quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

um poema de Natal


falar de um Natal é falar de uma lareira
um crepitar de madeiras em mesas longas
o calor de rabanadas e arroz-doce sobre a mesa
sonhos redondos, filhós e aletrias que rimam com o riso das crianças
as alegrias que ardem num fogo lento e morno
aconchegando os dias –

são os dias em que se abominam todas as desgraças
e em que um sol de esperança pode criar a luz
e cria –

o Natal não se prende em  meteorologias
de chuva , vento e frio, de muito frio
faz um intervalo no lume das lareiras
que se acendem de chamas altas e iluminam
 queimam o egoísmo de todas as melancolias
e cada um contribui de forma mais amena
pelo próximo que precisa
pelo receio que alguém tenha fome, e têm
de que alguns não tenham abrigo, e não têm
pelas crianças que quase nada têm, e não têm –

no Natal não se cura o mal do mundo
talvez fiquem sementes na consciência
para darem frutos de justiça
para darem minutos de alívio
mas é preciso sempre mais, sempre mais
e muitíssimo para que todos os natais
não acabem no fogo fátuo de madeiras ardidas
e que a cor do mundo permaneça escura, muito escura
em fumos negros e cinza –

josé ferreira 25 dezembro 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

  "De Sapiãos"

em riste
sem olhos, ouvidos, dedos
ou não, ironia
riste, que disfarce
o resto, entenderia à mesma
não fico a ver
 .......................................................................................................
Alguém que achava ter sentido de humor, com saudade de sereias, nunca foi de regresso, por ser imaturo e sem si nem dó, tudo não quererá.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um poema de Natal por José Almeida Silva


   Imagem daqui

Neste Natal é imenso o frio

Neste Natal é imenso o frio –
Belém é um denso nevoeiro
E um obscuro e tímido silêncio
E o orçamento das famílias
Não suporta o calor

Da mensagem de amor
Que em Belém de Judá
Foi anunciada
Faz tanto tempo já.

O frio então era natural
Tão diferente do frio
Cúmplice e artificial
Dos pastores e reis magos
Destes tempos –

O Menino continua o mesmo
Mas os carneiros e as ovelhas
Estão gordos com as pastagens
Dos outros, já tão magros.

Há de crescer o Menino,
Assim o creio,
E na mão um chicote
Para afastar a tirania
E devolver a Esperança.

Não é da cabeça a sua essência,
O Natal é do coração –
Simplicidade e fraternidade
Não cabem no prodígio frio da razão – 
                                                 
19.12.2012
José Almeida da Silva

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012



2avioes2004Círculos imperfeitos

Pensava ser a conta-gotas, não chegavam claros dias a descoberto, nem teve de ser para sempre

Quebradados
e mais


Quebrados laços
e mais

Quebrados laços imaginados
e mais

eu permaneço

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

os meus gatos não estão aqui


                                        imagem da web

os meus gatos não estão aqui
não miam nos meus ouvidos
não me roçam as pernas
e seria impossível
os ruídos do café são uma fronteira intransponível
os meus gatos não estão aqui –

portanto quando o nevoeiro se expande branco
e cobre a rua com mil gotas invisíveis
os meus gatos não estão aqui –

e estão sempre
com o seu pêlo branco, cinzento ou preto
trazendo nesta distância de luz todas as cores dentro –

os meus gatos não estão aqui
não sobem os móveis para atingir a altura das mãos
não se aninham no colo para ronronarem canções
não fecham os olhos nos seus sonhos de prados
nos seus sonhos adormecidos de rodarem os olhos e esticarem as patas –

os meus gatos não estão aqui
não fazem asneiras para que me lembrem que existem
e que sentem
os afectos das mãos, o aconchego do colo ou a cobertura das lãs –

e estão sempre
de olhos azuis ou castanhos como lampiões na noite escura
como sombras protectoras, como anjos nas manhãs brancas –


josé ferreira 13 dezembro 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

escrevo-te (IV) - a importância da luz


                                imagem daqui

escrevo-te no frio flagrante de uma manhã de inverno
apesar de ser o princípio de dezembro
quando as árvores ainda deixam cair folhas e se tornam transparentes –

escrevo-te com as minhas mãos abertas e na nudez dos ramos
para te dizer que a luz é importante
que as cidades podem ser todos os dias
os cabelos dos sonhos e um mar infinito
ou montanhas brancas 
ou lagos luzidios –

josé ferreira

domingo, 9 de dezembro de 2012

escrevo-te (III) - 366 pedaços de céu



                       imagem em http://expresso.sapo.pt/366-pedacos-de-ceu=f737374

escrevo-te na sensibilidade nas palavras
não encontro melhor forma de dizer
ficamos sempre aquém do que nos sobe na cabeça
em 366 pedaços de céu

ficamos sempre aquém
aquém do amor que dizemos em plumas que sobrevoam
que se imobilizam como se um cisne voasse, pousasse  e falasse
e do seu bico saíssem palavras
palavras escritas em pequenos círculos no espelho de um lago –

ficamos sempre aquém da pele que nos abraça
quando os dedos se tocam e há um homem
e há uma mulher  –

escrevo-te sabendo da fronteira e dos limites
das portas e das janelas
dos quiosques, das escolas, dos escritórios e dos cafés;
aquelas mesas cheias de olhos –

e das bibliotecas
da imensidão das prateleiras, paralelas
na longitude das folhas
na curvatura dos livros onde se deitam as histórias –

sei bem dos limites e das asas que não voam
e no entanto, vejo-te  e escrevo  
e dou-te a mão sem pressa
em 366 pedaços de céu


 josé ferreira 9 dezembro 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Secreta Viagem


                                                imagem daqui

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira in A Secreta Viagem

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

duas almas


                                   Imagem retirada da web

um voo de espírito e um pousar pesado
assim com as duas mãos e os dois pés
mão a mão e passo a passo
à vez e sob o sol que acompanha o espaço
entre laranjas
escondidas nas árvores

almas unidas que ninguém separa –

josé ferreira 4 dezembro 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

escrevo-te (II) - Lou e Rilke, um espelho de almas




caíram muitas folhas e o chão crepita nos nossos passos 
uma fogueira acesa sem chamas de lareira
enquanto
uma coluna de fumo e as  chamas dentro, internamente
no interior da cabana onde Lou e Rilke uniram os dedos
onde ela lhe alisava os cabelos e ele escrevia versos
intensos, versos intensos
versos sobreviventes e cartas que prosseguiram
para além de muitos anos –

o vento da minha cidade atravessou a Europa
desceu a serra e vem juntos das faces.
como um rio de ar cheio de ruídos
poliniza as letras em palavras
alimenta-se de folhas em branco –

como um vício, o bom vício dos afectos
que estende as mãos na pele das magnólias e as admira brancas
brancas
muito brancas e oscilantes
em pétalas de pálpebras
janelas que se abrem 
um espelho de almas –

josé ferreira 2 de dezembro de 2012