segunda-feira, 24 de março de 2014

Um poema de Natércia Freire

imagem daqui

Vem, como dantes!
Livra-me do peso
Das palavras que exigem
Seu objecto.

Da música, ordenando
Um som concreto.

Dos sentimentos coesos
Com a morada.

Desmancha
Com teus dedos
De um cortante cristal
De ágeis segredos
A ligação do corpo
Com os seus medos
De morrer sem memória,
Solitário.

Com tua treva e luz
Tumultuosos
Desfaz e faz
Os sonhos e as cousas
Do Tempo
Eterno em seu itinerário.

Mesmo na solidão
De ruas longas
Quando os vivos e os mortos
São só sombras
E eu sou apenas
Rectas de um degrau…

Tu podes
Como um deus
Combalido e amargurado
Ao direito negado
Abrir no Espaço
Um som de sementeiras

Erguer no Espaço
Os aquedutos de oiro,
Esconder amigos falsos
Como um grande tesoiro.

E propor, como aos sinos,
Uma infinda ousadia
De invisíveis destinos,
Esses, que eu espero e vivo
E respiro, mortal.

Natércia Freire in Obra poética, vol. II lido aqui

quarta-feira, 19 de março de 2014

sublima

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imagem daqui

a velocidade aflita pode ser o fundamento
para o teu  zig-zag permanente :
os teus olhos de horizonte
os teus passos de gazela
os teus cabelos fulminantes  –

a não procura de um rumo é a negação do absoluto.
a certeza do transitório e do fugidio.
uma flânerie como diria Baudelaire.
por vezes, o instinto na distância da razão
por vezes, a velocidade da lebre e o sono das árvores
por vezes,  o casulo de seda sem a iminência do vulcão –

alguém disse: é da experiência singular que nasce a obra de arte.
emoção e acto que interage, a procura de um outro espaço
a libertação do tempo: a nudez do sentimento -

senta-te no banco de um jardim. 
recebe a luz e a sombra de uma forma natural.
 elimina a rotina dos teus olhos de cidade:
o excesso de imagem, o mar de signos
o esforço mínimo de abstracção, a transcendência impossível
o ruído, o ruído, o ruído -

pára, desce as pálpebras, sublima -

josé ferreira 19 março 2014







segunda-feira, 17 de março de 2014

os teus olhos no meio da cidade



naquela tarde de março o sol era um astro luminoso
onde   raios  oblíquos atravessavam o azul, um azul ténue –
               
não era ainda o dia das glícinias
era um dia de camélias  distintas
e de múltiplas flores de azálias em cores de vestidos –

as flores existem como invenção dos deuses num dia de luz e brisas.
as flores fundem-se  nas mãos das mulheres numa harmonia uníssona
como uma música sem som, só nos ouvidos –

como naquela tarde de março, quando 
as tuas mãos límpidas e longilíneas
faziam dançar as pétalas, em círculo, em círculos
de uma sensualidade pura, descobrindo

a cor dos teus olhos e a verdade do sorriso –

josé ferreira 16 de março 2014

terça-feira, 11 de março de 2014



 
O que existe sem liberdade?
   Não há, justiça, nem paz,
   nem amor, sem ela!
Nada começa sem liberdade! 
   Livre sempre seja,
   a mente e o poema!