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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal
















Às três horas da tarde 
do dia 24 de Dezembro 
um triste lança possibilidades ao mar 
Talvez procure companhia,  
ou um final feliz no fim da linha 
ou que se afogue 
a consoada de quezílias e hipocrisias
O mar está bravo 
a linha esticada 
mas não há bacalhau 
no mar de S. Felix
muito menos finais felizes

Teresa Almeida Pinto 
24.12.2015


domingo, 18 de setembro de 2011

o triunfo de Vénus


Cszaba Markus

a distância no aparo muito fino de uma canetilha
onde era costume tornear mapas de continentes
realçar as fronteiras e nomear a origem;
a cultura sólida e a liquidez dos mares -

mas não é este caso, a causa próxima -

da profundidade dos cabelos
nascem linhas, a forma e um objectivo
na complexidade de óleos da china
um quadro, um rosto, o sfumato
a face lisa de uma subtil continuidade -

e tudo fica subentendido, a raíz -

como confessa Apolo no longínquo oceano
há sempre o risco e a substância
quando se perde o lugar dos olhos, a linha azul;
mas não se ignora Cronos, o mostrador do relógio,
e surge a gota de sangue

o desespero da distância
o relâmpago de Vénus, o fumo na varanda
e o silêncio -

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mar - os poemas de José Almeida Silva


Wagner Lima

Gota de água

São uma gota de água estes três anos
E a poesia uma poalha de ouro –
Constroem um tesouro os poetas.

Que o diga o mar de azeite inacessível –


2011.09.09
José Almeida da Silva




.........................................… olha como é brutal o mar.

O mar intacto

Só agora o mar lhes entrou pelo olhar
Trazendo-lhes na espuma esboços de futuro.

Ela surpreende-se de êxtase e desvelo
Dedilhando o recém-passado na maré;

Ele retrai-se diante do oceano imenso
Mas a graça da terra sonha-lhe o futuro.

O futuro e o mar enlaçam-se em segredo
E a esperança e a terra prometem liberdade.

Em mim, os outros são eu sem medo da cidade
E eu o mar na minha transitória eternidade –

2011.09.08



Soneto

Olho os navios que ainda não chegaram
E os pássaros anunciam-me os teus olhos
Eu corro para o cais buscando os molhos
Da ternura que as aves felizes te levaram.

E agora que as ondas vão crescendo,
Vai crescendo o desejo de te ver,
Pois sinto a minha alma a sofrer
E todo o corpo aceso te querendo.

O distante horizonte se aproxima
E os navios em festa vão entrar
No cais do nosso amor que se ilumina,

Para que tu, meu amor, e eu contigo
Naveguemos o Amor no seu altar –
Mar de ternura que guardei comigo.
2011.09.05

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Nocturnos



I

Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo

As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.

As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.


II

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
— os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.


III

Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
não a história dos nomes que têm e não conhecem
[por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu,


Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
— e, em pequeno, não era eu quem a fechava.


IV

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio,
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.


Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.


V

Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

VI

Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

VII

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.


Jorge de Sena

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

a chegada do mar

.
raquel patriarca | apúlia
.
.
espero a chegada do mar.
espero que venha por mim e que fique,
livre da lua, do tempo e do movimento das marés.
espero que me lave a alma,
que me faça naufragar no esquecimento do mundo,
que me dispa de pecados e culpas.
espero a chegada do mar
como se fosse um pôr-do-sol
na infância ou uma madrugada
de maturidade.
espero a chegada do mar
que traz em si o amor e a vida,
que nascem em mim em laivos de fogo e de céu.
espero a chegada do mar
que me vem abraçar e que, no entre-
cortar da respiração, apaga a tristeza e
desfaz a solidão.
quero ser a terra que lhe faz de leito e
o céu do horizonte, mas sou ainda
a desfigura nublada que na margem
se mantém presa à rocha e exposta no
vento, onde espero a chegada do mar.
.
raquel patriarca | setembro.doismileoito
.

i am


.
raquel patriarca - porto santo
.
.
Can’t find my soul when away from you
I remain cold, sad and alone
I am a stone
.
Then I see your face and my soul too
I become all that I can be
I am the sea
.
raquel patriarca | doismileoito
.

a memória do mar

.
raquel patriarca - colagem
.
há um lugar secreto
e encantado,
de onde vêm as
sereias,
com castelos
de rocha e coral
e cavalos marinhos
que patrulham as ameias.
.
e as estrelas,
(que nascem das areias)
não brilham,
dançam!
são pingos de cor
nas profundezas,
enroladas em abraços
de anémonas
como as flores do campo
em cabelos de princesas.
.
as baleias
falam da origem de tudo
em canções de embalar,
que ecoam –
muito longe
e muito fundo –
em cada onda,
em cada grão de areia,
em cada concha
do mar.
.
é um mundo
imenso imenso.
azul e fantástico,
cheio de criaturas
estranhas, ferozes, bonitas
tubarões, raias,
caranguejos eremitas.
.
vive por lá uma linha,
branca e suave,
em que o céu toca no mar,
onde o vento é eterno
e até os sonhos vêm sonhar,
como o voo lento
de uma pequena ave
no colo doce da maré,
que sempre, sempre
continua,
e sorri –
de vez em quando –
ao reflexo claro
da lua.
.
raquel patriarca | vinteenovedesetembrodedoismilenove
.

O homem de Imilchil

.
David Minguillon | Uma família de Imilchil
.
Conheci um homem em Imilchil
que não era pastor, nem padeiro nem tecelão.
E isso, por si só, dizia tudo
como se a diferença fosse o seu
traço mais definidor.
.
Conheci um homem em Imilchil
que tinha uma Petri 7S de 63.
Não sabia explicar de onde
viera o objecto que lhe definia
os dias, apenas que lho tinha deixado
o pai junto com a vocação
de ser fotógrafo da aldeia.
.
Vivia numa casa apertadinha que
ofereceu sem reservas ou cerimónias.
Nas paredes de terracota e
no meio dos livros e jornais
espalhavam-se as imagens de
dezenas de vidas.
.
Vi um soldado em despedida, fardado,
orgulhoso e resoluto,
assustado;
uma noiva sorridente e ansiosa, sentada
com as mãos no regaço,
envergonhada;
uma tenda erguida na montanha e um
homem apoiado no cordame o rosto como
um nó;
uma família composta em pose, as
mulheres à esquerda e os homens à direita,
as crianças na frente. No fundo, em pé,
a avó.
.
O cheiro dos papéis amarelecidos
misturava-se com o dos líquidos
desconhecidos e emulsões estranhas
com que as vidas se tornavam
imagem latente. O cheiro da missão
única, respeitável, grata
de guardar tantas memórias de tantas
vidas em imagens e cristais de prata.
.
Perguntei-lhe se o podia fotografar.
Assentiu, alegre e generoso.
Sentou-se sobre os calcanhares
no chão a máquina pousada na coxa,
a boca séria os olhos a sorrir.
.
Conheci um homem em Imilchil
capaz de reconhecer a angústia que
se esconde num sorriso, a saudade
no mais pequeno gesto, a alegria
secreta num olhar.
.
Escondia um sonho secreto só dele:
ver uma fotografia do mar.
.
raquel patriarca | nove.setembro.doismileonze
.

para que os peixes saibam (porque os peixes também andam no mar)


Duartte (retirada daqui)


nunca por nunca de qualquer modo
quis pálpebras tristes janelas fechadas
sem asas sem aves sem árvores.
corro.corro. junto ao jardim da buganvília
à fonte da boca d'água e cara de teatro.
desço.desço. a rua inclinada
até à margem só de madrugada
de orvalho sem vivalma. e grito. grito.
para que todos os peixes saibam
que nunca. nunca por nunca
quis teus olhos tristes
os braços como espadas
os ombros altos de muralhas
e os lábios a sete chaves
sem o sopro das palavras.

José Ferreira 26 Abril 2010

sábado, 10 de setembro de 2011

Amar, O Mar

Queria amar.te como o mar.
Abraçar.te de onde cheia
e lamber.te o corpo, grão a grão,
numa tarde de Inverno.
Sussurrar-te mansamente, levemente,
como nas manhãs de maré baixa.
Queria ser tua furiosamente,
debater-me nos teus rochedos laminosos
e desfazer-me em espuma branca.
Queria ser una contigo,
numa entrega de perpétua maresia.
Queria amar-te... como o mar.

While my guitar - um poema de mar com cidade dentro




Setembro é o bom mês dos poetas
Das pedras virgens e almas imperfeitas
Como as tramas de tecidos de linho
E as ondas nos espelhos de mar-

Os olhos em frente esticam os dedos, longamente
E misturam cabelos nos desvios de cor e sal, o pensamento
Até à pré-história dos poemas, deslizantes
Por quartos imperiais e insolúveis -

O mar é pleno, apela ao infinito
Na asa aberta que se afasta do cimento;
A robusta matéria de contornos definidos -

O sol queima o antebraço, clareia a tonalidade dos pelos
Deita-os, paralelos e submissos, adormece-os
Combina na pele a voz incisiva, insistente
Na luz e na sombra das veias -

E brilha no assentimento de sentir a mudança
A periferia azul, o líquido oceano;
Um mar maciço de imagens flutuantes
E a importância de ser diferente -

Duas torres estragaram o mês de Setembro
Lembro-me, juntaram-lhe os medos
A sepultura dos gritos; culpados, inocentes
De quê e de quem? um símbolo
Da insegura volatilidade, a vida suspensa -

A norte, o Setembro, é menos ameno
Mas por vezes 20º Celsius torna os véus suficientes;
Transparências de derme, passos breves
A superfície morna de areias impoluídas
Sem as cicatrizes de gente, sem os panos coloridos
Sem os guarda-sóis esvoaçantes em lugares pouco firmes -

Por vezes, em Setembro
O vento veste a ausência e acalma o dia
Mas os braços doem-me tanto
E a boca afunda-se, sobre o mar e o silêncio -

Os lábios fixam-se, juntos, apertados
Do lado de dentro dos dentes, como gémeos
E falam inaudíveis sobre o desejo vermelho -

E preciso dizer o teu nome ao som de uma cidade italiana -

Sobra-me a memória, falta-me o relâmpago
Mas há um pequeno brilho, o raio branco, a música alcalina
E as cordas de nylon soam gentilmente -


José Ferreira 9 Setembro 2011