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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As Casas

Não sei o que dizer. Não sei. Desde o início da semana ando a ruminar no tema. Olho para ele, dou a volta, volto a olhar. E não sei por onde lhe pegar. Se pelo telhado, se pelo chão, se pelas paredes, ou se pelo que existe dentro das casas e só se vê quando olhamos com os olhos do coração. Raio de tema este. Não lhe encontro poesia. Pronto! Talvez alguma, naqueles grãos de areia que servem para ajudar a cimentar os tijolos. Ai se apanho quem fez a escolha do tema…
Posso começar por falar da minha casa. Uma senhora casa, com vida própria e muito independente. Existe há 63 anos e está de boa saúde. Foi a casa que os meus pais construíram quando casaram. Sempre vivi nela. Nunca tive outra. Nasci onde agora é a sala de estar. E pensando bem, acho que já dormi em quase todos os compartimentos, menos na casa de banho e na cozinha, claro. Sei que a nossa casa não tem de ser um espaço rígido e fixo. A casa é onde estamos e onde nos sentimos bem. Mas reflectindo na minha experiência, eu, tão aparentemente solta e desligada, quando fora alguns dias e retorno a casa tenho uma sensação inigualável. É como voltar ao embalo dos braços da minha mãe. A minha casa tem a minha identidade, a minha marca, regista todas as minhas vivências e memórias. Voltar a casa é voltar para mim própria, para dentro de mim. Voltar à minha infância. Ao tempo em que tomava banho com o meu irmão numa banheira branca de plástico no pátio em frente à cozinha. Ao tempo em que me armava em cantora pimba e cantava acompanhada pelo mesmo irmão que sacava sons dignos de uma bateria aos baldes virados ao contrário. Escusado será dizer da vida curta desses baldes. Ao tempo em que juntávamos primos vizinhos em duas equipas de hóquei e com troços de couve fazíamos belos exemplares de sticks. Ao tempo em que tomávamos banho no tanque de lavar a roupa com direito a camara de ar de pneu e tudo. Depois, os espaços diminuem na mesma proporção com que nós crescemos. E fico-me a olhar para o tanque e até rio a pensar que já tive medo de me afogar ali naquele nico de espaço.
Talvez seja a minha casa o alicerce que me acompanha desde que sou gente. Faz parte de mim e do meu crescimento. Disso não tenho qualquer dúvida.
Não sei se fará algum sentido comparar as casas a uma pele. À pele que nos reveste o corpo. Mas também não tem de haver sempre sentido nas coisas. Quando existe poesia e liberdade de escolha podemos comparar até o incomparável. Afinal, sempre parece haver alguma poesia. Alguns grãos, bem boleados de areia, que insistem em entrar na engrenagem deste texto. Quem fez a escolha do tema pode dar passo em frente. Está desculpado!
Sim. Definitivamente, as casas, do sítio onde me sento para observar, são a pele que revestem o nosso corpo. Se dizemos que os olhos são as janelas da alma podemos bem dizer que cada um de nós é uma casa. Uma construção feita diariamente e em constante manutenção. A pele é a parte exterior das paredes das casas que somos nós. Protege e confina a um único espaço o que está dentro. Mas, ao mesmo tempo que é a linha que separa o interior para o exterior e vice versa, é o ponto de contacto entre essas duas realidades. Tal qual uma ponte, uma linha fronteiriça. Une as duas margens. Por essa ponte existem trocas constantes. Algumas até conseguimos percepcionar outras, nem nos damos conta. A pele é um registo diário de todas as nossas vivências, em especial um registo dos nossos afectos. Um mapa afectivo. Haverá forma mais absoluta de demonstração de afecto que um abraço silencioso e sentido? Mesmo que a roupa impeça o contacto direto de pele com pele, a forma como nos entregamos no abraço faz desaparecer qualquer outra necessidade de comunicação. Um toque de mãos diz tanto sem serem precisas palavras. É com a pele mais do que com outro sentido que nos ligamos ao outro e ao mundo que nos rodeia. Que somos casas complexas, pois somos. Tantas vezes nos destruímos e reconstruímos. Tantas vezes a precisar de valente limpeza e arejamento interior. Sempre em mutação diária. Sempre em descoberta do mistério que albergamos dentro de portas e que somos nós.
Resta agradecer à Ana Luísa pela generosidade com que abre ambas as portas das suas casas. Bem, depois disto, e a precisar de um abraço, continuo sem saber o que dizer. Para a próxima vez, quem escolhe o tema sou eu!


claraoliveira 2016.01 


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

espero-te
plantada no rochedo mais alto
farol solitário
derramo guia luz
fios em prata escorrem
meu corpo de pedra e sal
prolongamento distante
teia tecida
guardiã sem nome
não tens como te perderes
na demanda de me encontrares


claraoliveira12.01.20

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012



Joanetes de Coentrada


grande ideia a da Ana
transformar os joanetes
para a rima é que é uma porra
só se for com foguetes

em entrada, sim senhor!
ou companhia de um copo
Joanetes de Coentrada
deixa qualquer um louco

origem animal ou vegetal?
é pergunta que fica
mas desde que não saiba mal
estamos todos com uma larica!

à mesa de qualquer um
ricos, assim assim e pé descalço
acompanhado ou sózinho
faz as delícias do moço

muito alho e azeite
alentejano que é o melhor
fossas nasais um deleite
palato mole um primor

grandes segredos não tem
diz a Maria cozinheira
tudo vai da matéria "da prima"
e dos condimentos usados
muito carinho e doçura
muito bem misturados

sai uma dose bem servida
na refeição, como entrada
os comensais até se babam
à vista dos Joanetes de Coentrada

claraoliveira12.01.14
versão melhorada de poema com início promissor

humm!!
come-me!!
sei ser irresistível
no piscar dos teus olhos
espelho de luz vitralizada
cílios redondos
longos
tremeluzem
advento da sensação
humm!!
anda, sim...
trinca-me!!
retorno impossível
não me resistas,
toca-me com veludo de língua
devagar...mais devagar
inspira
expira
não sejas gulosa
take your time
sente o esplendor da doçura
no céu palatino
envolve-me no macio manto vermelho fogo
boca carnuda em botão de rosa.
fecha os olhos
fechado o semblante
em prazer egoísta
dentro rebentam pequenos terminais
explosões de gozo luz
fogo d'artifício em faíscas de prazer.
e eis que chega...orgasmo piramidal dos sentidos
querida! mais um quadradinho de chocolate?

claraoliveira12.01.14

sábado, 22 de janeiro de 2011

dor

doi
quando só encontro a concha
o aglomerado de ossos
a trama de músculos
o lençol de pele
a forma física
e objectiva
e tocável
e visível
de seres tu

doi
quando só encontro o vazio
frio e húmido
de casa desventrada
onde esfolo os nós e a alma
de tanto bater
onde enrouqueço a voz
e a perco de tanto chamar

doi
uma dor fina e funda
de consciência quase desmaia

doi
e não mais deixa

Fim de tarde

fim de tarde
e de passeio
o dia já vai longo
rocha urbana
procura o céu de cimento
em sobrepostas camadas
paredes nuas, duras
de emoções e formas cruas
transforma-se
em laivos de brilho quente
reflexos de ouro
poiso do olhar de longínquo astro
vejo, não reconheço
o invertido espelho
brinca
em jogos de luz e sombra
formas redondas e esguias
buracos negros
para além da matéria
abrem-se portas
de silêncio
um novo mundo
salto no desconhecido

Clara Oliveira

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

peco
sempre que solto o meu pensamento
e te encontro
no espaço liquido de bolha de sabao
levada no vento a toa
em purpurinas de brilho
peco
sempre que imagino o teu gosto
e te beijo
sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende
labios de carne rosada
tintos de sabor
peco
sempre que as minhas maos
desenham o teu rosto
contorno redondo e quente do amor
tatuado a ferro e fogo
no mais fundo de mim
e peco
neste lugar sem pecado
nuvem suspensa e leve
de algodao doce como tu
peco
mas nao tanto

Clara Oliveira
surge assim
sem se fazer notar
discreta
em pezinhos de la
que as noites ja vao frias
instala-se
dominando
algures a meio do tempo
mais coisa menos coisa
e logo apos o zenite
descida primeiro leve
descida depois abrupta
espera-te no contorno da esquina
e vao-se enroscando
as heras pernas fora
num peso monstro
prendem-te raizes de sequoia
e a tela de pintor experimental
enche-se de manchas escuras
ao acaso e ao sabor do artista
e sulcos indeleveis
cada tempo mais profundos e vincados
em altura de terra lavrada a suor
o papel, esse, encarquilha-se
pergaminho amarrotado
desbotado e sem cor
o esqueleto, esse, encarquilha-se
num amontoado mikado
e o chao cada vez mais perto
perde-se altura
tudo se vai virando
com olhos rasos no fundo
atraiçoa-te a concha que ja nao obedece
atraiçoa-te quem comanda que ja nao reconhece
atraiçoa-te
tu a ti

Clara Oliveira

domingo, 24 de janeiro de 2010

pensando

faz-me pensar
não somos nós mais que muitos?
não somos nós seres únicos? marcas digitais únicas?
reduzidos a números, a estatísticas, a tabelas
decapitados
sem pinga de sangue

faz-me pensar
naquelas órbitas, paradas, sequer névoa
de quem já nada pede, nada quer,
ausente, irreal, na plateia de um filme de cinema
para maiores de nascidos

faz-me pensar
em cada rosto, cada ruga
um contar de histórias sem fim
desconhecidas
em cada perda, um elo se quebra
um nunca mais definitivo

faz-me pensar
todas estas vidas diminuídas em multidão
que nos entram pela casa adentro
sem sequer um "posso?"
e mantens igual o acto maquinal
de levar a comida à boca já tão cheia
de olhos postos em outras tão cheias de
nada
soltas tua culpa com um "coitados!" ocasional
e segues a tua vida
e todos seguem as suas vidas
e o mundo gira e gira e gira

e tu? onde estavas tu?
quando a terra decidiu mostrar as entranhas!
adormeceste em serviço?
esqueceste de proteger os que em ti acreditam?
os poupados agradecem-te!
e os outros? os engolidos pelo cinzento?
esses já nada dizem, só silêncio

faz-me pensar
afinal também tu és
silêncio

Clara Oliveira

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

engordando

na escuridão de afectos
há fome, há sede
uma fome faminta de fogo
uma sede sedenta de céu
em partículas de tempo encalho
num corpo do qual me alimento
inspiro odores que da pele se soltam
ferro os dentes alvos na carne rosada
dilacero secretos entremeios que torno meus
e eu engordo
vou engordando

bebo o sangue, grosso e escuro
da cor de reposteiro de sacristia
corpo e sangue d'alguém
alguém sem nome, sem rosto
anónimo, sem identidade
que importa! alguém. ou talvez ninguém
dos olhos sugo a alma
e é dela que me lambuzo
os dedos, o queixo
ponto alto do bródio, delírio do palato
e eu engordo
vou engordando

até nos ossos de marfim afio os caninos
e a seiva leitosa sorvo em orgasmos sacudidos
seca. deixo-te seca.
pele e osso. transparente como um cadáver.
folha seca de Outono que se calca e quebra
num som de estalidos debaixo dos pés
foguetes em dia de festa. sem festa
seca como uma folha de papiro
amarelecida, envelhecida antes do tempo,
com o impiedoso bater dos ponteiros
seca
numa nudez frágil de alma depenada

de um golpe desprendo-me
arrumo desarrumada, num caixote qualquer,
sem etiqueta, na minha memória mais remota
tão mais que já perdi e de vez esqueci
levou-te o vento do norte
em mil grãos de poeira, desfragmentada
outro chão, outro colo.

na escuridão de afectos
um outro corpo do qual me alimento
e eu engordo
vou engordando

Clara Oliveira

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

elevo-me

elevo-me
acima das nuvens
pairo dormente
e corpo
e mente
ausente

nem vivo
nem morto
nem nada

anestesia
ilusão
intervalo

vida que não quero
ser que não sou

enfeito-me
de Natal
efémero no brilho
que não dura
que não muda

nem vivo
nem morto
nem nada

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

solta-se a fera

solta-se a fera
na arena da vida
o círculo do circo
começa ao nascer

a pele derrete
perde identidade
ao ser violada
com o ferro em fogo
estigma como amante
no escuro de cada sol posto

brilham os fios de prata
automatizam os movimentos
rebanhos humanos
sem pensar
fantoches manipulados
sem querer

tão pouco de ti
quase nada de ti
debaixo de comando
sempre
controlado por dentro
em hierarquias patentes

fiel depósito
de corvos negros em ferida
de pesadelos
de medos

impulso dado pelo estribo
entram na jaula
e brilham os fios de ouro
esvoaçam querendo fugir

mas tu fechaste-os
dentro de ti
vestindo-os como uma pele

nos teus olhos fundos
já não há alma
globos brancos sem menina

és besta encurralada
nas arestas da existência

és instinto
sobrevivência

o círculo fecha-se
a fera solta-se
na arena da morte

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

segundo ensaio sobre a "desinspiração"

deserto de palavras
não as consigo tecer
entrançar umas nas outras
formar imagens de cor

aridez de palavras
mergulho os dedos nestes grãos
escorrem sem dono
por entre as minhas mãos

vazio de palavras
atravessar esta lonjura
por dentro sinto-me rasgar
derrete-me a mente nesta loucura

deserto cheio
de aridez vazio
de palavras

Clara Oliveira

terça-feira, 10 de novembro de 2009

duas possibilidades

duas possibilidades de alteração ao meu final:


matas o concreto
viverá para sempre
o devaneio


o corpo cessa de pulsar
e de mim...que sobra...

Clara Oliveira

primeiro ensaio sobre a "desinspiração"

"















"

Haikai

nada se escreve
tanto se entende

Clara Oliveira

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

sentia o chegar do fim

sentia o chegar do fim

e eu sem medo...
já te esperava
há tantas auroras atrás

e eu sem medo...
sinto o teu olhar sangrento
de vermelho tinto
inundar o meu de nada

e eu sem medo...
anjo da morte
orla de sombra
negra como carvão
envolves-me no teu aperto

e eu sem medo...
pregam-se ao palco
os meus pés
pesado como chumbo
o meu corpo
leve com brisa morna
de final de tarde
o meu coração
alada
desprende-se de mim
a alma

e eu...
sem medo...
entrego-me

matas o homem
mas não matas nunca
o IDEAL

Clara Oliveira

e naquele dia

e naquele dia
de manto negro se veste
sol flamejante
antes vermelho
como sangue fresco
cobre-se de denso nevoeiro
pardo escondido
baço pasmado
ponta de vento
se não sente
barulho ao longe
se não ouve
hastes verdes
olham o chão
indolentes
arado fértil
em crosta dura e pó
escorre a vida
gota a gota
rega o leito ainda fresco
e das entranhas da terra
um tumultuoso lamento:
- Meu Deus, por que me abandonaste

Clara Oliveira

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

eis

eis
os novos guerreiros
a proteger os vivos
da fragilidade humana

eis
os novos organismos
a viver para além
do entender humano

é alvo sobreviver
é prémio sobreviver

eis
os novos cientistas
de uma luta incurável
de uma vida anunciada

vestem a pele de Deus
em busca de um código
em busca da imortalidade

Clara Oliveira

amo-te

amo-te
o dia nasce
com ele...tu

luz de mulher
em pele de leite

sonho de mulher
sempre presente

mãe de mulher
minha semente

submissa mulher
sou rei sempre

nasce o dia
tu...com ele


desejo-te
a noite cai
com ela...tu

cristal de fêmea
em pêlo queimar

potro de fêmea
teu lombo montar

cio de fêmea
minha fome matar

orgulhosa fêmea
altivo olhar

cai a noite
tu...com ela



pudera
numa só
as duas



Clara Oliveira

domingo, 25 de outubro de 2009

CAIM

A alma içada no teu rosto
invadida de terror e sangue,
e exangue o corpo de Abel.

Em ti, Caim, se abate o céu,
e a voz de Deus.

– Por que mataste a inocência?
Errarás então por esse oriente
e serás penitente
no castigo.

– Morrerei, Senhor, onde lavrar.

– O Sol de ti: o meu sinal.

Clara Oliveira e José Almeida da Silva