quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015









 Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu , que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite.
Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês

Em que pensar senão em ti
Tu que destilaste desejos inéditos na minha pele
Tu que deste um nó clássico no meu coração
Tu que rasuraste as esquinas do meu estômago,
até á náusea do amor,
até ao enfarte
até ao enfado da separação


Teresa Almeida Pinto

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Estou tonto

2560x1600 Wallpaper man, sitting, chair

imagem daqui


Estou tonto, 
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 
Ou de ambas as coisas. 
O que sei é que estou tonto 
E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto. 

Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto ... 

Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto ... 

Sim, verdadeiramente tonto... 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada. 

Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto... 
Tonto. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"  lido aqui

ser

imagem daqui


somos sempre um sonho por inventar
indiferente às polaridades e ao racional
assim como gotas de chuva caídas da nuvem nova
sempre originais.
somos a aura de uma manhã legítima

o acontecimento que os signos procuram explicar –

josé ferreira 16 fevereiro 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

É Isto o amor

Renoir 1883 (imagem daqui)


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 

Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'  lido aqui

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

o valor de uma lágrima

imagem daqui

qual o valor de uma lágrima no teor de sal irrepetível?
elevado ou dispensável?
talvez na proporção inversa da velocidade
segundo a profundidade dos poros ao descer a colina –

qual o valor de um grito ou de um gesto de desvario?
um prato partido na parede inocente
um copo na mão trémula, caindo, tingindo a toalha na cor do vinho –

qual o valor de um sentimento que se sente como uma montanha infinita?
depois de tanto tempo, na substância do presente
feito de vermelho e branco

e de palavras antigas –


josé ferreira 6 fevereiro 2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O poeta, mera bicicleta,
corre sem fim,
atrás de um preciso              outro Verão.

Olhos abertos de mar,
esquecidos de ti ,
maresia de espaço,
recoberta de ontem,
areia de livros,
heterónimos  de nós ,
gelados de toques,
sabor a tantos como nós ,
correntes submersas
de sim                           
 e de não.

O poeta, mera bicicleta,
poros cerrados,
principio do fim
 poema inacabado,
daquele preciso                    outro Verão.


Teresa Freitas

Desinspiração exemplar



Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar.                    Herberto Helder

 

Lá vai o poeta
pedalando no gerúndio,
por um dia de chuva exemplar
(por acaso Verão)

Lá vai o poema colado aos pedais
a rimar na contramão
das balelas gramaticais
- Segura-te ó Musa, olha que cais!

Poeta e poema, pé no pedal
pela viela dos vocábulos
á procura do símbolo
das sílabas fatais:
inspiração com uis e com ais
e varias metáforas banais

Lá vai a Musa de Lamborghini …
-Bicicleta ?!!!
Que a pedale o poeta!


 Teresa Almeida Pinto