Chove
A mesma água escorrida
Do dia, do olho e da ferida
Num dilúvio indistinto
Neste dia e no que sinto
Cá como lá
Assobia
Um vento que desafia
A verticalidade do ser
Pontes, ossos e dentes
Tremem forças indiferentes
À vontade de fazer
Trago dentro o mau tempo
A nuvem negra, o relâmpago
O tsunami e o ciclone
E quando de dentro me escapo
Abro a janela e destapo
Mais um negro pensamento
Que me trata pelo nome
E se da janela aceno
Vejo a cena tal e qual
Cá dentro mora o Inverno
Lá fora o temporal
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sábado, 18 de junho de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
sementes que nascem em terra queimada
sementes que nascem em terra queimada I
anteontem.
inquietude tão imprudente
rasga-me.
apetece demais bulir
agarro-me.
ontem.
da paralisia
não resvalou repouso
sementes que nascem em terra queimada II
o tempo que acabaste
diluísse barulho
cassou calma por dentro
às vezes para sempre.
traste.
se o amor morre não se cuida.
não evocadas imagens, luto é luta
espuma de tristeza, dias
por mim passam mal.não voltaste.
adormeci rápido, acordei bem
não sabia em falso abraço.
quero paz.
sementes que nascem em terra queimada IV
a verdadeira terra, essa
sem lume queimada
sempre, tarde percebo
de muito antes o negado
tarde percebo sem remédio
como a morte, só que
é loucura não te amar.
eternidade.
apenas uma, a semente.
ainda a, ainda proibida a palavra...
quarta-feira, 15 de junho de 2011
- Que as andorinhas não choram
I
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno
II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno
II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno
Cansei-me desta chuva miudinha

"Golconde", René Magritte, 1898-1967
.
Cansei-me desta chuva miudinha,
Teimosa e poalha venenosa –
Molha sempre a minha poesia
E enruga a folha lisa onde mora.
.
Fechei a janela e a gelosia,
Mesmo assim aquela miudinha
Entra-me em casa sem pedir
Licença, curiosa e atrevida.
.
Pousa-se logo ali na mesa
De trabalho e olha a tinta
Como uma rival – as palavras
Entende-as como quer e pode.
.
Afinal, tanto lhe faz se estão
Deitadas ou se estão de pé,
O que ela quer é encharcá-las
Todas. Sim, mesmo até à alma
.
E fá-lo sempre com a calma
De um crítico de literatura.
A criatura lê tudo a direito
Sem respeito por quem
.
A pensou e escreveu. Enfim,
Presunção e água benta,
Tem-na ela à flor dos olhos:
Lê e insensível diz – não presta.
.
E esgueira-se de aresta em aresta
Feliz e rindo da patifaria. Eu fico,
Já se vê, como o sol no deserto
Capaz de a matar de insolação.
.
Mas sem demora guardei a poesia
Enrugada na gaveta, e fui para a janela
Exorcizar a chuva para que fosse embora.
.
E mesmo tímido, o sol iluminou-lhe o caminho –
.
2011-06-06
José Almeida da Silva
.
Reflexão à chuva
.
Foi de chuva intensa esta manhã, eu sei,
E a noite de caudalosas lágrimas.
.
Não sei que te diga. Tu sabes, a chuva
Aborrece e depura, apesar da lama a correr
Pelas ruas [é verdade, as sarjetas entopem,
Não são limpas – o verão distrai quem é já
Propenso à distracção e à monotonia]
Enlameando os degraus das casas e as caves.
.
Às vezes, nutre a chuva, sobretudo
Se surpreende as pessoas que a não
Esperavam, distraídas, e que correm
Às lojas chinesas que pululam na
Cidade como os cogumelos nas terras
Húmidas e quentes, e compram baratos
Guarda-chuvas de qualidade duvidosa.
A lama é também aluvião, fertiliza a terra.
.
Queixas-te muito de que a chuva incomoda.
E as lágrimas desassossegam-me ainda mais,
Brotam do magoado coração como a elegia,
Um coração que pensa somente em remoinho,
Sempre a mesma ideia, sempre a mesma força
Centrípeta confundindo a lucidez do espírito.
.
Melhor teria sido ir para a rua festejar
Como as crianças chapinando nas poças
E molhando os sapatos e as meias, rindo –
.
[Vejo-me no espelho de uma poça a brincar,
Sapatos encharcados até aos pés, e as calças
Molhadas nas bainhas, tudo uma emoção,
E felicidade por esses momentos de alegria.
.
Sei bem o que custa assim a liberdade,
A minha mãe vem lá de mãos atrás das costas –
.
E tu sorriste ao sol do meu sorriso –
.
Foi de chuva intensa esta manhã, eu sei,
E a noite de caudalosas lágrimas.
.
Não sei que te diga. Tu sabes, a chuva
Aborrece e depura, apesar da lama a correr
Pelas ruas [é verdade, as sarjetas entopem,
Não são limpas – o verão distrai quem é já
Propenso à distracção e à monotonia]
Enlameando os degraus das casas e as caves.
.
Às vezes, nutre a chuva, sobretudo
Se surpreende as pessoas que a não
Esperavam, distraídas, e que correm
Às lojas chinesas que pululam na
Cidade como os cogumelos nas terras
Húmidas e quentes, e compram baratos
Guarda-chuvas de qualidade duvidosa.
A lama é também aluvião, fertiliza a terra.
.
Queixas-te muito de que a chuva incomoda.
E as lágrimas desassossegam-me ainda mais,
Brotam do magoado coração como a elegia,
Um coração que pensa somente em remoinho,
Sempre a mesma ideia, sempre a mesma força
Centrípeta confundindo a lucidez do espírito.
.
Melhor teria sido ir para a rua festejar
Como as crianças chapinando nas poças
E molhando os sapatos e as meias, rindo –
.
[Vejo-me no espelho de uma poça a brincar,
Sapatos encharcados até aos pés, e as calças
Molhadas nas bainhas, tudo uma emoção,
E felicidade por esses momentos de alegria.
.
Sei bem o que custa assim a liberdade,
A minha mãe vem lá de mãos atrás das costas –
.
E tu sorriste ao sol do meu sorriso –
.
2011-06-04
José Almeida da Silva
.
Toquei de leve a chuva
.
Toquei de leve a chuva
Caída no teu rosto
.
Somente à transparência
O teu olhar de luz
Era frágil inocência
.
Abandonada a beleza
É ainda mais bela
E iluminada
.
Repousa a chuva
Na manhã de rosas
E tu resplandeces
.
Afrodite não estaria
Mais sublime –
.
Toquei de leve a chuva
Caída no teu rosto
.
Somente à transparência
O teu olhar de luz
Era frágil inocência
.
Abandonada a beleza
É ainda mais bela
E iluminada
.
Repousa a chuva
Na manhã de rosas
E tu resplandeces
.
Afrodite não estaria
Mais sublime –
.
2011-06-08
José Almeida da Silva
.
terça-feira, 14 de junho de 2011
a propósito da chuva (um poema republicado)

fotografia de um filme de Godard
......................................"o eu é um movimento na multidão
.........................................................Henri Michaux
o prédio no meio dos outros prédios
tem paredes tem alicerces
mas não tem braços.
por vezes assim a noite
de um lado e de outro lado
os ombros férreos apertados.
o prédio no meio dos outros prédios
tem janelas e uma porta clara iluminada
- nas costas o tijolo cego
de costas um outro prédio.
por vezes assim são os lugares do medo
cintilantes na claridade frontal
sombras de cera e chama ténue
no interior de um quarto vasto.
o prédio no meio dos outros prédios
quando chove conduz as águas nas telhas
para o espaço contínuo de um pequeno rio
- é esse o objectivo
que as águas se juntem se tornem maciças
no som no ritmo na procura dos caminhos.
por vezes assim é o pensamento
que acrescenta esta e aquela sequência
e a consequência de um sentido uma linha
feita de asfalto granito ou terra batida.
há uma mão gigante atrás de cada indivíduo
recolhendo a linha como um fio
enrola enrola agarra o novelo
como um muro sem porta
aponta o caminho em frente sem reverso
- não há regresso continua!
o prédio no meio de outros prédios
pode ganhar braços como as árvores
arrancar raízes no orgulho de ter pernas
abrir janelas e andar pelo meio das ruas
dos carros autocarros e bicicletas
até encontrar um parque, muitas árvores
desfolhar cortinas –
por vezes assim são os quadros os poemas a escrita
a revolta de um grito -
José Ferreira 30 Abril 2010
segunda-feira, 13 de junho de 2011
chove muito imenso
.
chove.
chove muito imenso.
uma chuva intencional e substantiva que – mais do que
desprender-se do céu abandonada a um guião pré aprendido
nos ciclos genéticos secretos da água –
vem precipitada em franjas gordas e verticais a ver se esmaga
as planícies e as ondas do mar.
.
tenho saudades de uma chuva andadeira e confortável,
que venha regar-me as magnólias e as ervas de cheiro.
uma água chuvente sossegada e silenciosa,
sem dúvidas e sem perguntas. falta-me essa atmosfera húmida,
pálida e plácida, com cheiros castanhos que me fazem dormente.
preguiçosa.
.
chove tanto que sinto a cidade ceder e afundar, os telhados
perto da calçada, numa bidimensionalidade forçada
em que as superfícies visíveis das coisas não têm volume
porque não importam. e sobra só a chuva em forma de muitas
águas. caídas em muitos ciclos de tempo.
não sei de onde lhe vem a autoridade e a força incondicionais.
um carácter que assusta e faz inveja
porque toma conta de mim. mesmo sendo água e nada mais.
.
chove muito imenso e o cantar descompassado nas telhas
e nas janelas, traz contos antigos em testemunhos de outras
monções. chovem gotas que um dia rolaram da pele
escamosa de um dinossauro e que caíram em cidades perdidas.
chovem as legendas líquidas de milhares de milhões de vidas.
.
chove tanto que me chove por dentro. a água cobre e ensopa as
máscaras e os figurinos que me ocupam os corredores
que não quero ter à mostra. depois escorre-se e lava tudo
na enxurrada. fica o vazio onde ecoam os
silêncios inconvenientes das perguntas que se fazem
quando não está ninguém a ver.
ensurdecem-me as dúvidas e incomoda-me a inocência de não saber
o que serei quando crescer. ensurdece-me a chuva que não pára,
e fico presa à convicção que não há nada a fazer,
e que hoje o único verbo com propriedade de acção, é chover.
.
pouso o lápis, abro as portadas grandes da varanda e saio.
estou descalça. e o chão está seco.
.
r.p.|oito.junho.doismileonze
domingo, 12 de junho de 2011
Boletim Meteorológico
Pela manhã espera-se um arfar de orvalho brando,
que deslizará em surdina, entre nuvens.
Há-de segredar gotas envergonhadas
e qualquer coisa de chuvisco, quase arrependido
Pela tarde prevê-se a revolta.
O gotejar vai fazer-se trovão, fazer-se dragão.
Incendiará de dilúvios as cidades e as terras semeadas.
Absolutamente imperioso, há-de rasgar o azul do dia,
apagar qualquer possibilidade de sol,
e dissolver o horizonte.
Aconselha-se que fique em casa
Agasalhe-se
e leia poesia.
Lá fora há chuva.
que deslizará em surdina, entre nuvens.
Há-de segredar gotas envergonhadas
e qualquer coisa de chuvisco, quase arrependido
Pela tarde prevê-se a revolta.
O gotejar vai fazer-se trovão, fazer-se dragão.
Incendiará de dilúvios as cidades e as terras semeadas.
Absolutamente imperioso, há-de rasgar o azul do dia,
apagar qualquer possibilidade de sol,
e dissolver o horizonte.
Aconselha-se que fique em casa
Agasalhe-se
e leia poesia.
Lá fora há chuva.
sábado, 11 de junho de 2011
Le mal du pays

Às vezes, é só a cabeça de um leopardo doente.
O rancor musical de uma cesta de fruta, à cabeceira.
Um silêncio apócrifo, puro, pouco higiénico até,
a matemática mórbida da chuva contra a inconveniência
que volta e a saga cega de alguns insectos terrivelmente felizes
pela morte recente do teu sexo,
e do teu peito, satélite natural da armadilha,
onde a manhã apagou mal o seu cigarro desaparecido.
Depois, a calma suja e pulmonar do dia seguinte.
O teu corpo, cheio de espadas e sequelas,
atirado à baba lenta da permanência,
à luz que lhe dá de beber
e que, ao mesmo tempo, aprende lentamente a destituí-lo.
Nove exactos segundos de apneia, para no décimo apenas meio mundo emergir.
Como um país, cuja capital ficara devastada por gritos e agora renascesse
na exausta arquitectura das suas antecedências
o equívoco.
sábado, 4 de junho de 2011
into the (Moody)blues
vídeo de josé ferreira
as heras já não crescem mais
o muro está triste
a chuva cinzenta das cidades
aperta as raízes
- disse-lhe no dia 3 de junho
a névoa dos dias passados
será sempre um passo no presente
uma culpa no futuro
- disse-lhe faz hoje oito dias
soou tão estranha a resposta
depois clara como a água dos rios:
não digas nunca nunca nem sempre sempre
são palavras feitas de nuvens
perdem-se no tempo -
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