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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Exercício 4

“Que bom deixar-me estar na oscilação discreta
Que nasce do teu corpo e me transporta
A essa embriaguez chamada rima”
António Franco Alexandre


Fui ao teatro naquela rua estreita
sentar-me na cadeira à larga à tua frente
Tinham-me dito que vista de perto é que eras
Liguei os projectores e o som da tua imagem
e instalei-os nos meus sentidos
sem maquinaria de cena só sinestesias

O teu aparelho fonador bailarinava graciosamente
enquanto eu me expandia em exaltação
Vi então a primeira gotícula de suor a insinuar-se na tua fonte
e esvaí-me em sede
Os teus dentes brandos desejavam-me
só podiam desejar-me porque li-os
E os lábios? Ah… nus escorrendo brilho
Reparei depois no teu cabelo –
ondas de um qualquer mar cheio de cheiro
Nasciam na cabeça a foz era no peito
vale de brancura firme e deleitosa
Pus-te nua sem o teu consentimento
enquanto enrijecia de um gozo vindo do centro

A tua voz de diva tenra a masturbar-me sem mãos
até aos aplausos… até ao fim dos aplausos
(Terei de voltar noutro dia
Sentar-me na mesma cadeira
E concluir-te a dramaturgia)

Jacques, o espectador

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Exercício 3

A poesia começa quando um sábio coloca no lugar do mar um relâmpago ou simplesmente quando um idiota diz que o mar parece azeite - a poiesis estendida nos versos dos poetas como um fio grosso e firme de mar. Em poucas palavras estão enunciadas as artes poéticas de Pavese e de Nava (refira-se que o poema do último se intitula “Ars poetica”). E se os enunciados se arriscam a diluir-se por tão aparentemente breves ou ligeiros, permanecem, contudo – entranham-se pela estranheza e pela inovação e cravam-se no subconsciente do leitor. Não é afinal essa a inefabilidade da poesia? Não é o poema essa descarga eléctrica, que se desenha entre nenhures e algures e habita bela e sinuosa uma inesperada onda sonora - luz indizível com corpo de melodia? Assim o é para os poetas e ensaístas que fundaram a Fundação Luís Miguel Nava. Para eles “Relâmpago” é uma espécie de sinónimo de poesia (possuem uma revista de poesia que se chama Relâmpago). Para um grupo de alunos de escrita criativa a poesia é um “mar [que] parece azeite” (possuem um blogue intitulado O mar parece azeite).
A imensidão, a pureza, a luz, a beleza, a densidade e o mistério moram no mar, no azeite e no relâmpago, ou seja, em qualquer processo criativo. Poetas, plantem oliveiras, semeiem temporais e vigiem o mar.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Exercício 2

Boa noite. Eu vou com as aves!
Primo excesso -
libertar o ar ar
ar ar ar
penas penas penas aves
Ocos ossos-de-ar-de-rio
aéreos terríveis leves
Mais aves aves. Isoladamente.
Resto novo, recente,
elo de pele próximo do calor elefante
Origem, linhagem, interior invadidos?
Percorresse o artigo!

domingo, 28 de setembro de 2008

Exercício Um

Cenas partidas esculpidas como dias
Mil desenhos de restos -
três baleias, um livro de marcação,
lâminas e pedra feitas marfim
Anos de caçadas, últimos
É artefacto aberto - imagem