sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Oh as casas as casas as casas


fotografia daqui

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo   lido aqui

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

outros dias























penso em todas as diferenças: as do género e as outras
 a luz de uma manhã  sumindo sombras
 os versos escritos nos espelhos  de um rio
os remos guardados dentro de um barco magnífico
o ruído dos pássaros
e o silêncio nas margens sem indícios –

outros dias –


josé ferreira 25 fevereiro 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Arco-íris


Deem-me um Arco-íris para caminhar
Para o lado de Lá de mim,
Essa Música que me embala e me deslumbra,
Lugar onde talvez faça sentido a Vida –
Só Aí a opacidade do meu ser
Será a transparência que me busco –
[De onde venho e para onde vou, afinal?
Aqui o mal é viver enredado na vertigem triste.]
Atravessarei a Ponte e a estreita Escada
De cores indeléveis que tecem o Arco-íris?
Quem sabe? Encontrarei Nele a minha essência?
Sei bem a solidão da angústia que habitou Emily –

A Poesia é sempre da escada a balaustrada
Sobre o qual se debruça o meu olhar –
2014.02.24

José Almeida da Silva

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Correntes d'Escritas 2014


 Isabel Pires de Lima, Ana Luísa Amaral e Golgona Anghel
Revista em homenagem a Maria Teresa Horta
 
José Almeida da Silva
 Manuel Jorge Marmelo prémio Correntes d'Escritas 2014





Não é para nos gabar, ou se calhar é, mas O nosso MAR que PARECE AZEITE esteve presente nas Correntes d'Escritas, que decorreu na Póvoa de Varzim - esse maravilhoso buraco do mundo - entre os dias 19 e 22 de Fevereiro.
Antes de mais, estivemos presentes na pessoa da nossa mentora, a poetisa Ana Luísa Amaral que, apesar da enorme constipação que levou consigo, fez duas magníficas intervenções. A primeira sobre Maria Teresa Horta, homenageada nesta edição das Correntes, e a segunda, na Mesa 4 com o tema “De correntes e cont(r)a-correntes se faz a Poesia”.
Foi por esta altura que ouvi a Ana Luísa dizer o nosso nome, depois de afirmar que a poesia se move em espaços que não podem ser controlados nem confinados, que escapam sempre à lógica habitual da linguagem e da vida biográfica, e que a poesia é verdade, no sentido de estar aberta para o ser, (e estou a citar mais ou menos livremente que é difícil tomar notas quando a cabeça só está importada em escutar e perder-se no que escuta), foi por essa altura, contava eu, que a Ana Luísa falou em e nós. Por sermos elos de uma corrente de pessoas presas umas às outras, sem razão nem lógica a não ser por essa outra corrente que é a poesia.
A correnteza dO MAR que PARECE AZEITE já arrasta muita gente e agradece a todos e, sobretudo, à Ansa Luísa que, sem razão nem lógica, nos reuniu e mantem juntos.

Raquel Patriarca
vinteequatro.fevereiro.doismilecatorze

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ítaca


Quando começares a tua viagem para Ítaca,
reza para que o caminho seja longo,
cheio de aventura e de conhecimento.
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon:
Nunca os encontrarás no teu caminho
enquanto mantiveres o teu espírito elevado,
enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo.
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
a não ser que os tragas contigo dentro da tua alma,
a não ser que a tua alma os crie em frente a ti.
Deseja que o caminho seja bem longo
para que haja muitas manhãs de verão em que,
com quanto prazer, com tanta alegria,
entres em portos que vês pela primeira vez;
Para que possas parar em postos de comércio fenícios
para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar,
e perfumes sensuais de todos os tipos -
tantos quantos puderes encontrar;
e para que possas visitar muitas cidades egípcias
e aprender e continuar sempre a aprender com os seus escolares.
Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem.
Será melhor que ela dure muitos anos
para que sejas velho quando chegares à ilha,
rico com tudo o que encontraste no caminho,
sem esperares que Ítaca te traga riquezas.
Ítaca deu-te a tua bela viagem.
Sem ela não terias sequer partido.
Não tem mais nada a dar-te.
E, sábio como te terás tornado,
tão cheio de sabedoria e experiência,
já terás percebido, à chegada, o que significa uma Ítaca.

Konstantinos Kaváfis (trad. Jorge de Sena)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Uma Carta Para Emily Dickinson



Porto, 30 de janeiro de 2014



Minha querida Emily,



Sei que me esperavas por estes dias, mas não posso ir como

prometi. Não estou bem, tenho acordado sem alma e sem ânimo, os

médicos não sabem o que tenho e de verdade

que não me podem ajudar porque estou doente nas palavras,



Sinto que já não sei como escrever.



Tenho tempo e papéis e lápis mas não sei como escrever.

A chuva e o inverno já me são insuportáveis. A humidade ensopa os

cadernos, amolece os papéis e faz enrolar os cantos das fichas de cartão

em que vou catalogando as coisas do mundo para as escrever depois. Mas depois

olho para todas aquelas pequenas notas de vida e não as consigo escrever.



Persegue-me um querer que não consegue. 



Tenho alimentado o gato, feito a sopa, tratado das roupas, mantido as coisas nos lugares.

Respiro todas as pequenas ternuras e suporto tudo o resto.

Faço amor, faço as compras, faço as camas,

faço parte do mundo e faço de conta que compreendo as pessoas.

Sorrio compostamente, digo que pois que sim, às vezes encolho os ombros também,

mas evito ter muito que dizer.



Enche-me o silêncio e o enfado. Sobretudo enfado.



O mundo invade-me todos os dias e não consigo

fechar-lhe as portas. Falta-me a planície e o isolamento. Falta-me –

sobretudo – a determinação, e trago-me como numa pausa permanente, tão separada

de tudo. Imagino-te desiludida comigo. Assim sentada e muito quieta, com os olhos

serenos, que te ficaram para sempre na fotografia a preto e branco que guardo nos teus poemas.

Assim sentada e condescendente a ouvir todas as pequenezas de que te falo.



Às vezes quero ser mais como tu.



Tu que escreves com a consistência que eu só posso reconhecer na chuva

que me ensopa os papéis e os cabelos, sem compromissos e sem concessões,

podes - por favor - ensinar-me o ofício de escritor,

Diz-me ao menos se também tiveste vontade de descompor tudo.

De arrancar as cortinas só para as ver rasgadas e caídas no chão

a ganhar pó e pelos de gato. Uma fúria de empurrar para cima de qualquer outra coisa

a falta de sustento que vem e invade tudo. A dúvida e o medo de se poder cair assim

 - desprendidamente - como a cortina a quem se lhe partiu o varão.



E é que tenho mesmo que escrever,

Emily.



Sinto que não sei escrever, mas na verdade não sei fazer mais nada.

Sem escrever não tenho, simplesmente, para onde ir e estou assim,

estupidamente incapaz. E o mal não é do inverno ou da chuva ou

da humidade. O mal sou eu, compreendes.

Todos os dias, entre as muitas coisas de que faço planos, e as

poucas que enganadamente se cumprem, vou mentindo uma,

e outra, e outra vez ainda. Ao mundo e a mim, sobre o desgoverno

que faço do tempo e que não tem remissão. Do tempo e do papel e

dos lápis, que se me confiam sem perguntas e sem reservas, porque nada

sabem da realidade e do mau uso que lhes dou.



Vou contando os dias a tresmalhar-se.



E não sei o que fazer da solidão que me entra em casa e

se acomoda para ficar, como se ela própria tivesse medo de estar sozinha.

Queria visitar-te, Emily, a sério que sim. Falar contigo com vagar e

ouvir-te sem medo e em paz com o que espero de mim,

sentar-me na tua frente que é como se fosse na minha frente.

Um dia de paz, finalmente.





Raquel Patriarca

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nostalgia do presente - um poema de Jorge Luis Borges


imagem daqui

Naquele preciso momento o homem disse: 
«O que eu daria pela felicidade 
de estar ao teu lado na Islândia 
sob o grande dia imóvel 
e de repartir o agora 
como se reparte a música 
ou o sabor de um fruto.» 
Naquele preciso momento 
o homem estava junto dela na Islândia. 

Jorge Luis Borges, in "A Cifra" lido aqui
Tradução de Fernando Pinto do Amaral 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

jardins adormecidos

Boticelli " Alegoria da Primavera"

as árvores são singulares sem exclusão alguma
folhas, flores e frutos
como as últimas tangerinas num jardim adormecido
como as camélias rubras resistindo à chuva
como as primeiras folhas da glícínia 
anunciando aromas, subindo das raízes e atingindo a luz
na primavera por chegar –


os silêncios do Inverno falam dentro de nós
propagam o som de muitas palavras nas abóbadas da catedral
nas múltiplas cores dos vitrais, no imaginário das imagens
que crescem, crescem, crescem
para se transformarem em pó 
e nascerem de novo 
como atitude natural  –

os jardins adormecidos podem acordar –

josé ferreira 15 fevereiro 2014


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Emily

Nas páginas brancas
 - A paixão
E fora a solidão

Nas páginas brancas
 - Sopra o vento em fúria e a possessão
E fora a solidão

Do outro lado
Depois do mar: um poema
Nas páginas brancas
 - A possibilidade -
E fora a solidão


Elza Gouveia Durão (Pi)

Porto, 30 de Janeiro de 2014

apenas

imagem daqui


hoje não vou falar das filigranas do passado
nem dos nevoeiros das manhãs pesadas
apenas te trago o poder do girassol
que segue a lúcida luz

mesmo de olhos fechados –

josé ferreira 12 fevereiro 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

III ou Soneto a Ferros




Quero muito ser alegre e feliz.
Mas como, se não pára de chover,
Nas notícias que já nem posso ver
Toda_a estupidez que já ninguém diz

E entre_as tarefas que_eu hoje fiz
Nada encontro que possa merecer
O papel que vou estragando_a escrever
Palavras sem flor, tronco ou raiz.

A insónia que vem na madrugada,
O_impossível naquilo que prometo,
A chuva que cai e_a roupa molhada,

A rima, mais a quadra e o terceto,
Nesta coisa feia e desalinhada,
Tudo me faz mais triste que_o soneto.


Raquel Patriarca
trinta.janeiro.doismilecatorze