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sábado, 12 de março de 2011

Palimpsesto



Palimpsesto

-------------------------------------------------2001: Odisseia no Espaço



Ilumina-se o espelho do meu espírito –
Reflecte fantásticos momentos e o meu
Extasiado olhar – ao fundo o mar
Onde bailam paisagens distraídas e eu
Tranquilo e só nas húmidas areias;
Voam gaivotas beijando as águas ávidas
De pão que apazigua a fome
E a aventura –

De súbito as ondas são fogo a deslizar
Em direcção à praia
Deixando para trás as tintas que desmaiam
Amalgamando-se nas águas lá longe na linha
Do horizonte.
Incapaz de me mexer, fico aflito e preso
À beleza aterradora – o medo imobiliza,
Lugar armadilhado –

E fugir não é remédio, movo-me apenas dentro
Da vontade atada, e o fogo cresce e desaparece
O mar – um grito é o bastante para estilhaçar
O espelho –

Do sono criador – soube-o depois – ergue-se
O palimpsesto –


2011.01.13
José Almeida da Silva

sexta-feira, 11 de março de 2011

A carta de Paris


josé ferreira

neste café de Paris escrevo-te o ainda princípio
perdida nos signos de uma nova língua
ao som de Tiersen. um acordeão. uma camisa.
na vista do boulevard a transparência intermitente
de desconhecidos passos e ruídos. o burburinho.
na ópera anunciam Aída e penso ainda em Antígona.

“- madame? - café au lait s’il vous plaît et un croque monsieur.”

escrevo-te nas folhas picotadas do bloco preto
o acordeão toca. a música plana.
dispo o casaco. separo da casa o primeiro botão da camisa.
entra um ar frio. arrefeço.
em Orly perdi as nuvens habitadas de um espaço imenso
onde sempre me imagino sentada numa asa
segurando a saia de cabelos ao vento
os pés descalços e frescos.
loucura. loucura consciente.
abstracção inefável. a leveza insustentável.
escrevo-te e descrevo-te os primeiros lugares da ausência
o silêncio que lamento. escrevo-te enquanto espero
os vapores e aromas de uma chávena quente.
escrevo-te.
fecho os olhos e parece que te vejo.
acenando. uma das malas pequenas. um barco.
acostando. junto à ponte de Neptuno. do tridente.
nas escadas sorridentes do cais. na margem do Sena.
lamento. lamento a ausência. os seis meses de distância.
escrevo-te. escrevo-te no momento antecedente
de rodar em círculos na espuma fumegante
a valsa doce em dissolução.
aqueço. a música. o acordeão. Tiersen.
o primeiro botão da camisa -

Amélie -
Leva a luz todas as cores
e o sono todos os dias.

Traz o sono
a qualquer lugar.
Onde não sei como
se adivinha.

Exilada

Hoje, noutros agasalhos
não traz quase nada, o frio.
à espera do despontar
da flor de urge, a borboleta.

aqui longe a imaginar
pode o vento que junta
separar as nuvens

ninguém nota, inversão
e receio, até quando deixa
escorrer de mel, se e se
não chega mais flor.

vê, o escorrer das gotas
no vidro, só ainda não choveu.
nas ruínas da ponte
já não importa se é raro!

A carta de Amélie


josé ferreira

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
nas pontas dos dedos os restos da notícia.
partiste.
escureceu o dia na caligrafia azul das palavras.
a assinatura única. a última carta.
silêncio.
o sono profundo do sonho.

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
um campo de papoilas vermelhas
não é costume na cidade.
não há glícinias.
as magnólias exibem a inexistência de folhas.
o jardim permanece inerte no sossego dos gatos.
a carta. a carta um fogo aceso de palavras.
mas não existes. não és realidade.

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
os olhos são quadrados. um quadro de Picasso.
as cores oscilam num caleidoscópio azul lilás.
imagens tremidas nas pontas agudas dos ângulos.
partiste.
relâmpagos de tontura.
seis meses de distância Amélie.
o perfume das letras e o quadro de Monet
são um refúgio frágil do desejo.

conto os dias -

José Ferreira 10 Março 2011

dor

dói-me o sono.
dói-me o estar acordada.

custam-me as palavras
transparentes
em desalinhos de nada.

custa-me a página vazia
densa e opaca
na vigília da madrugada.

raquel patriarca | dois.fevereiro.doismileonze

quinta-feira, 10 de março de 2011

Devagar

sono sonho d'aguarela parda
a boca fria tropical desmaia
amarela

farsa valsa
a pé dormente
ali

enrola a língua
o pulso fraco
numa volta em nó
o verme
valsa

quarta-feira, 9 de março de 2011

Soninho

Teve uma vez o sono um soninho tão terrivelmente feio
que nenhuma ama o amava tanto quanto podia
nem o pai tanto quanto queria
e veio o feio sem mãe
e não o amava ninguém

Fez-se o soninho sono ruim
muito desacordado com tudo
fecha os olhos à boa gente
e deixa tudo mudo

Poema de embalar

Para adormecer o sono como
chocolates regina morango after eight
bebo finos
sonhos docinhos
meninas meninos
travesseiros tortas de azeitão
como nuvens
sombras de sono
sombrinhas de chocolate regina
à noite
de novo
garfadas de algodão
borregos
barrigas
umbigos
bagos
torradinhos de mel
torradinhas de malmequer
e margaridas saladas
delícias do mar morto