quinta-feira, 31 de julho de 2014

Carta a minha filha - Um poema de Ana Luísa Amaral

imagem daqui

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)' daqui

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um poema inédito de José Nuno Magalhães


Magritte The Village of the Mind 1926

A morte perscruta-me.
Sôfrego, o pensamento enquista-se nas
câmaras cardíacas, arqueia multiforme nos varandins da loucura.
Mãe, não soube salvar-me,
mas poderei ainda morrer no regaço
onde, inteira, se confabulou luminosamente toda a minha existência?

A morte perscruta-me.
O medo adestra-me centrifugamente,
nuclear, placentário,
e demoro minhas mãos venosas e trémulas
sobre os olhos.
Penso. Amanheço dolente,
inundo as divisões da casa, escorro nas
suas calhas.
Primaveris, o canteiros aguardam extasiar-se
nas flores que não plantei e
eu esmoreço por não saber dizer-lhes
que achei absurda a eternidade e longínquo
demais o fim das estações.

A morte perscruta-me.
Hálitos antigos pernoitam-me a boca e um
sorriso desponta frágil e amorfo
sussurrando improváveis palavras de amor
que disse por pensar tê-las pensado.

A ria enche-se de barcas sobre a profusa melancolia. Eu sei: a morte perscruta-me
e nada que eu possa nomear alicerçou as minhas pontes.

José Nuno Magalhães

p.s. Este excelente poema foi-me enviado pela nossa colega Auxília a quem muito agradeço a partilha

sábado, 5 de julho de 2014

Amor em vias de extinção

Oh! os ecológicos e ah! os conscientes
Louvores aos que pensam nos filhos e no futuro
Isso, icem
bandeiras por um mundo melhor
Um melhor do mundo a mais de azul e quase nada químico
E a água aproveitadinha gota-a-gota
e os recursos
Reciclados
Tudo limpo e as focas assépticas e bonitas, de pêlo luzidio

e enquanto isso

Milhões de corações solitários bombeiam disciplinadamente um sangue que não corre por ninguém
Milhões de peles intocadas jazem à espera de uma mão que as contorne
Milhões de lábios selam bocas que não sabem o/a beijo

Impiedosos ambientalistas que não se lembram, dos desperdícios humanos, do desejo, do toque,
do amor em vias de extinção