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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A força das palavras de Almada Negreiros




Entretanto não é o celulóide que mente
nem o mercúrio do espelho,

nem a cópia do disco,
nem as ondas do ar,
e eu assisto-me a mim-próprio
representando o que não sou
um papel que não faço
num enredo onde não existo
senão para que não se desacerte a multidão,
senão para que não se corte a onda,
senão para que não se altere a corrente,
senão para que o público siga o programa
e passa mais umas horas deste mundo.

Como hei-de eu - o próprio
livrar-me do público e da multidão,
livrar-me da corrente e da onda,
livrar-me de todas as cores da multidão e do público, da onda e da corrente?
Se bem que eu não faça parte deles
as suas imensidades cobrem o mundo
e com a forma do mundo parecem inteiras!

Como hei-de eu - o próprio
levar-me a salvo
e deixar em terra firme
a minha legítima vida intacta?
Hei-de gastar a minha existência inteira
a guardar para quando
a minha legítima vida intacta?
Por quanto mais tempo
digam!
por quanto mais tempo
peço-lhes!
hei-de estar comigo à espera?
Digam lá que não há-de chegar-me a vez
da minha legítima vida intacta!

Ao sabor da corrente deixar-me-ei ir na onda
e estarei bem atento até que chegue a minha vez.
Já tenho o hábito de andar comigo no meio da multidão:
já sei fazer-me sua parte sem me perder de vista.
Leve-me para onde me leve a multidão
eu a trago sempre bem justa a mim
a minha legítima vida intacta!

Tenho um amigo que também vai na onda
e tem uma história igual à minha.
Diz o amigo que a nossa história é muito antiga
e já os antigos lhe puseram nome
prà não confundir com as outras histórias.
Chamavam-lhe Eternidade
e era o sonho daqueles que querem mais do que têm.
O sonho não acabava
nem acabava a onda
nem acabava a corrente
nem acabava a gente.
Quem acha pouco a onda,
quem acha pouco a corrente
e ainda por cima quer ser gente
fica assim eternamente.

Mas por hoje basta.
Hoje já é muito tarde,
hoje já se esgotaram todas as esperanças que havia para hoje
não serve de nada insistir.
Ainda não foi hoje que chegou a vez
da minha legítima vida intacta.
Não deram resultado todas as esperanças
que eu tinha posto no dia de hoje.
Mas amanhã se Deus quiser
logo de manhã muito cedinho
todas as esperanças começam outra vez
à procura da minha vez.
Já sei que primeiro vê-se a estrela do futuro,
antes do futuro vê-se a estrela,
dizem que a estrela está quase pronta
para ser vista pela primeira vez uma madrugada
e assim todos os dias
sempre
até que eu acabe.

Almada Negreiros

terça-feira, 6 de março de 2012

Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo - um poema de Almada Negreiros


Almada Negreiros "Figura de Mulher com pandeireta" 1938 daqui

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parece ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
ao ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nós todos e cada um de nós




Nota: o texto que se apresenta de José de Almada Negreiros reproduz-se na íntegra como foi publicado em Lisboa no ano de 1924

- Sabem quantas pessoas tem havido desde o principio do mundo até hoje?
- Duas. Desde o principio do mundo até hoje não houve mais do que duas pessoas: uma chama-se humanidade e a outra individuo. Um a é toda a gente e a outra é uma pessoa só.
Um dia perguntaram a Democrito como tinha chegado a saber tantas coisas.
Respondeu: Perguntei tudo a toda a gente.
Bastantes seculos mais tarde Goethe confessou por sua propria bocca que "se lhe tirassem tudo quanto pertencia aos outros, ficava com muito pouco ou nada".
Por aqui se vê que cada um é o resultado de toda a gente; o que de maneira nenhuma quererá dizer que seja o bastante ter cada qual conhecido toda a gente para que resulte immediatamente um Democrito ou um Goethe! Precisamente o difficil não é chegar aos Grandes, mas a si proprio!...Ser o proprio é uma arte onde existe toda a gente e em que raros assignaram a obra-prima.
O que está fora de duvida é que cada um deve ser como toda a gente, mas de maneira que a humanidade tenha effectivamente um bello representante em cada um de Nós.

"Pierrot e Arlequim", personagens de Theatro. Ensaios e dialogo seguidos de commentarios por José ALMADA NEGREIROS com um autoretrato dois figurinos um desenho allusivo e o motivo de capa

Portugalia Editora 78, rua do Carmo, 75 Lisbôa Nov. XXIV

quinta-feira, 17 de março de 2011

terça-feira, 15 de junho de 2010

A taça de chá


retirado da internet

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em água, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.

Ele, num gesto último, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Ele, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.

Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

sábado, 2 de janeiro de 2010

A sesta


Magritte "Alice no Paìs das Maravilhas" 1945


Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em
cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não
dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as
vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo
dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda
mais o sôno a mal-resonar.

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na
negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos
redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o
ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno
fingir.

E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús
estendidos.

E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num
grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse
outra vez.

Almada Negreiros, in Frisos - Revista Orpheu nº1