Não
sei o que dizer. Não sei. Desde o início da semana ando a ruminar
no tema. Olho para ele, dou a volta, volto a olhar. E não sei por
onde lhe pegar. Se pelo telhado, se pelo chão, se pelas paredes, ou
se pelo que existe dentro das casas e só se vê quando olhamos com
os olhos do coração. Raio de tema este. Não lhe encontro poesia.
Pronto! Talvez alguma, naqueles grãos de areia que servem para
ajudar a cimentar os tijolos. Ai se apanho quem fez a escolha do
tema…
Posso
começar por falar da minha casa. Uma senhora casa, com vida própria
e muito independente. Existe há 63 anos e está de boa saúde. Foi a
casa que os meus pais construíram quando casaram. Sempre vivi nela.
Nunca tive outra. Nasci onde agora é a sala de estar. E pensando
bem, acho que já dormi em quase todos os compartimentos, menos na
casa de banho e na cozinha, claro. Sei que a nossa casa não tem de
ser um espaço rígido e fixo. A casa é onde estamos e onde nos
sentimos bem. Mas reflectindo na minha experiência, eu, tão
aparentemente solta e desligada, quando fora alguns dias e retorno a
casa tenho uma sensação inigualável. É como voltar ao embalo dos
braços da minha mãe. A minha casa tem a minha identidade, a minha
marca, regista todas as minhas vivências e memórias. Voltar a casa
é voltar para mim própria, para dentro de mim. Voltar à minha
infância. Ao tempo em que tomava banho com o meu irmão numa
banheira branca de plástico no pátio em frente à cozinha. Ao tempo
em que me armava em cantora pimba e cantava acompanhada pelo mesmo
irmão que sacava sons dignos de uma bateria aos baldes virados ao
contrário. Escusado será dizer da vida curta desses baldes. Ao
tempo em que juntávamos primos vizinhos em duas equipas de hóquei e
com troços de couve fazíamos belos exemplares de sticks. Ao tempo
em que tomávamos banho no tanque de lavar a roupa com direito a
camara de ar de pneu e tudo. Depois, os espaços diminuem na mesma
proporção com que nós crescemos. E fico-me a olhar para o tanque e
até rio a pensar que já tive medo de me afogar ali naquele nico de
espaço.
Talvez
seja a minha casa o alicerce que me acompanha desde que sou gente.
Faz parte de mim e do meu crescimento. Disso não tenho qualquer
dúvida.
Não
sei se fará algum sentido comparar as casas a uma pele. À pele que
nos reveste o corpo. Mas também não tem de haver sempre sentido nas
coisas. Quando existe poesia e liberdade de escolha podemos comparar
até o incomparável. Afinal, sempre parece haver alguma poesia.
Alguns grãos, bem boleados de areia, que insistem em entrar na
engrenagem deste texto. Quem fez a escolha do tema pode dar passo em
frente. Está desculpado!
Sim.
Definitivamente, as casas, do sítio onde me sento para observar, são
a pele que revestem o nosso corpo. Se dizemos que os olhos são as
janelas da alma podemos bem dizer que cada um de nós é uma casa.
Uma construção feita diariamente e em constante manutenção. A
pele é a parte exterior das paredes das casas que somos nós.
Protege e confina a um único espaço o que está dentro. Mas, ao
mesmo tempo que é a linha que separa o interior para o exterior e
vice versa, é o ponto de contacto entre essas duas realidades. Tal
qual uma ponte, uma linha fronteiriça. Une as duas margens. Por essa
ponte existem trocas constantes. Algumas até conseguimos
percepcionar outras, nem nos damos conta. A pele é um registo diário
de todas as nossas vivências, em especial um registo dos nossos
afectos. Um mapa afectivo. Haverá forma mais absoluta de
demonstração de afecto que um abraço silencioso e sentido? Mesmo
que a roupa impeça o contacto direto de pele com pele, a forma como
nos entregamos no abraço faz desaparecer qualquer outra necessidade
de comunicação. Um toque de mãos diz tanto sem serem precisas
palavras. É com a pele mais do que com outro sentido que nos ligamos
ao outro e ao mundo que nos rodeia. Que somos casas complexas, pois
somos. Tantas vezes nos destruímos e reconstruímos. Tantas vezes a
precisar de valente limpeza e arejamento interior. Sempre em mutação
diária. Sempre em descoberta do mistério que albergamos dentro de
portas e que somos nós.
Resta
agradecer à Ana Luísa pela generosidade com que abre ambas as
portas das suas casas. Bem, depois disto, e a precisar de um abraço,
continuo sem saber o que dizer. Para a próxima vez, quem escolhe o
tema sou eu!
claraoliveira
2016.01
