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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Indo eu

sabes lá
ontem ali em s.bento
andava eu descalça pela estação
vi uma patela e meto-lha a pata
e assim que me curvo, a olhar para o chão
uma cega mete-me a bengala no joanete
e ai meu amor, que dor!

dez pulos a pé coxinho
e lá me sentei num banquinho

e sabes lá, meu amor
a patela nem era chocolate
aquilo era uma sola de borracha

fiquei ali sentada
e o tipo gordo da cicatriz,
o da tatuagem, esquisito
mete conversa:

Englise? Francé?
Dancé?
indeu indo eu
a caminho debeseu
indeu indo eu
a caminho debeseu

e antes do: ai jesus que lá vou eu
lavanta-se, dá duas voltas
e cai morto

e vem a policia
pergunta o que foi
e que eu não posso andar descalça
e eu digo que é do joanete
e levo um raspanete
e raspo-me dali

e vou a subir a 31
vem o gajo dos relógios:
Chocolate? Chocolate?
E comprei

desculpa amor
depois do azar, não pensei...
e tinha o pé a doer
devolvo-te os 20 p´ra semana
a sério!
o gajo já não me engana

quinta-feira, 10 de março de 2011

Devagar

sono sonho d'aguarela parda
a boca fria tropical desmaia
amarela

farsa valsa
a pé dormente
ali

enrola a língua
o pulso fraco
numa volta em nó
o verme
valsa

quarta-feira, 9 de março de 2011

Soninho

Teve uma vez o sono um soninho tão terrivelmente feio
que nenhuma ama o amava tanto quanto podia
nem o pai tanto quanto queria
e veio o feio sem mãe
e não o amava ninguém

Fez-se o soninho sono ruim
muito desacordado com tudo
fecha os olhos à boa gente
e deixa tudo mudo

Poema de embalar

Para adormecer o sono como
chocolates regina morango after eight
bebo finos
sonhos docinhos
meninas meninos
travesseiros tortas de azeitão
como nuvens
sombras de sono
sombrinhas de chocolate regina
à noite
de novo
garfadas de algodão
borregos
barrigas
umbigos
bagos
torradinhos de mel
torradinhas de malmequer
e margaridas saladas
delícias do mar morto

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Atrasada mental


16 e 48 - já não apanho o comboio
45 segundos, 46 passos de passada larga ou um desatar a correr depois do café na subida
e chegava

18 e 33 - o comboio descarrilou
45 segundos, 46 passos de passada larga ou um desatar a correr depois do café na subida
e partia


Fui até ao café antes da subida beber um chá
Pedi verde
Serviu preto
E eu fiquei a pensar num título para um poema

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Espantalho

O espantalho voou com os pássaros e enjoado em diagonal - braços em cruz
larga vómito lagarta papoila
daquelas muito vermelhas e com pinta
gota a gota
torto da boca
ácida indisposição
que fertiliza
a palha espalhada
em espantosa desintegração

Que desplante!

Ana Janeiro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Haiku da musa

Haiku caraças
A caneta não escreve


Ana Janeiro

Haiku

Línguas de comer cruas
Como hóstias
Ou ostras

Ana Janeiro

Disinspiração constipação

Musa inspira-me
Está ali a máscara de oxigénio
A droga ao lado
Injecta-me com a caneta bico de esfera oval
A tinta azul, verde e o tinto

Já me sinto
Melhor

Querida musa
Perdoa as tosses
Agradeço os cuidados

Prepara agora o papel e diz aos poetas
desesperados no passeio do vale:

Sucumbiu a larva na taça de arroz em tempo de
comer a língua para matar a fome e
uma dor de estômago a pico de cacto na
barriga descalça subiu
cozida a vapor

Digo aos poetas no passeio de pedra sentados ou aos que se passeiam?

Sei lá Musa, na verdade estou hoje tão desinspirado como constipado.
Que se plagiem uns aos outros, como eu os plagiei!

Ana Janeiro

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A oferenda de Caim

Deus Meu todo guloso!
A gula é pecado

Não gostas da salada, já se sabe
Pões de lado o puré e o feijão
E só comes o frade

Estás GORDO, meu Deus!

Um GORDO todo guloso
Não te ensinou teu pai que a gula é pecado?
Santa a tua mãe de te aturar tanto capricho...

Ai, meu Deus...
Não te bastou o bezerro
E queres de Abel as tenras nádegas

limpas
cortadas
apimentadas

Matei-o já! Meu Deus
Aqui tens o meu irmão

Abel marinado
Limão na boca e mal assado

Comaperna
Sugalhosso
Trincalholho
Roipescoço
As nádegas de boca cheia
Menhã, menhã até de manhã

Limpa a boca e coça o papo

E meu Deus, por favor!
Tira ao Chefe o chapéu
Agradece e diz
Adeus
Não tens mais de cozinhar
Parte para Leste
E dá a Buda teus vegetais

Eu te agradeço, meu Deus!

(Ana Janeiro)