observo os pormenores redondos sem vincos definidos.
a leveza em equilíbrio, descontínua.
estamos sempre em viagem, em aberto, não existe o vazio.
o vazio é uma abstração humana em certos dias.
a interminável serpentina do pensamento avança no interior
daquele comboio de Kundera
de estação indeterminada: o comboio que leva a tua história,
as tuas mãos e o teu rosto
naquela porta que se abria, rodando o trinco sem ruídos
sem a brutalidade das engrenagens que gritam.
as janelas estavam vivas e as paredes não existiam. era uma
casa física sem espíritos.
o mundo era só um, de raios azuis, de lábios vermelhos que
se entendiam, sem ideologias –
quantas noites e quantos dias. e depois aquela telha partida,
uma pinga, duas pingas
um balde de plástico que se enchia. quantas noites e quantos
dias, o silvo do maquinista
a estufa de carvão, o fumo, mas o fumo é indício, o comboio
partia –
não consigo fechar os ouvidos, tapar a boca daquela noite, o
candelabro sem luz
um tridente escondido a subir a avenida. era inverno e tu
sabias -
as nuvens rodeavam a laranja azul, esse planeta de luzes –
receava os símbolos e as tricotomias, colecionei as imagens
aditivas, num rodopio.
mas não pude adiar, voltei ao mundo das palavras cristalinas:
a linha contínua que encobre e descobre, como um tricot das
Ilíadas.
havia muitas, sabias? pelos caminhos, em mnemónicas
repetidas –
as palavras e os teus cabelos são incontáveis, infinitos,
finos, fogem e deslizam.
algumas palavras como os teus cabelos são sublimes –
é inverno, não vou contar as noites nem os dias. prefiro
tocar nos teus cabelos e senti-los.
os sentidos são o oposto das numerologias e os números não voam, não se elevam acima
são o chumbo de todos os símbolos, o zero do pensamento –
sopra um vento frio que movimenta o ar pela frincha da
janela aflita.
não é urgente, um destes dias coloco a espuma que veda esse
atrevimento.
proíbo-lhe a entrada. não lhe permito arrepios na fronteira
da pele.
ao vento, esse provocador invisível, na casa de portas e
paredes frias.
vou desenhar os teus olhos na porta, nos vidros para que as
estrelas se iluminem.
é possível enganar o real por momentos, são múltiplos os
fragmentos –
já não sei, já não sei se é urgente.
desvalorizamos a experiência, Benjamim já o dizia: são
milhares de fotografias
e a casa sem raízes –
josé ferreira 22 de Janeiro de 2015