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terça-feira, 10 de novembro de 2009

duas possibilidades

duas possibilidades de alteração ao meu final:


matas o concreto
viverá para sempre
o devaneio


o corpo cessa de pulsar
e de mim...que sobra...

Clara Oliveira

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A oferenda de Caim

Deus Meu todo guloso!
A gula é pecado

Não gostas da salada, já se sabe
Pões de lado o puré e o feijão
E só comes o frade

Estás GORDO, meu Deus!

Um GORDO todo guloso
Não te ensinou teu pai que a gula é pecado?
Santa a tua mãe de te aturar tanto capricho...

Ai, meu Deus...
Não te bastou o bezerro
E queres de Abel as tenras nádegas

limpas
cortadas
apimentadas

Matei-o já! Meu Deus
Aqui tens o meu irmão

Abel marinado
Limão na boca e mal assado

Comaperna
Sugalhosso
Trincalholho
Roipescoço
As nádegas de boca cheia
Menhã, menhã até de manhã

Limpa a boca e coça o papo

E meu Deus, por favor!
Tira ao Chefe o chapéu
Agradece e diz
Adeus
Não tens mais de cozinhar
Parte para Leste
E dá a Buda teus vegetais

Eu te agradeço, meu Deus!

(Ana Janeiro)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

É como…

1.

É como…

Cinzas em lume
O ciúme
Um gesto de dança
A vingança
Guardar um segredo
O medo
Ser sem vaidade
A verdade
Uma mancha incolor
A dor
Corte sobre corte
A morte
Inventar uma história
A memória
Olhar em perspectiva
A vida

ana lúcia figueiredo


2.

Corpos de algodão
Vagos
Prostrados por sobre a bruma
Distante
Ofegante desejo de fuga
Por entre a aridez da solidão
No chão
Rochas expectantes
Pela queda dos amantes

ana lúcia figueiredo

Carta ao Imperador Maximiliano

Arquiduque e imposto imperador ,
aceitaste a coroa a contragosto.

Do poder que te impôs Napoleão
não teve inteira consciência,
e nem mesmo os ricos latifundiários.

Subiu-te o império à cabeça: decidiste
ser todo-poderoso, ser discricionário,
e resolveste ser contrário e cruel:
antagonizar e matar foi o teu programa.

Mas Juárez, atento à desgraça em que caíste,
mandou fuzilar-te assim, algemado,
enfatuado no teu fato
e de sombrero aureolado. E é crível,
sem arrependimento.

Os simples assistiram ao espectáculo
talvez do teu poder horrorizados
e, quem sabe?, contentes de te ver
trespassado da pólvora dos fuzis –
um gigante tornado pigmeu, e nada.

Miramón e Mejia, os generais,
sucumbiram contigo de mão dada,
e nenhum deles era o bom ladrão,
nem Cristo estava por ali à mão.

Fala de Caim a Deus


Como magoa a morte da inocência,
como dói na alma o bico faminto dos abutres,
como aterra os meus ouvidos o grito de aflição,
e o teu olhar, Senhor, na luz do céu ofendido;

Tudo, Senhor, porque me desprezaste a mim
e à minha dádiva e encheste de graça o meu irmão
a quem levantei a minha mão pesada de ódio e vingança.

Não é somente minha a culpa que carrego e não nego
o ciúme sagrado que me mancha e o medo de me ver
proscrito e condenado à errância e ao meu pecado –
penosa peregrinação de penitente ao olhar matador
de toda a gente que hei-de encontrar pelo mundo fora.

Não sei se sou capaz de olhar a luz do sol de cada dia
e cavar a terra tão a oriente deste Éden
de onde foi desterrada a alegria.

Senhor, o teu sinal será para mim indelével estigma
que livra e que castiga o meu crime cruel
pois nem a vida errante me redime.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

URGENTE! datas!

Queridos poetas e poetisas, querida ana luísa!

Eu venho pedir infinitas desculpas (acho eu) porque acho que hoje houve sessão! é que escrevi uma imensidão de datas enquanto estavamos a decidir que dia ficava na última sessão, e no meio de tantas acabei por passar a data de hoje (que no entanto ainda não sei se era definitiva ou não, porque não tenho o número de telefone de ninguém e ainda não sei se hoje houve sessão!)
De qualquer maneira, se houve, tenho mesmo muita pena de não ter ido. E a verdade é que acho que ficou agendada uma para este sábado e eu não vou poder ir (alguém que me ajude com isto das datas que eu estou profundamente baralhada!) porque tenho um fim de semana de grupo de crisma e não posso mesmo faltar!
Aproveito para dar os parabéns à nossa querida "mestre" ana luísa! Eu mandei uma mensagem mas pelos vistos metade das que eu mando não estão a ser recebidas! No caso de não ter recebido, aqui ficam os meus parabéns e o meu enorme orgulho por poder ter a oportunidade de ser conduzida por si neste pequeno grande mundo das palavras e da poesia. Muito obrigada por tudo o que me tem ensinado. Aliás, por tudo o que me tÊm ensinado.

E já que estou escrever tanto, aproveito para partilhar o meu momento de aridez desconcertante. É que ultimamente as palavras não me vêm ter comigo. É realmente muito frustrante procurá-las e sentir que me fogem, ou que não fogem porque na realidade nunca chegam a mim. Nestes dias tenho-me sentido um miúdo a reaprender a falar, com as palavras presas na língua e tanta coisa por dizer! Sinto-me uma árvore seca. E tudo o que eu queria eram maças verdes apetitosas!
Ou vermelhas! Onde está a serpente para me tentar as palavras?
Se alguém souber dela por favor digam-lhe que preciso urgentemente de caír em tentação!

Mais uma vez, imensas desculpas se faltei!
Um grande beijinho desinspirado

Maria Inês Beires

sentia o chegar do fim

sentia o chegar do fim

e eu sem medo...
já te esperava
há tantas auroras atrás

e eu sem medo...
sinto o teu olhar sangrento
de vermelho tinto
inundar o meu de nada

e eu sem medo...
anjo da morte
orla de sombra
negra como carvão
envolves-me no teu aperto

e eu sem medo...
pregam-se ao palco
os meus pés
pesado como chumbo
o meu corpo
leve com brisa morna
de final de tarde
o meu coração
alada
desprende-se de mim
a alma

e eu...
sem medo...
entrego-me

matas o homem
mas não matas nunca
o IDEAL

Clara Oliveira

e naquele dia

e naquele dia
de manto negro se veste
sol flamejante
antes vermelho
como sangue fresco
cobre-se de denso nevoeiro
pardo escondido
baço pasmado
ponta de vento
se não sente
barulho ao longe
se não ouve
hastes verdes
olham o chão
indolentes
arado fértil
em crosta dura e pó
escorre a vida
gota a gota
rega o leito ainda fresco
e das entranhas da terra
um tumultuoso lamento:
- Meu Deus, por que me abandonaste

Clara Oliveira

ai cai caím

dada a mão de semear
trocaram-ta pelo pé
cilada limpa em segunda mão



a mão caída
a língua erecta aberta
o riso magro da hiena

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Nevermore!"Caim



Georges Braque "Aria de Bach" 1913


Caim foste e odeio-te por isso
Não o mortífero mas o vazio
De uma louca lobotomia
Um olhar parado de infinito.

Odeio-te por isso quando partiste
Nas mãos grandes de montanha
Nos pés de embondeiro
No cetim cínico da gabardine.
Levavas a gaiola de arame, branca
De lado, protegida por um pano
Onde supuz a cabeça amarela
O bico vermelho e mudo
A ausência de um amigo.

Odeio-te por isso e digo-te agora
Que estavas rodeado de corvos
A sina das aves negras
A história extraordinária
De uma janela, uma noite escura
As palavras fundas:
"Nevermore!" "Nevermore!"

Odeio-te por isso
As saudades daquele rosto
Daquele corpo imenso de planície
Sempre tão calado no olhar de sonho
Batendo tão de leve à porta
Encostada no meu mundo.
O ar franzino de poeta
E tu gozavas as calças coçadas
O veludo gasto da contemplação
Nos pés dos pinheiros, na luz das dunas
Nos crepúsculos poentes, lentamente.

Caim foste quando
Sem rugas nos colarinhos
Ordenaste a confusão das roupas
As poucas fotografias, os muitos livros
E apontaste a porta de saída
Odeio-te por isso.
Saiu tonto,pardo, louro, de tom cinzento
Arrastou as hastes de um desconforto
Nos óculos redondos e disse-te:
“Cuida da ave, obrigado irmão”
E caiu único na estrada

Caim foste.
Levou o ruído dos cacos
O pulmão desfeito dos cigarros
O andar lento dos jardins
Ao encontro dos seres pequenos
Sem juízos, sem certezas, sem caminhos.
Odeio-te por isso e nesse dia
No abraço, na despedida
Despedi-te nele a ti de mim
Qual pássaro alado de rapina.
Guardei-lhe a última lágrima
A mais pura num poema de Sophia.
Odeio-te por isso e para ti
A folha seca do castanheiro
Raiada, longa
O grande ninho de cogumelos
A ilha rodeada de espinhos
Nos casulos abertos, ocos
Odeio-te por isso
De óculos escuros no enterro
Na dor do eco das palavras
Repetidas como setas:
"Nevermore!" "Nevermore!"

Hoje partiste
levaste o cântico da ave.
Tens toda a rua molhada.
Caim foste . Já não existes.

Maria-

domingo, 25 de outubro de 2009

CAIM

A alma içada no teu rosto
invadida de terror e sangue,
e exangue o corpo de Abel.

Em ti, Caim, se abate o céu,
e a voz de Deus.

– Por que mataste a inocência?
Errarás então por esse oriente
e serás penitente
no castigo.

– Morrerei, Senhor, onde lavrar.

– O Sol de ti: o meu sinal.

Clara Oliveira e José Almeida da Silva

Que fizeste?

Sombra de sangue
Sangue no chão
Colo de morte
Morte na mão
Ventre de vento
Lento. Por dentro
Sete vezes.

Que fizeste?

Inês e Ana Lúcia

novos tpcs.

Aqui está a etiqueta para publicarmos aqui os muitos trabalhos de casa desta semana!
Um grande beijinho e muita inspiração.
Inês Beires

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Caim - William Blake


William Blake " Caim "

Caim e Abel - o espírito a leste do paraíso

a leste do paraíso

debaixo do céu em cada plano
em cada alto a liberdade do rebanho-

a atenção dos frutos da terra prende o chão
seca o ar, sua o rosto, gasta o homem-

o espírito transparece eleva a canção
em cada montanha espalha o sabor do leite
a lã fia o dia aquece a noite sã
abel respira a poeira como um travo doce
sem mágoa-

os frutos da terra trazem o sabor do sal
a íngreme resistência do húmus
a cor amarela dos vegetais
o terror do medo suga raízes
caim cria o deserto-

a morte voa no castigo dos abutres
sete vezes caim vive
os olhos, as mãos, o semblante de sangue
o espírito de abel
a leste do Paraíso-

Carmen e José