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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

peco
sempre que solto o meu pensamento
e te encontro
no espaço liquido de bolha de sabao
levada no vento a toa
em purpurinas de brilho
peco
sempre que imagino o teu gosto
e te beijo
sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende
labios de carne rosada
tintos de sabor
peco
sempre que as minhas maos
desenham o teu rosto
contorno redondo e quente do amor
tatuado a ferro e fogo
no mais fundo de mim
e peco
neste lugar sem pecado
nuvem suspensa e leve
de algodao doce como tu
peco
mas nao tanto

Clara Oliveira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ementa ou o pecado da gula



hoje há…



consomê em verso ou creme de ervilhas .......................1,00€

amêijoas à chefe com molho de redondilhas ..................3,50€

rimas de cebolada (com arroz e salada) ......................12,00€

sonetos de amor com broa e batatas a murro...............13,50€

costelinhas de estrofe na brasa em legumes no esturro..12,75€

haiku de chocolate com gelado de limão .......................2,80€

mousse de manga com noz e quadras de s. joão ...........2,80€


bom apetite e volte sempre

raquel patriarca
catorze.julho.doismiledez

quinta-feira, 29 de julho de 2010

de pretender atingir a plenitude complexa das coisas da criação ou o pecado de fazer perguntas



que diabo de ideia foi esta de se fazer corresponder uma infracção

a cada desejo instintivo de prazer? o senhor é sádico, é masoquista,
ou é as duas coisas? ou então é um plagiador do pior
e sem vergonha na cara, que isto em que vivemos
não é mais que a versão descolorida do tártaro clássico onde o alvo
do desejo se nos revela e se nos escapar, onde repetimos
os mesmos erros – invariavelmente –, onde sofremos
as mesmas dores, as mesmas perdas – constantemente

e se é no livre arbítrio que explicam as ambivalências do bem
e do mal, as encruzilhadas e os caminhos percorridos de que lado
da trincheira se há-de encaixar a ideia peregrina
da criação e comércio das bulas de indulgência ou
a estratégia brilhante baseada na inércia
a que comummente se chama de regime de prescrições?
pertencem à instancia das culpas, à família alargada dos perdões?

e o inferno? ainda recebe gente ou esgotou a lotação?
talvez se reserve, nos tempos que correm, à 'nata da escumalha'
sendo que o resto de nós, pecadores impenitentes
e hereges sensaborões, se vão ficando
órfãos e desgarrados pelos tapetes do purgatório, essa espécie
de foyer para almas medíocres, que ninguém sabe explicar o que é
mas que, ainda assim, é suposto ser certo que existe

e, já agora que estamos nisto, como pode uma
simples pessoa simples
sentir o conforto e o consolo da crença no divino
e a leveza da resignação e da confiança no eterno,
quando a pedagogia da fé lhe foi ditada por uma ogra
com excesso de pêlos e escassez de escrúpulos,
que manda fazer desenhos e só distribui canetas de feltro
de cor castanha, cinzenta e preta?

foi então que senti enterrar-se-me um par de orelhas de burro
pela cabeça abaixo e, de frente para a parede, fiquei de castigo
a ouvir as horas passar. e quando,
impaciente e de dentes cerrados, balbuciei
"que diabo...”
a terra tremeu e o ribombar do trovão.
foi a última coisa que ouvi

raquel patriarca
dez.julho.doismiledez

sábado, 24 de julho de 2010

Sete Pecados de José Almeida da Silva


Hieronymous Bosch " A mesa dos sete pecados"



A exactidão do sal

Não sei falar de pecado. Sei
a angústia da norma – o prazer
do desvio doloroso.

Poetizar o pecado é reinventar
o fino fio da lâmina – consciência
da minha divina humanidade.

Por que chamar pecado ao humano
precipício da acção?

O excesso ilumina a exactidão do sal
que anima a vida.
2010.06.03
José Almeida da Silva



Pão sem fermento?

Por um pecado – não digo o nome –
Percorro quilómetros e desmarco
Compromissos da minha inadiável
Solidão. É a minha perseverança
No pecado – um prazer inexplicável.

Por uma virtude fico estático a imaginar
O futuro. Fica para amanhã o presente.
Também eu. Inexplicavelmente. É um
Doce o pecado, o lado de fora de mim,
Morando dentro, bem no fundo. De mim.

– O que seria o pão sem fermento?
2010.06.04
José Almeida da Silva




Pecado

Pensei nisso depois. Agir é tão diferente
de pensar. [Peca agora e pensa depois.
Assim se tece a teia.]

Pensar é afastar o que faz parte – nasce
assim o pecado. É assim a gramática do ser
gregário – o facto origina a norma e o desvio.

Mas enquanto o acto vai e volta, folga o prazer.
Ser humano é controverso – argila e sopro.

– A sombra é contra-luz.
2010.06.05
José Almeida da Silva




Desconcerto

O desconcerto da norma é sempre
Outro caminho por onde se caminha
Olhando o sol do bem e do prazer –
Manhã primaveril que veste o olhar
E traça o perfil da breve circunstância
Que liberta o ser do deserto da forma
E da elegância.

Não sei se é pecado mas sei que é
Humano.

– E alcança-se assim a divindade.
2010. 06.12
José Almeida da Silva








Sofrimento insuportável

A vida assim é um beco sem saída.
Sem luz e sem sentido é a morte
Arrastando os grilhões do que resta
Sem dó sem piedade sem respeito
Pela dignidade dos ainda fragmentos
De humanidade – Uma tragédia ignóbil
De amor – é assim o inútil sofrimento.

Amei-te a vida toda com um inexplicável
Medo de te perder. Não admira a minha
Estupefacção por desejar-te o fim. A ti,
O meu princípio. A vida [dizem-me] é
Um valor acima de todos os valores.
E sei disso muito bem. Respeito a vida.
Mas eu olhava-te amorosamente e não
Sabia como lidar com aquele sofrimento
Insuportável ao meu olhar, ao meu amor.

Tu sofrias tanto. A luta era tão desigual
Que eu não desejava senão a paragem
Do coração. Do sofrimento. O medo?
– Os insondáveis mistérios da alma
Sussurravam-me o pecado contra a vida.
A luta era agora desigual só dentro de mim –
Sensível à dor do amor, cruel penar,
Ou submisso à utópica metafísica da alma? –
[Aquela que me angustia o dever do amor.]

– Pecado é não amar com o coração.
2010.06.06
José Almeida da Silva




Se eu tivesse um relógio

Se eu tivesse um relógio
Abri-lo-ia para lhe ver as entranhas.

[Há horas de amor e horas de solidão e dor;
Há horas de luz e horas de sombras e elegia;
Há horas de prazer e horas de choro e luto;
Há horas de esperança e horas de amargura e morte.]
………………..

Um dia encontrei o meu relógio que eu não sabia que tinha
Mas que, disseram-me depois, me fora dado na infância.
Então abri o relógio cheio de esperança. Descobri que não tinha
Coração. Pelo menos o coração que tinha na minha infância.
[Pelo menos o que eu acreditava quando era criança.]
Sempre os ponteiros desequilibrados como os pratos da balança
Que pesa os pecados e as virtudes ou a bem-aventurança.

Olhei-o penosamente. Depois deitei fora o relógio. Não me serviria.
Não me compreenderia. Não me orientaria para lugar nenhum.

Sem coração para que serve um relógio? Não sei acertá-lo.
2010.07.01
José Almeida da Silva





Dissonância

É como um maremoto o pecado,
Só força insubmissa da argila deslumbrada,
Dissonância musical da divina humanidade,
E sopro adormecido – a luz da intensa sombra.
2010.07.12
José Almeida da Silva

quinta-feira, 22 de julho de 2010

(EN)GULA



(Es)passava passos ausentes, entre travos

e três passas.

Traziam-me espaços vazios e vontades não coerentes.

Para as desgraças,

a proporção em açúcares e colheres

de coisas quentes.


Entrei, sem alma nem pertences,

Contando pences e cascalhos de existências.

Não fosse eu segura e ciente

de sanidades e coisas semelhantes

certamente cederia à algibeira,

que em claros uivos e suspiros evidentes

chamava quem via com olhos

Mas decidia com dentes.

E que remédio teria

com tamanha gulodice?

Se as coberturas me abordam em descarada tolice?

Se os pastéis, as natas do céu

(Ámen p'ra quem as comeu)

Se os suspiros, os mil folhas,

(que para mil se vão tão cedo),

se desfazem à dentada

Num engano ledo e cego

que apetites

não deixam durar nada?

E sem mais que cortesias

"Boas noites", ou"Bons dias"

"Eram dois éclaires e duas fatias."

Mas que falta de postura,

Olhos mais do que barriga,

Eu que sem mais devaneios

Dou uma trinca mal medida,

e entre açúcar na camisa

e compota nos dois seios,

abocanho o meu pecado.

"Dizem que moras ao lado"

- entre trincas

e mais um bocado.

E sem mais do que migalhas,

e memórias de doçuras,

Se dão cabo de decências

E de linhas, e posturas.

Que enfado,

Sabe tão bem o pecado.

E Glória ao Pai, ao Filho

e ao Espírito Santo

E já nem rezo mais que comi tanto.

A árvore dos Pecados

ramdaq photography
O vento sem som.
Suave.
Sem ira, sem pressa, sem destino,
sem desfolhar o verde luxuriante da árvore.
Desliza, entre as folhas preguiçosas.

Suspensa num quase-que-cai indeciso,
uma maça vermelha, roliça e gulosa,
imagina-se Compal Ligth, em calda caseira ou saladas gourmet.
- Ah!... Quem me dera ser pêssego!
- Ah! … to be apple ou pomme de terre !
- Ah ! Que inveja!


Pelo tronco - majestoso, soberbo de si,
correm - no carreiro obediente,
formigas avarentas.
Fabricam carreiras e riquezas urgentes:
grão a grão, grão a grão, grão a grão
Muito pão.

No sopé,
ensonada, sob sete pecados mortais
Alice sonha chocolate e rimas em francês: ma mère, la mer, l'amour …

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tempos dela

Desta vez nem olhou para mim
dançava na roda
e o pescoço marcava o transe

havia Índios à volta
em sons de línguas verdes
nus da pele dela

e havia outros

autistas gelados
em danças de caça
sem pele

uma mão estava fria e a outra era inutilmente quente
e rodavam

à volta de quê - consegues ver
e lambia a mão fria

pelo fumo via-lhe os olhos
algas penduradas que arrastavam
o peso de toda a água do mundo

são iguais - dizia pelos dedos
Índios de gelo
e outros de magma que escorre
sempre envergonhado

queria avisá-la devagar
que era a luz de uma só perna
e milhões de braços dados
e o frio de dedos
não mortos mas de medos

sabia de hoje
de algas leves virtuais
e amores a monitores
gelados

e ouvia entre tambores

- nunca houve outros

fenda original

de um chão imenso interno
a um quarto branco sem sombra
escolho um ponto igual

dou um passo

o tempo quer dobrar-se entre nós
e escorre-me pelo corpo em algas macias
o espaço quer expandir devagar
para entrar distraído na minha velocidade

e mesmo que se prenda ali na metade
da metade da metade do que já percorri

chego lá

escolho o passo
como o fotão escolheu a fenda
para te seduzir

mas ele precisou que o tocasses primeiro
e eu não quero colapsar o mundo
à probabilidade de uma fenda

quero um passo lento
e o gozo de o escolher
bem aberto

escolho-o livre assim
para te chegar
mas ele repete
repete todos os outros

até ao passo original