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terça-feira, 17 de julho de 2012

fala-me dos arcos do céu



fala-me dos arcos de céu
onde infinitos pequenos astros
se rebolam sobre a pureza
do teu rosto. fala-me dos teus olhos,
da paisagem que inventam no luar de azul
onde se adivinham os dias e se pressente
o ligeiro vibrar do novo amor em semente.

escutarei, e das tuas palavras vou tirar
outras que não são para dizer, que trazem
nos lábios o mais íntimo segredo disso que é real,
disso que ignora as paredes do olhar e em tudo
desenha o tão doce horizonte que somos em nós.

mudo ficarei suspenso da tua voz sem saber
ao certo se é verdade ou mentira, se se pode
de facto criar um rosto que nos mostre por completo,
como a pele mostra a mão, a água o beijo,
sem saber se este sangue e esperança
será suficiente para te encontrar
no rebolar dos infinitos pequenos astros.

 Vasco Gato in «Um Mover de Mão», pág.25 Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

quarta-feira, 29 de junho de 2011

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu


Tamara Lempicka

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.

Vasco Gato "Um mover de mão" Assírio & Alvim

segunda-feira, 25 de abril de 2011

- nas tuas mãos, o meu coração de lã e o frio




a púrpura dos dias

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra

- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.


Vasco Gato "Mover de Mão"

terça-feira, 29 de março de 2011

Muito pouca


Richard Avedon "Marylin Monroe e Arthur Miller"

a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra

e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção

Vasco Gato "Um mover de mão" Assírio & Alvim 2000

quarta-feira, 16 de março de 2011

Janeiro




É esta a completude dos dias
Quando se reúnem sobre a cidade
Os sossegos da nossa idade já meiga.
São estas as palavras que ficam
Desde o interior do nosso mais antigo nome.

É o inverno aberto de janeiro
Com as árvores despidas e o frio azul,
É o ano que começa no tempo que é nada,
Os bolsos que se enchem de mãos,
As casas que parecem mais juntas.

Por esta altura estarão a nascer
As horas mais felizes das nossas vidas
- bebemos chá escutando o lume
E amanhã será um dia a menos,
Um outro som acrescentando à voz,
Um abraço fechando-se até ao amor.

Vasco Gato "Um mover de mão" Assírio & Alvim" 2000

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um dizer ainda puro


Klimt 1911


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonámos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato, "Um Mover de Mão" Assírio & Alvim

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lorca lives


Leonard cohen/Luis Bunuel "los olvidados"


Lorca lives in New York City
He never went back to Spain
He went to Cuba for a while
But he's back in town again

He's tired of the gypsies
And he's tired of the sea
He hates to play his old guitar
It only has one key

He heard that he was shot and killed
He never was, you know
He lives in New York City
He doesn't like it thought



Lorca Vive

Lorca vive em Nova Iorque
Não chegou a regressar a Espanha
Foi até Cuba por uns tempos
Mas está de volta à cidade

Fartou-se dos ciganos
E fartou-se do mar
Detesta tocar a sua velha guitarra
Que tem apenas um tom

Ouviu dizer que tinha sido alvejado e morto
Nunca chegou a sê-lo, sabias
Ele vive em Nova Iorque
Embora não lhe agrade

Leonard Cohen (tradução de Vasco Gato)" O livro do desejo" Quasi