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domingo, 19 de outubro de 2008

O meu poeta

Como eu queria, imenso mar
que fosses o meu poeta
á noitinha te albergar
na minha casa, reles coração
roubar tuas silabas, teus sonetos
à laia de ladrãozinho
de pé descalço, maltrapilho
de ti
centelha e poente em mim
habitar o teu lugar
reter em meus devaneios
tão agre-doce fluido
como eu queria
mar, imenso mar

Eugénia Ascensão

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"O mar no seu lugar por um relâmpago"


fotógrafo: Peter Wilson


Cortas como um relâmpago
O desejo húmido de ti
Cravas no teu corpo
Rastos de pele salgada
De pequenas partículas de mim
E nesse momento em que tomas
Ouço invadindo o arrepio preso
Palavras…
Palavras que sangram
Da doce rebentação
Ecoando a uníssono
O relâmpago do mar.


filinta

Atenção! Mera opinião.

A percepção visual do “idiota”, revela uma original similitude entre mar e azeite. Pode abrir caminhos… Se pensar que “azeite” não é só cor, é também estado, lenta fluidez que esperamos que também atinja o tempo que nos resta.
Com Nava, “O mar” parte para o “Universo Sublime”, ou quase, ou talvez nem parta para aí. Se parte, parte com a radicalidade e complexidade de uma violenta beleza. Pede, exige (porque é imperativo) a substituição do mar “por um relâmpago”, rápido fenómeno que surpreende, assusta e deslumbra. Transfigura a quietude do mar em revolto e ensurdecedor clarão. Incrivelmente subtil, grandioso, um só mar, um só relâmpago, lhe basta ao Nava, me basta também a mim! Ao substituir o mar–água pelo relâmpago-nuvem, luz de nuvem de água, a luz pode ser “muito”, criação e destruição, despertar e perda. Talvez nem haja dualidade, sendo a luz transformação.
Gosto do clarão, como gosto da tempestade, mar que é serra, ondas que são montes. Eu não substituiria nada. “O mar”, espelho distorcido do céu carregado, negro, recebe a energia do relâmpago. Ele ofusca meus olhos, arranca meu coração, paralisa minha mente, mas quando recupero o folgo, digo, estou viva!
Nota: Alguém disse, a vida é tão bela que corremos o risco de não ver essa mesma beleza. E uma outra pensa, se não se conhece a escuridão, como poderíamos identificar a luz. Imaginá-la não seria igual, pois não?! Experimente com alguém fechar-se numa sala, correr as persianas até a obscuridade completa, espere alguns segundos, abra muito pouco uma das persianas, pergunte ao outro o que vê, o outro responderá, um raio de sol, pergunte porquê vê a luz, esse outro revelará, porque estava escuro! Simples, não é!
(3ºTrabalho de casa)
Anabela Couto Brasinha
«A poesia começa quando um idiota diz a propósito do mar, parece azeite.»
Cesare Pavese
«O mar, no seu lugar pôr um relâmpago.»
Luís Miguel Nava


1.
Corri para a beira-mar
Para te ver,
A noite era só luz cruzando o ar.

Há relâmpagos que valem um amor
de flor e sal
E o mar que fica a arder dentro de nós.

O mar assim é o lugar onde habita
O infinito todo
Para te amar.

2.
Subi extasiado ao pico de uma onda,
Toquei com a minha mão a luz fervente
E senti a alma pura de repente.

Como o mar que eu alcanço e em que danço
Assim o relâmpago, o azeite, a verdade, meu amor –
Aceso corpo da tempestade e da bonança.

E não sei se sou capaz da felicidade que este mar
De amor assim me anuncia, passada a preclara tempestade,
Mas seria feliz, eu creio. Por um dia ou pela eternidade.
2008.10.12
José Almeida da Silva

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

3º TPC

Um relâmpago em descarga de luz
acenando em festa, fogo de artifício,
choque de electrões, positrões e uns quarks,
rebuscados palavrões de técnicas, brincadeiras
de ciências nas tentativas vãs de tudo resumir a
simples definições!

E nós gelatina de emoções, infímos pontos findos
na escala dos valores eléctricos; choques de medos
abraçados nas esperanças da nossa vez adiados, sendo
outros os afectados quando chegam os trovões ribombantes
possessivos de amanhãs, determinantes, condutores de destinos!

E nós neutrões, sem o poder magnético das previsões,
num valor de escala mínima nos seres vivos mais sensíveis!

E nós forrados de penas, sem asas, na revolta dos ares divinos
em câmbios reflexos nas águas iluminadas, infantes pequenos e deslumbrados!

E nós milhões de seres ufanos de haveres,micros do Cosmos de magnitude
transmudados na similitude de uma refracção de estados, partindo vidas,
quebrando almas,
num namoro de auroras, ruídos fortes;
crescendo vida
quando relâmpagos
abrem os mares!

Exercício 3

A poesia começa quando um sábio coloca no lugar do mar um relâmpago ou simplesmente quando um idiota diz que o mar parece azeite - a poiesis estendida nos versos dos poetas como um fio grosso e firme de mar. Em poucas palavras estão enunciadas as artes poéticas de Pavese e de Nava (refira-se que o poema do último se intitula “Ars poetica”). E se os enunciados se arriscam a diluir-se por tão aparentemente breves ou ligeiros, permanecem, contudo – entranham-se pela estranheza e pela inovação e cravam-se no subconsciente do leitor. Não é afinal essa a inefabilidade da poesia? Não é o poema essa descarga eléctrica, que se desenha entre nenhures e algures e habita bela e sinuosa uma inesperada onda sonora - luz indizível com corpo de melodia? Assim o é para os poetas e ensaístas que fundaram a Fundação Luís Miguel Nava. Para eles “Relâmpago” é uma espécie de sinónimo de poesia (possuem uma revista de poesia que se chama Relâmpago). Para um grupo de alunos de escrita criativa a poesia é um “mar [que] parece azeite” (possuem um blogue intitulado O mar parece azeite).
A imensidão, a pureza, a luz, a beleza, a densidade e o mistério moram no mar, no azeite e no relâmpago, ou seja, em qualquer processo criativo. Poetas, plantem oliveiras, semeiem temporais e vigiem o mar.
Como hei-de regressar e buscar o mar e nao encontrá-lo?
A surpresa fingida...Nao dei por nada e levaram o mar ?
E quem autorizou e até quando e para quê ?Em que reuniao? Com quem foi decidido?
Ou voltará talvez balde a balde quando acabar a luz e o trovao do relâmpago se esgote ?

Ángeles Sanz

O mar no seu lugar pôr um relâmpago

Cesare Pavese usou a expressão " O mar parece azeite" e Luís Miguel Nava escreveu o verso "O mar no seu lugar pôr um relâmpago".
São duas frases poéticas, a propósito das quais vou permitir-me divagar, com singeleza e humildade, porque a Poesia, no verdadeiro sentido da palavra, não habita em mim! Não sou poeta! Não é poeta quem quer, ou quem escreve muito, mas quem, como se fora um deus, tem essa chama mágica, esse dom precioso, dentro de si!
O poeta escolhe as palavras, brinca com elas, junta-as, separa-as, mistura-as, a seu gosto e nascem frases assim. como aquelas duas.
O mar, a mim, nunca me pareceu viscoso como o azeite, mas, talvez deslumbrante, como uma cascata luminosa, translúcida de espuma, encantador como um rebanho de carneirinhos brancos e azuis ou, aterrador como um abismo negro, insondável, medonho, em noite de temporal!
Eu nunca pensaria substituir o mar por nada, talvez porque o mar sempre fez parte da minha vida e tenho, por essa massa líquida, imensa e magnífica, com cheiro a sal e a algas, uma atracção irresistível!
Mas, se o fizesse, porque não substituí-lo por um vasto campo de miosótis, pequeninos e azuis, onde eu pudesse dançar descalça, ao som de uma melodia fantástica e única, que o mar tivesse composto e tocasse, onde quer que estivesse, só para mim?
Falando de criação poética, muitos poemas, partindo da fixação descritiva de um determinado aspecto da realidade exterior - a paisagem, o céu, o mar, as flores, os animais - desenvolvem-se num lirismo puro, através da análise de vivências, (experiências), sentimentos, emoções e ideias.
Fernando Pessoa, ortónimo, num dos seus belíssimos poemas sobre a impossibilidade de compatibilização entre o pensar e o sentir, (a dor de pensar), observa o gato que saltita na rua e "pegando" nele, segreda-nos, baixinho, essa dor que o consome:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Há na escrita poética uma abolição de espaço e de tempo, uma libertação do real e, sempre presente, o anseio do poeta tocar o infinito, o inefável, o indefinível e transcender-se, transcendendo, assim, a realidade.
Nesse sentido, a sintaxe rigorosa dissolve-se pois, a poesia tendendo para a musicalidade, para o ritmo, não pode ser espartilhada por regras, sejam elas quais forem!
A este respeito, Fernando Pessoa afirma: "A arte que se faz com a ideia, e portanto com a palavra tem duas formas - a poesia e a prosa.... Poesia e prosa não se distinguem, pois, senão pelo ritmo. O ritmo corresponde, é certo, a um movimento íntimo da alma ..."
No texto lírico, poético não existe uma história para contar, não é uma narrativa, nem o poeta pretende despertar, no leitor, o desejo de saber como vai acabar o poema.
Como Gomes Ferreira, singelamente, nos confessa, neste extracto de um bonito poema:

" Que bom não saber como um poema acaba!
(...nem que sol segreda
O fio de baba
dos bichos-da-seda).

Apenas palavras que se buscam no papel
Com astros dentro famintas de encontrar."

O carácter não narrativo e não discursivista do texto lírico acentuou-se sobretudo com o movimento literário - o simbolismo.
A Poesia simbolista é uma arte subjectiva e fragmentária, que, como a música sugere,
não diz!
Ao som plangente do seu "Violoncelo", pareceu-me sentir Camilo Pessanha guardar, num suspiro triste, pesado de lágrimas, a sua profunda mágoa e o seu aterrado espanto pela perfeita actualidade do seu poema, datado do fim do século XIX, no País, decadente, quase em ruptura, em que hoje vivemos! Ou, será: em que hoje temos de sobreviver?
Pois, como escreveu José Augusto Saraiva, "...das arcadas do violoncelo emerge um choro convulsivo, que é justamente uma elegia pela pátria amortalhada... este poema, de 1900, é um requiem por Portugal...,na curva mais funda da sua decadência".
Neste belíssimo poema, Pessanha recorda-nos a simbologia da passagem das águas do rio e o som choroso, nostálgico do violoncelo!

Violoncelo

Chorai arcadas,
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos os arcos...
Por baixo passam,
se despedaçam,
No rio, os barcos,

Fundas soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas(ouçam)!
se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas, do violoncelo.

Contudo, para se escrever um poema, tem de se ter experiência, lembranças que se esqueceram mas, que retornam, cristalizadas em nós. O poema não é só sentimento, emoção! É trabalho, aperfeiçoamento e busca.
Como Rainer Maria Rilka afirma num texto admirável e muito belo: " ...Ah, os poemas são tão pouca coisa quando os escrevemos cedo. Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida...Pois os versos não são só sentimento (esses têm-se cedo que baste),- são experiências. Por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã...Tem de se ter lembranças de muitas noites de amor..., de gritos de trabalhos de parto e de mulheres que dão à luz, leves, brancas, adormecidas e se fecham....E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las... Porque as próprias recordações não são nada.Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda."

E, a propósito de duas frases poéticas "O mar parece azeite" e " O mar no seu lugar pôr um relâmpago", o que eu divaguei, os caminhos que trilhei e o que eu gostei de escrever este texto, com Pessoa, com Rilka, com Gomes Ferreira, com Camilo Pessanha, a meu lado! Tão extenso e tão incompleto...
Foi, também, privilégio meu, ter junto a mim, bem ao alcance da mão, o precioso apoio
do Professor Doutor Vitor de Aguiar e Silva, de quem tive o imenso gosto e a honra de ter sido aluna!

" O mar parece um imenso oleado, ondulante e pardo " e "O mar no seu lugar pôr incontáveis cerejeiras em flor e uma fonte´imensa de água e de luz"! Um mar só meu, muitas, muitas cerejeiras perfumadas, em flor, e uma fonte magnífica, só minhas! Para me encantar, para me libertar, para me encontrar e nunca, nunca mais me perder! De mim!

Maria Celeste Carvalho

reflexão curta

"O mar/no seu lugar pôr um relâmpago." Quem ousaria suprimir o mar por luz? Acto de loucura fugaz na troca da visão pela forma, pelo conteúdo e pela água. A insanidade do nosso pensamento é livre na sua cela. Pudesse eu ser só água e ondas nos dias de chuva e tempestade, para me revolver na luz dos relâmpagos. Mas nunca esta troca de mar por relâmpago. Jamais o fim do mar. O mar é o meu berço e o meu túmulo. É a prisão do nosso medo, da nossa fragilidade. É a liberdade do nosso sonho, da aventura de partir e quebrar barreiras. O mar somos nós todos os dias nas nossas ilhas de sentimentos e cognições. Nunca, mas nunca me ousem roubar o mar!Nem por um relâmpago!

domingo, 12 de outubro de 2008

Do mar e outras coisas...

Ao mar uns querem voltar. Depois de partir. Depois de morrer.

Outros há que já não vêem nele só conchas e coral, navios encalhados e tesoiros encantados. Ouvem o cântico suave das musas, saboreiam-lhe o sal, sentem que são lágrimas de portugal.

A alguns sabe sustentar, a outros deixa navegar, e ainda a tantos engole devagar, que se deixam afogar. No mar...

A uns parece-lhes azeite. Ou algodão doce, esse deleite, que se desfaz, como na boca, contra a areia e os seixos da praia, alisando-os.

No mar, ainda outros querem pôr trovões, e tritões. Uma arma nuclear, quem sabe, ou um castelo para baleias, golfinhos e sereias.

E outros há ainda, que nele se podendo inspirar para o poema cantar, se afastam perdidos no fundo de um abismo onde submergiram. São as atrocidades deste mundo que sucedem sem cessar. A céu aberto, como outrora, ou escondidas sob mil formas na subtileza de um véu que parece esvoaçar como a liberdade. E são os que, perante momentos tão tristes e perversos, chegam a desprezar e esquecer os seus tão amados versos. É pois então que pode parecer que a poesia fica sem sentido. Ou que só existe se gritar a ver se o mundo tantos males consegue abrandar...

Mas eu digo, enquanto eu puder ver o mar, não me importa que me digam se tem baleias ou sereias, ou se as suas ondas são feitas do sangue que escorre das lutas entre troianos e aqueus, e mais um outro qualquer deus. Enquanto eu puder ver o mar, vou sempre sonhar. E posso não saber escrever, mas desenho na minha mente esses versos, a poesia. Que hei de largar nas ondas, quem sabe, um dia.

Elza

O lado oculto das coisas

Alguma falta de tempo à qual se acrescentam trabalho q.b. e uma “pitada” de intranquilidade levam-me a cumprir com este novo desafio da Ana Luísa, de uma forma facilitada.
A leitura do texto de Saramago, que transcrevo a seguir, forneceu-me a solução para o «trabalho de casa».
“o olho humano escondido”! É isso! A poesia acontece como a escuridão acontece – “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”.
E não é também Garcia Lorca que diz “Todas as coisas têm o seu mistério. E a poesia é o mistério de todas as coisas.”?

O outro lado
Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

Outubro 7, 2008, 10:26 pm, O Caderno de Saramago.

O Mar - Analogia Dramática

A propósito do verso " O mar, em seu lugar... pôr um relâmpago"


Oh mar que és tão leviano,
que na areia te deleitas,
outras vezes tigre, desumano,
orgias de horror não rejeitas.

Usas a morte como amante,
acalmando o teu desespero,
sei que és torpe, arrogante,
- porque te olham com esmero?

Tens encanto, és magnificente,
e tão soturno ficas ao luar,
estímulo de paixão, sede de amar.

Por vezes és gélido, e maquiavélico,
temo que alguém se te compare,
se exceda, transfigure em ti, doce mar!

(APO / psd. António Luíz : "Vida - Paixão e Tormento" (2008))

O Sublime em Cesare Pavese e Luís Miguel Nava

“I dwell in possibility -
A fairer House than Prose"
–Emily Dickinson



Este exercício pretende mostrar os pontos de contacto e união entre dois excertos de textos de Cesare Pavese e Luís Miguel Nava. A frase de Pavese “A poesia começa quando um idiota diz a propósito do mar, parece azeite” manifesta uma reflexão sobre o que é de facto a poesia. Pavese serve-se do exagero e da hipérbole. A frase choca pela força do exagero, falamos de uma metáfora que exige sentido de abstracção. O sentido de novidade e de liberdade de Pavese nesta frase manifesta-se sobretudo em contestar/quebrar todos os antigos estereótipos do mar bonança/paz/tranquilidade/ serenidade/ imensidão, lugares comum recorrentes e fáceis de imaginar. É relativamente fácil colocar no mesmo verso as palavras “mar” e “imensidão”.
Pavese diz “Não é, de facto, uma descrição exacta de um mar bonançoso, mas o prazer de ter descoberto a semelhança, a exactidão de um liame misterioso, a necessidade de se gritar aos quatro ventos que de tal nos apercebemos”.
O sublime, o exagero, a ruptura e o sentido de novidade reflecte-se também em Luís Miguel Nave: “O mar / no seu lugar pôr um relâmpago”:
O “sublime” está aqui novamente presente, está em causa uma escala difícil de visualizar, mas cuja imagem é esplêndida de tão forte “o mar / no seu lugar pôr um relâmpago” – Os efeitos visuais que nos chegam são de uma grande força, a luz de um relâmpago num total abismo, um enorme clarão. O absurdo / O Gigantesco fazendo lembrar imagens míticas do Velho Testamento.
Tanto em Pavese, como em Luís Miguel Nava o sublime está presente. Nos dois autores transparece não só o sentido de ruptura, de novidade, de liberdade de espírito mas também a ideia de que nada pode ficar de fora na poesia. Tal como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.


Nuno Brito

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Acerca do Mar: Diálogo entre Luís Miguel Nava e Cesare Pavese

O mar é profundamente azul e profundamente poético. O azeite não é naturalmente poético mas pode ser, pelo menos, estético. Na sua capacidade de criação, na alquimia mágica da transformação de bagas em tempero, na arte ancestral que se faz com carinho e esmero. E se o azeite não é o alvo preferencial do lírico rabisco, devemos lembrar que é, ainda assim, um petisco. As sensações que inspira de gula, de prazer, de acabamento perfeito, invocam as pequenas subtilezas de que o ser humano é feito. O mar de Cesare Pavese é terreno, concreto, identificável, real… é um mar observado sob uma visão diagonal, mas é fruto tanto da natureza como do engenho humano, e tudo isto encerrado na imagem do oceano. O mar de Luís Miguel Nava, pelo contrário, é um mar não terreal… é irreal e imaginário; é de outra esfera, de outro enquadramento, é – por assim dizer – visto com outros olhos, com outro sentimento. É insondável, intangível. Mais profundo, mais azul talvez. Faz ponte entre o céu e a terra e de volta ao céu outra vez. É absoluto e brutal. Não tem uma gota de humano, é sobrenatural. É o abismo para onde olhamos um dia. É o sublime que nos transforma em ninharia. Perante ele nada se pode, a terra treme e o céu explode. No seu lugar um relâmpago… não um sorriso, ou um beijo, ou mesmo um poema. Nada que venha do homem, nenhuma teoria, nenhum teorema.
De alquimista e artesão a insignificante poeira do chão. Esta foi a viagem que aqui fez o homem, com as dúvidas, os desejos e as paixões que o consomem. Esta foi a relação que eu consegui encontrar, em dois pequenos poemas que afinal não falam do mar.
Raquel Patriarca

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O mar no seu lugar por um relâmpago

Quem pôs o mar no seu lugar?
Gostava de ter sido eu por instantes.
Brincar a Deus.
Pôr cada coisa em seu lugar.
Num relâmpago criar vida, luz, mar, terra e estrelas.
O mar.
O mar é tudo.
O princípio.
Essa casa abrigo que nos abraça e empurra em cada onda
num ir e vir de força
O relâmpago.
Luz que rasga o céu em energia de cor.
A vida em gotas de água.
A vida em ondas de sal.
Luz. Luz. Luz.
O lugar certo das coisas.
O lugar incerto das coisas.
O meu lugar é aqui.
Junto ao mar.
Contigo.

O mar no seu lugar por um relâmpago

Um relâmpago.
Surge a luz.
A vida ressurge numa estrela.
As estrelas escondem segredos que me contas ao ouvido com a tua luz.
O meio ser do meu ser.
Os outros que me completam.
O lugar incerto da vida.
Em todo o lado a vida.
Como um mar que nos rodeia.
O lugar da nossa alma talvez seja o mar.
Um buraco negro cheio de cor.
A caixa dos mistérios da vida.
O pequeno lugar das coisas simples que guardam as nossas chaves.
O mar no seu lugar por um relâmpago.
O amor no seu lugar por um relâmpago.
O nosso lugar em nós.

O mar no seu lugar por um relâmpago

Hoje não há trovões.
Só relâmpago.
Só a tua luz sem a tua voz.
O mar no seu lugar.
Calmo e sereno.
A maresia indiscreta dos teus sentidos.
As ondas do teu cabelo.
O meu lugar em ti.
As caves perdidas dos nossos pensamentos
Como velhos porões de um navio afundado.
Perdidos no fundo do mar das nossas memórias.
O brilho das nossas histórias
em relâmpagos de memória que nos abraça em encontros.
Luzes, luzes, luzes
Os nossos lugares.
Os amigos, portos de vida.
Âncoras macias e firmes.
O abraço do mar.
O mar em nós.
Os nossos mares.
Os lugares do nosso afecto.
Somos quase só água.

O mar no seu lugar por um relâmpago

A calma madrugada
onde as rotinas não existem
o nada é tudo
o sono, o sonho e os abraços
os laços
o amadurecer do silêncio na noite
o lugar do abraço
o relâmpago sonoro da dor
o mar, guardião de contos, aventuras e heróis
o lugar das fadas, das sereias e dos tesouros perdidos de piratas
guardo o mar no meu lugar interior
os meus lugares de calma
tu és o mar nos dias quentes
relâmpagos em mim que se moldam em cor
a energia em abraços
tudo o que não sabemos no mar
o mar em nós
a vida em pequenas partículas
quase invisíveis
grandes como nós

O abismo e o sublime

"Wanderer"
Kaspar David Friedrich, 1774-1840


"o mar,
no seu lugar, pôr um relâmpago."

Luís Miguel Nava, 1957-1995