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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal
















Às três horas da tarde 
do dia 24 de Dezembro 
um triste lança possibilidades ao mar 
Talvez procure companhia,  
ou um final feliz no fim da linha 
ou que se afogue 
a consoada de quezílias e hipocrisias
O mar está bravo 
a linha esticada 
mas não há bacalhau 
no mar de S. Felix
muito menos finais felizes

Teresa Almeida Pinto 
24.12.2015


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sonhos de Natal

É frio o tempo, e há que aconchegar-nos,
Agora os dias são de vento anunciador –
E haja o que houver, a ternura que circula
No sangue do amor vai trazer de volta
Sonhos e calor – e a Mãe sorrindo já foi
Para a cozinha, e no balcão, fervido o leite, o óleo,
A casca de limão e o sal fino, juntou-lhe a farinha
E amassou-a com as mãos de afetos, e o coração
Alegre esperou pela massa a arrefecer. Juntou, depois,
Os ovos, um a um, como aos filhos da sagrada união.
O calor do amor subiu, e as colheradas de massa muito fina
Fizeram-se nuvens bem douradas, polvilhadas com açúcar
Em pó e com canela – ouro de estrelas muito belas a piscar.
O brilho dos olhares e os sorrisos invadiram, então, a casa toda
(Ah o bem-estar que vem de dentro desta dulcíssima memória!) –

O vento do Natal faz circular o cheiro quente dos sonhos a frigir
Nos corações, uma espécie de música que toca o verbo amar –


José Almeida da Silva, 2014.12.20

Poema de Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

domingo, 22 de dezembro de 2013

História Antiga



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga