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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

um poema de amor

 .
Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. 
 .
Manuel António Pina
Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde | 1969
.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[TUDO À MINHA VOLTA] - um poema de Manuel António Pina


Tudo à minha volta cumpre 
um destino silencioso e incompreensível 
a que algum deus fugaz preside. 
Fora de mim, nas costas da cadeira 

o casaco, por exemplo, pertence 
a uma ordem indistinta e inteira. 
Dava bem todo o meu sentido prático 
pela sua quieta permanência em si e na cadeira. 

A realidade dos livros em cima da mesa 
parece tão estritamente real! 
As filhas falam, barulhentas e reais, 
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real. 

Sob este rio real 
o rio que me arrasta, de palavras, 
corre dentro de mim ou fora de mim? 
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém, 

como está neste lugar (qual?), 
e como os livros na mesa? 
O que fala falta-me 
em que coração real? 

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)

Manuel António Pina lido aqui

quarta-feira, 18 de maio de 2011

manuel antónio pina

.
.
Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais outros são um bocado menos.
.
Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. – Em quê? – O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse nem se sabia se ele cabia ou não.
.
gigões e anantes|excerto
manuel antónio pina
prémio camões|2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo


Giorgio di Chirico

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

sexta-feira, 4 de março de 2011

Esplanada


Richard Avedon

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina "Poesia Reunida" Assírio & Alvim

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A um jovem poeta



Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

sábado, 23 de maio de 2009

improvável antologia poética

AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina