sexta-feira, 25 de março de 2016


Tenho as mãos cheias de dunas
e saudades
As mãos cheias de possibilidades
e um mar para navegar.

As dunas entre mim
e as possibilidades.

Tenho uma inquietação idunável
e um mas … [sempre um mas]
a impedir que
o mar se faça
futuro

Teresa Almeida Pinto
Foto de Filipe Carneiro, selecionada pelo FineArt-Portugal

quinta-feira, 24 de março de 2016

ilustração de Chris Mars

Doí-me como te torturas,
descarnando-me da tua pele,
no ensejo vão
de me fazeres
ferida

Teresa Almeida Pinto 

sexta-feira, 18 de março de 2016

pedaços

Imagem de Derya Qasem 

hoje
colo os pedaços das memórias
enlaçados
ficam poemas de Pessoa e Sena
em meadas de aço
e aguarelas de Cruz suspensas
em azul de espanto
e as cantatas de Bach e as árias de Puccini
e tantas e tantos outros

e ficam os códices que toquei
com luvas brancas
irrepreensivelmente limpas
que me transportaram a passados
remotos

ao todo faltam porções de vida
diluída no tempo
e sobram fragmentos de arestas ácidas
que recupero dos momentos
sombrios

impossível desconjuntar esta amálgama
imperfeita
de ferro e algodão

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite

Ana Luísa Amaral  traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite. 
A Ronda da Noite

(clicar no link para aceder ao video)

sexta-feira, 11 de março de 2016

NECESSIDADES



é necessário algum caos como
gavetas abertas, um garfo entre as colheres
despentear o mundo com toda a certeza
também beijar os olhos logo ao nascer
falo de todos aqueles que for possível, sim
esquecer o que esperar se tudo são
lírios e delírios
e o que há mais

é necessária a fúria de uma onda enorme
olha como transforma quem a vê da praia
ou do farol ou do carro
podem ser crianças besuntadas de gelado
podemos ser nós a secar lembranças na pele, somos
e apesar do medo do abismo
queremos vê-lo para contar a todos como é
mas a nós não

são necessárias palmeiras altas para subirmos
a essa ideia que se escondeu no fim de tudo
num sonho dentro de um sonho e outro
onde pedimos licença mas somos selvagens
animais cheios de dúvidas, tantas
– não arrumes o garfo
– não?
– sim


Marta Pais de Oliveira

domingo, 6 de março de 2016

Foi assim.



Foi assim.  
No silêncio da história. Não poderia ser de outro modo.
Guardámos a lua.
Em caixa de papel mistério. E laço de coração.
Ficou-nos a memória.
Foi assim 

Teresa Freitas


Soneto de Lentilhas


  Picar uma cebola com cuidado
  Colocar com azeite num tachinho
  Levar a refogar um bom bocado
  Até ficar com toque coradinho.
 
  Depois de preparado o refogado
  Retirar as lentilhas do frasquinho
  Juntar-lhe a salsa e o pão ralado
  E três ovos batidos, mas pouquinho.
 
  Nozes picadas leite ao natural
  Em 3 -1 -2- 1 -1- medida certa
  Vão completar a parte principal
 
  E antes de ir à fornalha bem esperta
  Uma pitada de pimenta e sal.
  Eis aqui a fórmula descoberta!


M. Céu Silva (SLV)