvidos de dedos mais compridos
numa viagem de peles distintas –



era Setembro dizia
corria uma brisa gazela sobre a dilatação dos poros
e as folhas oscilavam sem ruído
de onde vinha o vento Emily?
declamavas poesia numa possibilidade infinita
e os versos eram aves que subiam -

confesso, Emily, mesmo nas margens estreitas do rio
os meus dedos eram gaivotas e os meus olhos distendiam-se
em  horizontes de mares que não terminam –

por isso, por vezes perdia-me, e a tua poesia era exigente e exigia -

mas os teus pés, sim os teus pés, eram peixes húmidos
numa seda desenhada de escamas sem qualquer lâmina
navegavam sem contradições sem águas encrespadas
sem a violência das espumas e era incrível
sentia nos montes o aroma das maresias -

era Setembro dizia
a tua timidez estava para além da luz do primeiro dia;
 a apresentação: dois lírios –

naquela margem entre as almas de éter bem unido
acendeu-se um rubor cereja quando
uma vez mais e uma vez mais, algumas gotas de rio
caíram sobre os pés brancos, na tua pele intacta e polida
e lembro-me, lembro-me exactamente
palavra a palavra
as palavras que dizias –


José ferreira 30 janeiro 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Estou vivo e escrevo sol - um poema de António Ramos Rosa




Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida
melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde"

António Ramos Rosa

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ai, Margarida - um poema de Álvaro de Campos


Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

1-10-1927 lido aqui
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 
 - 70.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo - um poema de Álvaro de Campos

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.


imagem internet


Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.
São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia.
Abro a janela directamente, no desespero da insónia.
E, de repente, humano,
O quadrado com cruz de uma janela iluminada!
Fraternidade na noite!
Fraternidade involuntária, incógnita, na noite!
Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia.
Dorme. Nós temos luz.
Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu?
Não importa. A noite eterna, informe, infinita,
Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,
O coração latente das nossas duas luzes,
Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida.
Sobre o parapeito da janela da traseira da casa,
Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro,
Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim.
Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!
Que fazes, camarada, da janela com luz?
Sonho, falta de sono, vida?
Tom amarelo cheio da tua janela incógnita...
Tem graça: não tens luz eléctrica.
Ó candeeiros de petróleo da minha infância perdida!
Álvaro de Campos 25-11-1931 lido aqui

sábado, 18 de janeiro de 2014

a teia imperceptível

a teia imperceptível

 
Annie Leibovitz


tecida teia de linhas
dando voltas na espiral tão leve
fica tão fina que  mal se percebe
quando barra o caminho –

como saber se existe se não é perceptível?
atenção para que não te prenda
para que não te ligue os braços à barriga
a tecida teia quando surge no caminho
 dá voltas e voltas, entontece, rodeia e esfria
atrasa o batimento cardíaco –

a tecida teia atrai na ilusão límpida
na transparência do vidro e envolve os sentidos.
a tecida teia atrasa o pêndulo, a dança das horas e dos minutos
o bater da meia-noite, o bater do meio-da
no novo  novelo que cria – 

a tecida teia é uma hipnose malévola
atrasa os cânticos e a música dos violinos
atrasa o mar nos dias felizes
atrasa a cor dos olhos e o vermelho da face
atrasa o sopro azul das brisas e o sorriso 
 dá voltas e voltas, entontece, rodeia e esfria – 

respira –


josé ferreira 18 Janeiro 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Estendais - um poema de Inês Lourenço


imagem daqui

Em alguns invernos mais chuvosos,
em Miragaia que foi a Madragoa de
Pedro Homem de Mello, o Douro
salta a margem e entra pelos arcos
onde se demora no rés-do-chão
das casas, por duas madrugadas.

Mas são os estendais, à janela
agitados pelo vento nas abertas da chuva,
que nos trazem a urgência e a constância
dos corpos, nas mangas pendentes
de camisas, camisolas ou na roupa

interior, última margem dos íntimos rios,
onde os poliesteres aboliram os felpos, os linhos
as cambraias. Só a cor branca dos lençóis teima
lá no alto, a abrir velas ao desejo do sol
e à memória de obscuras lavadeiras, que faziam
heróicas barrelas na espuma inocente do sabão.

Inês Lourenço lido aqui

sábado, 11 de janeiro de 2014

Espelho - um poema de Sylvia Plath




Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos.
O que vejo engulo de imediato
Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, simplesmente verídico —
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente.
É rosa, manchada. Fitei-a tanto
Que a sinto parte do meu coração. Mas cede.
Faces e escuridão insistem em separar-nos.

Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim,
Buscando na minha posse o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua.
Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra.
Ela paga-me em choro e em agitação de mãos.
Eu sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã a sua face alterna com a escuridão.
Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

Sylvia Plath (tradução de Pedro Calouste) lido aqui

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ali não havia electricidade


Alain Delorme

Ali não havia electricidade. 
Por isso foi à luz de uma vela mortiça 
Que li, inserto na cama, 
O que estava à mão para ler — 
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes. 
E reli a "Primeira Epístola aos Coríntios". 
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província 
Fazia um grande barulho ao contrário, 
Dava-me uma tendência do choro para a desolação. 
A "Primeira Epístola aos Coríntios" ... 
Relia-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima, 
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim... 
Sou nada... 
Sou uma ficção... 
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo? 
"Se eu não tivesse a caridade." 
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos, 
A grande mensagem com que a alma é livre... 
"Se eu não tivesse a caridade..." 
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa lido aqui

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Foi no mar que aprendi - um poema de Sophia





Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma

Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, Caminho, 1998.
lido aqui

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

É por ti que escrevo - um poema de António Ramos Rosa

PicassoFrancoiseGilot
Pablo Picasso (imagem daqui)
É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto' (lido aqui)