terça-feira, 7 de outubro de 2014

Príncipe - um poema de Ana Hatherly


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Príncipe: 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir 
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir 
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira 
a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me. 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me 

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" lido aqui

domingo, 5 de outubro de 2014

Muda de Vida ou Muda de Poema - um poema de Gonçalo M. Tavares


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Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal. 
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema. 

Gonçalo M. Tavares, in 'A Perna Esquerda de Paris' lido aqui

sábado, 4 de outubro de 2014

uma visita inesperada

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um fundo verde e um banco de madeira.
um recorte de dois vultos na moldura de um vidro.
uma janela em guilhotina.
uma esvoaçante cortina.
qual o valor de um gesto sem som à distância de um sorriso?
qual o valor do que se imagina?
analfabetos emocionais dizia Bergman nos filmes.
existe uma prisão dos sentidos na pele que segura os pensamentos
um  mapa de linhas com rios parados
sem fluidos
sem serem fluidos,  sem fluírem. rios de tinta, rios precisos, rios impossíveis.
uma caricatura sem margens, um espaço indefinido –

existe um lugar de sonho  em todos os jardins e em todos os lugares por onde viajam os rios
a possibilidade de uma autobiografia em que mudam as plantas e em que se tingem as folhas
como na época das vindimas: a cor dos bagos e a cor vermelha de um mosto doce
numa  espuma frágil que desliza –

em Outubro o sol brilha. por vezes uma nuvem
e pelas manhãs  um orvalho miudinho. um arrepio.
alguns dias sucedem sem bússola, desorientam-se, experienciam-se e permanecem límpidos.
como naquele dia: um dia de luz, uma túnica branca de linho, uma aragem sensível
um dia sem que alguém pudesse imaginá-lo assim.
um dia sem índice, sem a cartografia falsa dos mapas coloridos.
naquele dia havia um rio e um verde enlouquecido
uma janela aberta e o esvoaçar de uma cortina –


josé ferreira 4 outubro 2014