
segunda-feira, 8 de junho de 2009
para quê enviar-te uma carta
Para quê enviar-te uma carta se estás aqui ao meu lado, para quê.
Porque não me quero ouvir declamar as falas de um discurso
decorado em antemão, decorado, que já não sinto
sequer, mas tenho que to ler em sílabas completas
sem o choro dos passados partilhados.
E naqueles tons eu vou deixar-me aceso em lenta vida,
em lenta vida naqueles tons monocórdicos aos quais me rendi
sem a tua presença radiante. Para quê enviar-te uma carta.
Talvez me sinta mais homem. Talvez. Aquelas palavras brutas
e animalescas que te chamo nas ideias estão lá, aquelas palavras
únicas que eu não digo porque te ferem, frágil que és, te ferem
até à medula do teu ego. Sentir-me-ia mais homem porque
não te teria de olhar nos olhos. E olhar-te dói.
Dói-me ao respirar-te, ao ouvir-te falar, ao chegar-me a ti
e saber que não te posso encharcar de amor, dói.
David Campos Correia
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Voz Só
Aflige-me o equilíbrio do corpo, o sentido da mente,
vejo-a e sonho com paisagens primaveris e rostos
e rostos encantados.
(Ternas saudades). Despertas
pelos graves de uma doce alucinação solitária
num palco inundado pelas cores e pelas cores
e pelo magnífico som da trompete e do saxofone.
Ela ali, ali com duas pernas de pedra e peitos angélicos, uma
face vagabunda que me descompõe o raciocínio. E o teclado
que mantém o ritmo atordoado, o bater
que é mais um e mais um e mais um. E mais tantos saltos
e despejos de emoções que nos fazem viver
a excessividade de uma vida de alvoroço.
Clama, clama e silencia. Como se testando o sopro, o seu sopro.
O éter da sua vida efémera que é prodígio e se desfaz
em pequenas situações de êxtase que ela, apenas ela, enxerga.
Chora, sente. Ri, esfarela-se.
Dança o seu bailado ensaiado e decora e relembra os passos ritmados
que lhe acodem o poderoso vociferar.
A voz só que canta e canta.
E desespera no seu mundo intranquilo. Os holofotes que a difamam
e os braços erguidos que lhe suplicam, recomeça.
(Recomeça).
Como se perdida no atempado metro que ela própria criou, não
está perdida, somente maravilhada.
Aturdida.
(Bebe).
Leva à boca a sua droga amiga, tão amiga, e
a cada gole, dá mais um passo. E a cada passo, mais um erro.
Mas o público é ignorante, esquece, pede mais.
(Suplica).
Implora pela voz que o guia e o embala, implora pela voz que o seduz.
Roga pela voz só.
David Campos Correia
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
trabalho para casa - 2
É um livro de últimos desenhos,
Mil pedras feitas de marfim...
Dias, anos, como lâminas, caçadas,
Partidas e cenas, restos de imagem...
Três baleias esculpidas.
Artefacto.