O MALTRATO
Levanta, amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz,
Onde estavas?
Tu sabes que eu adoro ver-te em casa
quando chego da rua.
Sabes que o teu corpo no chão
atinge os ângulos mais belos...
Sabes, meu bem, como eu gosto de ti...
Que estaremos neste laço para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege.
A expressão que tens nos olhos mete medo
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão
Trouxe-te o pão e o vinho
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente atraente
em formas , volumes e conversas.
E és tão desejável.
Acorda, amor, acorda.
São horas de jantar
Limpa o sangue do teu corpo.
Ángeles Sanz
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008
domingo, 26 de outubro de 2008
Fêmea
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
companheiros, na tentativa de fazer o trabalho de casa acabei fazendo a continuação do mesmo. no lugar da certeza, saiu-me a ambiguidade.
este exercício deu-me uma enorme vontade de escrever sobre a dança, porque nela tenho momentos onde nao existem palavras, nem tempo, nem espaço. neste poema em específico, quem vos parece que guia? e quem é guiado? gostava de ouvir opiniões.
Mal sei o chão sob os nossos pés
Ou as paredes espectadoras da nossa dança.
Agora – o único tempo que existe –
Sou a leve pressão do teu corpo,
A mão que se aninha no espaço entre as tuas costelas brancas,
A outra que sustenta a tua, flor tão suave;
O corpo que te envolve e protege,
Os pés que te guiam com destreza.
Abrigas timidamente o teu queixo no meu ombro.
Sinto o teu respirar húmido sussurrar-me ao ouvido
e o teu cabelo passear-se no meu rosto.
Será de quem, o coração que se ouve?
sara riobom
este exercício deu-me uma enorme vontade de escrever sobre a dança, porque nela tenho momentos onde nao existem palavras, nem tempo, nem espaço. neste poema em específico, quem vos parece que guia? e quem é guiado? gostava de ouvir opiniões.
Mal sei o chão sob os nossos pés
Ou as paredes espectadoras da nossa dança.
Agora – o único tempo que existe –
Sou a leve pressão do teu corpo,
A mão que se aninha no espaço entre as tuas costelas brancas,
A outra que sustenta a tua, flor tão suave;
O corpo que te envolve e protege,
Os pés que te guiam com destreza.
Abrigas timidamente o teu queixo no meu ombro.
Sinto o teu respirar húmido sussurrar-me ao ouvido
e o teu cabelo passear-se no meu rosto.
Será de quem, o coração que se ouve?
sara riobom
4º trabalho de casa - O Maltratador
O maltratador
Levanta,amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz, onde estavas?
Tu sabes que adoro ver-te em casa
quando chego do jogo.
Deitada assim no chão
atinges os teus ángulos mais belos...
Sabes , meu bem , que eu gosto de ti...
Que estaremos juntinhos para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege
Essa expressão dos teus olhos mete medo.
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão.
Eu trouxe-te o pão e o vinho.
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente perfeita,
em formas, em volumes e em conversas.
És tão desejável...
Acorda, amor, acorda
São horas de jantar
Limpa o sangue ...do teu corpo.
Levanta,amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz, onde estavas?
Tu sabes que adoro ver-te em casa
quando chego do jogo.
Deitada assim no chão
atinges os teus ángulos mais belos...
Sabes , meu bem , que eu gosto de ti...
Que estaremos juntinhos para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege
Essa expressão dos teus olhos mete medo.
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão.
Eu trouxe-te o pão e o vinho.
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente perfeita,
em formas, em volumes e em conversas.
És tão desejável...
Acorda, amor, acorda
São horas de jantar
Limpa o sangue ...do teu corpo.
4º Trabalho de Casa
Prostrado em cachimbadas solitárias
Olhava o rio e as coisas de nada.
Era velho.
Velhas as coisas, velhas as almas, velho o poeta.
Havia de ser Maio todos os dias
E ver-te enlaçada em vestidos de vento e de papoilas.
Poder olhar-te com a mesma certeza de outrora
de que não era velho, nem velha era a alma de agora.
Sem pesos, sem velhice aberta
em escombros.
Não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas!
Pudera eu abrir-me em portas
E ventos e borboletas!
Ou quando Deus fechar a porta abrir sempre uma janela,
ou um poema.
Ou versos feitos de outro tema.
Que com versos hei de olhar-te mais de perto
Sem pegadas, rastos de anos e fogueiras!
Olhar as curvas certas da tua poeira.
E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia
Assim mudar-te as cores e roubar-te a companhia
Depois esfumar-te a idade e os momentos que são nossos.
E não ser velho.
E não ser homem.
Apenas ossos.
José Sarmento
(Maria Inês Beires)
Olhava o rio e as coisas de nada.
Era velho.
Velhas as coisas, velhas as almas, velho o poeta.
Havia de ser Maio todos os dias
E ver-te enlaçada em vestidos de vento e de papoilas.
Poder olhar-te com a mesma certeza de outrora
de que não era velho, nem velha era a alma de agora.
Sem pesos, sem velhice aberta
em escombros.
Não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas!
Pudera eu abrir-me em portas
E ventos e borboletas!
Ou quando Deus fechar a porta abrir sempre uma janela,
ou um poema.
Ou versos feitos de outro tema.
Que com versos hei de olhar-te mais de perto
Sem pegadas, rastos de anos e fogueiras!
Olhar as curvas certas da tua poeira.
E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia
Assim mudar-te as cores e roubar-te a companhia
Depois esfumar-te a idade e os momentos que são nossos.
E não ser velho.
E não ser homem.
Apenas ossos.
José Sarmento
(Maria Inês Beires)
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Balacete da semana
Que semana!
O chefe a pedir tudo para ontem. Os miúdos doentes. A Joana irrascível : leva- os tu ao Colégio! Não vês que vou ficar com o bébé? Não posso fazer tudo! Não poderias deixar o jornal? (até disse no condicional, só para me arreliar). Ajuda!
Bolas, nunca mais era sábado.
Bendita saída de amigos. Bendita liberdade.
Sorte amanhã haver futebol, se não eu dava em doido.
-João, assiste! Estás na lua? Já pareces a minha mulher, sempre a pensar no Além.Perdemos esta vasa por tua causa, daqui a pouco perdemos o jogo.Concentra-te, homem! Não me digas que hoje nem na sueca tenho sorte. Tive uma semana carregadinha de trabalho, e sai-me este destrambelhado para estragar também o serão. Quando é de azar, é de azar, pô.
Estou a ver. Nem na sueca tenho sorte. O Alfredo também está com problemas em casa, e vem cá descarregar. É tudo muito bonito, mas os putos crescem, o dinheiro falta, o trabalho sobra, e nós é que aguentamos.
Amanhã, pelo sim pelo não, vou à bola. Se o Porto perde, ah caramba, que se o Porto perde outra vez então é que eu destilo a raiva.
Pelo Porto e por mim.
M.Teresa Ribeiro
O chefe a pedir tudo para ontem. Os miúdos doentes. A Joana irrascível : leva- os tu ao Colégio! Não vês que vou ficar com o bébé? Não posso fazer tudo! Não poderias deixar o jornal? (até disse no condicional, só para me arreliar). Ajuda!
Bolas, nunca mais era sábado.
Bendita saída de amigos. Bendita liberdade.
Sorte amanhã haver futebol, se não eu dava em doido.
-João, assiste! Estás na lua? Já pareces a minha mulher, sempre a pensar no Além.Perdemos esta vasa por tua causa, daqui a pouco perdemos o jogo.Concentra-te, homem! Não me digas que hoje nem na sueca tenho sorte. Tive uma semana carregadinha de trabalho, e sai-me este destrambelhado para estragar também o serão. Quando é de azar, é de azar, pô.
Estou a ver. Nem na sueca tenho sorte. O Alfredo também está com problemas em casa, e vem cá descarregar. É tudo muito bonito, mas os putos crescem, o dinheiro falta, o trabalho sobra, e nós é que aguentamos.
Amanhã, pelo sim pelo não, vou à bola. Se o Porto perde, ah caramba, que se o Porto perde outra vez então é que eu destilo a raiva.
Pelo Porto e por mim.
M.Teresa Ribeiro
Intrusa
Mal entrou, o ar encheu-se de um forte cheiro a volúpia que confundiu o religioso aroma dos nossos cachimbos. Violentamente, a pacatez morna do clube foi sacudida pelo estouvamento atrevido e delicioso da sua voz. Foram poucas as palavras, mas todas deixaram adivinhar uma vida sem morada certa, com errâncias inesgotáveis pelo sentir. O andar firme, os gestos desleixados, o vestido que mais parecia uma segunda pele e que despertaria inveja a um qualquer olhar feminino, não deixaram nenhum de nós indiferente. Diria mais. Incendiaram os mais adormecidos desejos. Provocaram as mais disfarçadas intumescências. Profanaram os mais puros sentires. Que destino lhe (nos) estaria reservado?
CARTA A UM AMIGO
Porto, 21 de Outubro de 2008
Meu Querido Amigo,
Fico-te muito grata pela confiança que em mim depositaste: abriste-me os alçapões da tua alma e entreabriste-me o universo das tuas preocupações.
Não sei se alguma vez pensaste nisto, mas eu julgo que a partilha harmoniosa dos corpos depende, essencialmente, do verdadeiro amor mútuo. Quando há, no nosso quotidiano, a necessidade de não facultar ao outro as ilhas da nossa alma, isso pode significar o crescimento da distância entre os que se amam. É verdade que o tempo inscreve nas almas dos amantes a cor da monotonia e as suas resistências. E que, se se não estiver atento, provoca erosão nos sentimentos como o vento sibilino nas rochas mais duras. O tempo não é, todavia, o maior carrasco do amor e das relações interpessoais. As pessoas escondem debaixo do amor incompreen¬sões e egoísmos que não sabem controlar. E vivem atormentadas e atormentam os que amam, porque não conseguem superar esses pequenos nadas que se vão agigantando, dia após dia, a infernizar a sua vida e a dos outros. Com o medo de perderem a partilha, engavinham-se no outro e não o deixam respirar em plena liberdade. Sufocado, o outro começa a criar a distância, e o silêncio cresce. E, ao amor, as palavras são importantes! A linguagem não transparece o amor na sua essencialidade, mas está lá, bem no seu interior: nos gestos, no olhar, nas mãos, nos lábios, nos corpos acesos, linguagens que dizem, tacitamente, os sentimentos mais profundos e os mais humanos.
Nós, as mulheres, entendemos o amor como uma contínua paixão. Não o compreendemos senão como constante ardor do corpo e da alma. Não entendemos que a paixão seja efémera devido à sua intensidade e ao desgaste que provoca. A paixão não conhece as fronteiras do tempo. A paixão confunde o dia e a noite. Não é má, a paixão! A paixão é boa. Mas não há espírito nem corpo que comporte a paixão ao longo de toda a vida. A paixão oferece-nos a morte múltipla, muitas vezes. A paixão não dá espaço para viver, sossegadamente. O sossego e a calma são-nos oferecidos pelo amor. Porque o amor é a paz. E os homens precisam de paz interior para uma relação estável, para a placidez do espírito. O amor contém dentro de si a vida, o companheirismo, a fraternidade, a partilha autêntica e desinteressada. O calor dos corpos é tão-só um complemento desse estado de partilha mútua, que possibilita o entrelaçamento do espírito e do corpo, para um crescimento sereno do par amoroso.
Às vezes, os homens esquecem-se também da paixão por dentro do amor. E correm desenfreadamente por outras paixões, efémeras, que, dizem, não interferem no amor que partilham. Esse, crêem, foi o escolhido e, por isso, eterniza-se por ele mesmo, não precisa de ser alimentado. Mas a paixão corrompe o amor e estilhaça o bem-estar, a serenidade que a vivência do amor exige constantemente. O amor precisa de todo o espaço espiritual dos amantes. Exige deles uma verdadeira partilha exclusiva.
Caro amigo, não foi toda esta filosofia que me pediste. Mas, se calhar, eu não sou capaz de responder concretamente às tuas angústias e às tuas preocupações. O amor é como o respirar: cada um tem de saber dedilhá-lo à sua maneira. A vida depende de ambos. Por isso, cada um tem de encontrar as soluções que melhor se adaptam ao seu caso concreto. O médico não cura ninguém. Propõe caminhos que o paciente percorrerá ou não. A cura está sempre dentro de nós. O teu caso exige uma grande reflexão a dois. A harmonia tem de surgir de vós mesmos. Se não forem capazes dessa harmonia, não valerá a pena caminharem para o caos relacional. É bem melhor que cada um de vós saiba encontrar a sua harmonia, mesmo que implique a separação e a busca subsequente da harmonia individual.
Certa de que encontrarás a melhor das soluções, deixo-te um solidário abraço de muita amizade, e fico à tua inteira disposição.
Francisca
(José Almeida da Silva)
Meu Querido Amigo,
Fico-te muito grata pela confiança que em mim depositaste: abriste-me os alçapões da tua alma e entreabriste-me o universo das tuas preocupações.
Não sei se alguma vez pensaste nisto, mas eu julgo que a partilha harmoniosa dos corpos depende, essencialmente, do verdadeiro amor mútuo. Quando há, no nosso quotidiano, a necessidade de não facultar ao outro as ilhas da nossa alma, isso pode significar o crescimento da distância entre os que se amam. É verdade que o tempo inscreve nas almas dos amantes a cor da monotonia e as suas resistências. E que, se se não estiver atento, provoca erosão nos sentimentos como o vento sibilino nas rochas mais duras. O tempo não é, todavia, o maior carrasco do amor e das relações interpessoais. As pessoas escondem debaixo do amor incompreen¬sões e egoísmos que não sabem controlar. E vivem atormentadas e atormentam os que amam, porque não conseguem superar esses pequenos nadas que se vão agigantando, dia após dia, a infernizar a sua vida e a dos outros. Com o medo de perderem a partilha, engavinham-se no outro e não o deixam respirar em plena liberdade. Sufocado, o outro começa a criar a distância, e o silêncio cresce. E, ao amor, as palavras são importantes! A linguagem não transparece o amor na sua essencialidade, mas está lá, bem no seu interior: nos gestos, no olhar, nas mãos, nos lábios, nos corpos acesos, linguagens que dizem, tacitamente, os sentimentos mais profundos e os mais humanos.
Nós, as mulheres, entendemos o amor como uma contínua paixão. Não o compreendemos senão como constante ardor do corpo e da alma. Não entendemos que a paixão seja efémera devido à sua intensidade e ao desgaste que provoca. A paixão não conhece as fronteiras do tempo. A paixão confunde o dia e a noite. Não é má, a paixão! A paixão é boa. Mas não há espírito nem corpo que comporte a paixão ao longo de toda a vida. A paixão oferece-nos a morte múltipla, muitas vezes. A paixão não dá espaço para viver, sossegadamente. O sossego e a calma são-nos oferecidos pelo amor. Porque o amor é a paz. E os homens precisam de paz interior para uma relação estável, para a placidez do espírito. O amor contém dentro de si a vida, o companheirismo, a fraternidade, a partilha autêntica e desinteressada. O calor dos corpos é tão-só um complemento desse estado de partilha mútua, que possibilita o entrelaçamento do espírito e do corpo, para um crescimento sereno do par amoroso.
Às vezes, os homens esquecem-se também da paixão por dentro do amor. E correm desenfreadamente por outras paixões, efémeras, que, dizem, não interferem no amor que partilham. Esse, crêem, foi o escolhido e, por isso, eterniza-se por ele mesmo, não precisa de ser alimentado. Mas a paixão corrompe o amor e estilhaça o bem-estar, a serenidade que a vivência do amor exige constantemente. O amor precisa de todo o espaço espiritual dos amantes. Exige deles uma verdadeira partilha exclusiva.
Caro amigo, não foi toda esta filosofia que me pediste. Mas, se calhar, eu não sou capaz de responder concretamente às tuas angústias e às tuas preocupações. O amor é como o respirar: cada um tem de saber dedilhá-lo à sua maneira. A vida depende de ambos. Por isso, cada um tem de encontrar as soluções que melhor se adaptam ao seu caso concreto. O médico não cura ninguém. Propõe caminhos que o paciente percorrerá ou não. A cura está sempre dentro de nós. O teu caso exige uma grande reflexão a dois. A harmonia tem de surgir de vós mesmos. Se não forem capazes dessa harmonia, não valerá a pena caminharem para o caos relacional. É bem melhor que cada um de vós saiba encontrar a sua harmonia, mesmo que implique a separação e a busca subsequente da harmonia individual.
Certa de que encontrarás a melhor das soluções, deixo-te um solidário abraço de muita amizade, e fico à tua inteira disposição.
Francisca
(José Almeida da Silva)
Excreção de um mundo líquido.
Excreção de um mundo líquido.
Somos apenas o que fica depois da escorra.
Matéria senil
Massa decomposta
Expulsa pela contracção
de um ventre higiénico.
Um grito doloroso
solta-se
das entranhas revoltas
numa reacção contra-luz.
E uma atracção fatal surge
por uma gota de água
escorrendo dum espaço aberto
capaz de abeberar a angústia
dum corpo
quase dilacerado.
Somos apenas o que fica depois da escorra.
Matéria senil
Massa decomposta
Expulsa pela contracção
de um ventre higiénico.
Um grito doloroso
solta-se
das entranhas revoltas
numa reacção contra-luz.
E uma atracção fatal surge
por uma gota de água
escorrendo dum espaço aberto
capaz de abeberar a angústia
dum corpo
quase dilacerado.
Ponto de Partida num Parágrafo
Ponto de Partida num Parágrafo I
No enlaço dos teus braços morrem pudores e recatos breves, que deslizam à descoberta da curva da orelha, onde sussurro desejos a fugir pelo pescoço, peito e pele num percurso de pêlos, navegado rente aos ossos, até respirar o teu sexo feito mastro emergindo dum mar salgado a apelar por descobertas e lugares profundos, onde desaguo num desalinho de gritos rubros, na certeza de que cheguei ao para-sempre e aqui vamos experimentar felicidades várias, todas elas eternas, perfeitas, nossas.
Ponto de Partida num Parágrafo II
Morre a força de cansaço nos teus braços miúdos onde enlaço paraísos de desejo e mundos perfeitos para onde iremos fugir depois de te foder, depois de navegar os seios que imagino serem mamas tumultuosas de mamilos hasteados a apontar a ruína que se segue, depois de me afundar entre as tuas coxas e desaguar as fragilidades do meu querer na cona de seda que me promete um futuro em que não acredito, mas que espero um dia experimentar, nem que seja para de novo partir e me perder de mim.
Ponto de Partida num Parágrafo III
Nos teus braços morreríamos, mas o amor é fodido e lá fora os outros e o mundo invejam este paraíso de onde tenho de partir, para regressar ao inferno e voltar e, de novo sentir o futuro no teu sexo, atravessar o teu corpo e experimentar felicidades virgens, aquecer a alma nas tuas coxas, transpirar a liquidez do desejo até me derreter no exílio da tua pele e por fim regressar ao ponto onde decidi partir e te perder.
Ponto de Partida num Parágrafo IV
Morri na lembrança que tenho de ti e nenhuma espécie de ressurreição me fará regressar a esse mundo onde permites que se arquitectem atropelos ao amor puro e se desenhem destinos onde os nossos corpos não se enlaçam, mesmo quando continuam a produzir torrentes de lava interior emergente, invocando incandescências que são uma ameaça à perfeição das leis putrefactas e cobardes de quem não sabe sequer o que é o amor.
bilhete
quero outra vez desculpar-me. esqueço que os preliminares devem durar todas as horas de todos os dias. não é que não te tenha carinho. só não sei como to hei-de entregar. estou tenso e cobro-te aquilo que não devo. sempre foste o melhor desta minha vida confusa e cinzenta e preciso de sentir que ainda és minha. quero ser controlado, seguro, sentir-me realizado. quero ser quem mereces. a maior parte dos dias sinto-me cansado, incompleto, abandonado, ridículo. não desisti mas já não tenho expectativas. já reparaste que nos transformámos em lugares comuns? não tem importância. continuo a amar-te como antes. talvez não como antes, mas o teu ventre é ainda a minha verdadeira casa. logo chego tarde. janta e não esperes por mim.
R. Patriarca
Prolongamento corporal
Dentro da esculpida natureza
Nasce a expressão primeira:
A sensação
Envolta numa decoração única
Que emana uma climatologia
Típica
De quem observa o mundo cromático.
Prolongamento corporal
Ânsia de imensidão
Sede de intensidade
Deixo-te no silêncio desta paisagem
Secreta pelo timbre
Receoso e próximo
Dos tímpanos audíveis.
Inclina-te mais um pouco
Nesta intensidade naturalmente viva.
Projectando-se no ilimitado.
Prolongamento corporal
Mergulho no meio das cores
Percorrendo o mais pequeno espaço
Mesmo incolor que seja.
Crio um espaço legível
Onde a sintaxe é puro fenómeno
Ardente.
Prolongamento corporal
Olhares em êxtase
Corpo em posição de guia
Toques que comunicam
A essência e incidência da luz.
Sol e lua
Corpos de luz
Que vibram no sentido
Mais precioso da penetração do campo visual.
Prolongamento corporal
És pura luz
clara-escura de uma ilusão viva.
Nasce a expressão primeira:
A sensação
Envolta numa decoração única
Que emana uma climatologia
Típica
De quem observa o mundo cromático.
Prolongamento corporal
Ânsia de imensidão
Sede de intensidade
Deixo-te no silêncio desta paisagem
Secreta pelo timbre
Receoso e próximo
Dos tímpanos audíveis.
Inclina-te mais um pouco
Nesta intensidade naturalmente viva.
Projectando-se no ilimitado.
Prolongamento corporal
Mergulho no meio das cores
Percorrendo o mais pequeno espaço
Mesmo incolor que seja.
Crio um espaço legível
Onde a sintaxe é puro fenómeno
Ardente.
Prolongamento corporal
Olhares em êxtase
Corpo em posição de guia
Toques que comunicam
A essência e incidência da luz.
Sol e lua
Corpos de luz
Que vibram no sentido
Mais precioso da penetração do campo visual.
Prolongamento corporal
És pura luz
clara-escura de uma ilusão viva.
Transfiguração
Partiste de madrugada
sem para mim olhar
só, cerraste-te em ti
na escuridão do teu quarto
jamais captarei tua alma
através do espelho magico
que foi o teu olhar
desalento,culpa,angustia
por aquilo com que te presenteei
que afinal me parece nada
remorsos do abandono dessa noite
recuso-me recordar
teu corpo inerte como um qualquer
não eras tu minha Mãe
jazida de vazio, em leito de morte
faltei-te, tua vida em mim
estranha sensação esta
fugir à vida, à morte
dez anos da tua ausência
e, no sofá te vejo lendo o jornal
perscrutando, energizando
serena e tacticamente como outrora
Eugénia Ascensão
sem para mim olhar
só, cerraste-te em ti
na escuridão do teu quarto
jamais captarei tua alma
através do espelho magico
que foi o teu olhar
desalento,culpa,angustia
por aquilo com que te presenteei
que afinal me parece nada
remorsos do abandono dessa noite
recuso-me recordar
teu corpo inerte como um qualquer
não eras tu minha Mãe
jazida de vazio, em leito de morte
faltei-te, tua vida em mim
estranha sensação esta
fugir à vida, à morte
dez anos da tua ausência
e, no sofá te vejo lendo o jornal
perscrutando, energizando
serena e tacticamente como outrora
Eugénia Ascensão
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Carlos, indo e vindo de Julieta.
Estendido no sofá, cansado, escondo-me por detrás do jornal, enquanto te observo secretamente por entre o virar de uma página e outra. És minha, desde aquele dia em que trocámos juras de amor, e, no entanto, pareces tão distante. É quando mais te quero, mais te desejo, e não te posso ter. Não estás disponível e ditas as horas e os momentos em que me podes acolher, por fim, dentro de ti. Da tua alma, se é que ainda o consigo fazer. Do teu corpo, que ainda aprecio e desejo. Disfarço o saborear de um cigarro, e observo-te, enquanto vagueias. Perdes-te numa nuvem de fumo, temperada, na cozinha. Preparas com amor de mãe essa merenda para quem agora afagas os caracóis. Divides pilhas de roupa em montes imaginários que só tu sabes catalogar e tudo à tua volta parece brilhar e organizar-se. Aprecio-te o contorno do peito quando te inclinas para apanhar um brinquedo esquecido e cresce em mim a dor de não te ter. Mas ainda não tenho. Agora vens tu. Despes o vestido e, cada vez mais inquieto, vejo-te passar o creme pelo corpo delicado. Estremeço. Mas não te posso tocar. Ainda não. Estou há horas a desejar unir-me a ti, sentir que és só minha e continuo à espera. Neste momento, sou totalmente dependente de ti, e tu sabe-lo. Sabes que te desejo mais do que tudo, que não sou livre, que não aguento mais porque quero ter-te, agora, já. E eis que chega o momento em que reparas em mim e avanças, morna, como se tudo em ti estivesse programado, e eu aqui a morrer de desejo há tantas horas. Perco-me em ti. Como das outras vezes. E agora respiro fundo. Tenho o corpo saciado. Aninhas-te em mim e pareces outra. Vulnerável, meiga, sem regras nem ordem, minha. Só minha. Mas é agora que, enquanto tentas adormecer encolhida nos meus braços, já me sinto liberto de ti. Tenho o corpo tranquilo e a alma a fervilhar. Deixo-te adormecida, delicada e já tão apaixonada por mim, sob a alvura dos lençóis, e corro a espreitar a janela e as mil luzes da noite que se acendem lá fora. Afinal, desencontrámo-nos. Sinto-me como que numa prisão. Agora que és minha, já não te quero ter. Já não te desejo mais. Terei algum dia coragem de desatar este nó que demos juntos numa vida sem sentido? Num impulso incontrolável, visto-me, agarro o casaco e desço. Não sei mais quem sou eu, quem és tu, quem somos nós. Apanho o vento frio no rosto que me gela e já não penso em ti. Só quero perder-me na noite escura.
Carlos, indo e vindo de Julieta.
Carlos, indo e vindo de Julieta.
A forma do desejo
Olho o teu corpo. Respiro o teu corpo no meu ar. Os meus pulmões inundados de ti. O meu sangue a bombear-me a carne da tua visão. Rompe-me de desejo a pele. A erecção dos meus sentidos no êxtase do teu ombro nu. O decote suave a desenhar-te as curvas onde perco a lucidez. Num misto de hipnose e embriaguez de desejo fecho os olhos. Imagino-te nua em mim. Violo a tua brancura em pensamento. Violo a tua brandura em pensamento. Abraço com força a tua fragilidade. Imponho-te a minha protecção e roubo-te beijos dos teus lábios doces, vermelhos e lisos. Mordo-os. Respiro-te. Penetro o teu templo e resgato-te a mente, a alma e liberdade. Tenho-te por instantes. Possuo-te mesmo que não me olhes do outro lado do café. Possuo-te mesmo sem despires o vestido que te desce do ombro. Peço um café enquanto sais. Magoa-me a erecção nas calças justas. Magoa-me não te ter.
Exercício 4
“Que bom deixar-me estar na oscilação discreta
Que nasce do teu corpo e me transporta
A essa embriaguez chamada rima”
António Franco Alexandre
Fui ao teatro naquela rua estreita
sentar-me na cadeira à larga à tua frente
Tinham-me dito que vista de perto é que eras
Liguei os projectores e o som da tua imagem
e instalei-os nos meus sentidos
sem maquinaria de cena só sinestesias
O teu aparelho fonador bailarinava graciosamente
enquanto eu me expandia em exaltação
Vi então a primeira gotícula de suor a insinuar-se na tua fonte
e esvaí-me em sede
Os teus dentes brandos desejavam-me
só podiam desejar-me porque li-os
E os lábios? Ah… nus escorrendo brilho
Reparei depois no teu cabelo –
ondas de um qualquer mar cheio de cheiro
Nasciam na cabeça a foz era no peito
vale de brancura firme e deleitosa
Pus-te nua sem o teu consentimento
enquanto enrijecia de um gozo vindo do centro
A tua voz de diva tenra a masturbar-me sem mãos
até aos aplausos… até ao fim dos aplausos
(Terei de voltar noutro dia
Sentar-me na mesma cadeira
E concluir-te a dramaturgia)
Jacques, o espectador
Que nasce do teu corpo e me transporta
A essa embriaguez chamada rima”
António Franco Alexandre
Fui ao teatro naquela rua estreita
sentar-me na cadeira à larga à tua frente
Tinham-me dito que vista de perto é que eras
Liguei os projectores e o som da tua imagem
e instalei-os nos meus sentidos
sem maquinaria de cena só sinestesias
O teu aparelho fonador bailarinava graciosamente
enquanto eu me expandia em exaltação
Vi então a primeira gotícula de suor a insinuar-se na tua fonte
e esvaí-me em sede
Os teus dentes brandos desejavam-me
só podiam desejar-me porque li-os
E os lábios? Ah… nus escorrendo brilho
Reparei depois no teu cabelo –
ondas de um qualquer mar cheio de cheiro
Nasciam na cabeça a foz era no peito
vale de brancura firme e deleitosa
Pus-te nua sem o teu consentimento
enquanto enrijecia de um gozo vindo do centro
A tua voz de diva tenra a masturbar-me sem mãos
até aos aplausos… até ao fim dos aplausos
(Terei de voltar noutro dia
Sentar-me na mesma cadeira
E concluir-te a dramaturgia)
Jacques, o espectador
domingo, 19 de outubro de 2008
Delírio Húngaro
Delírio Húngaro
I.
Tal como a Morfina, tiro a dor ao homem
Quem me olha nos olhos nunca mais será livre
Sou a mulher mais bela de todas as mitologias
Sou o paraíso em vida – o mais perigoso de todos,
Sou loucura criadora
Patrícia, a Irmã de Deus
Os meus filhos são todas as coisas
Induzo os mais complexos suicídios
Induzo os mais complexos suicídios,
Dou a vida e tiro a vida e não acho isso bem nem mal porque sou uma flor e as flores não julgam – são indiferentes e tristes
Aconselho os românticos alemães a pegarem nas suas espingardas e a lutarem por causas inúteis
Meto-lhes pólvora nas armas,
Provoco-lhes os melhores prazeres
Sou feita de carne e não de luz –
Sou Nossa Senhora do Pólo Norte
A ver o sol derreter-se
E pingar sobre o gelo:
..................................................................
II.
Sou o sonho de um camelo deficiente
O delírio das gémeas siameses
O pesadelo de quatro girafas recém nascidas
A paralisia é o contrário de Deus
- dizias
Por baixo das minhas saias, afago-te a cabeça -
Sou as cinzas de um ditador a voar no bico de um corvo
todos os vendedores de marmelada na fronteira do Iraque
Por baixo das minhas saias - torna-se bem evidente que te amo
………………………………
III.
Sou a possibilidade –
Na minha boca os bois lavram os campos,
Deixam as marcas carolinas das suas patas
O arado escreve na minha língua uma rima de Petrarca
Em letra carolina da mais perfeita caligrafia
Mi fluorescente métrica nova
La porole ideal,
As fadas papistas de tule
Lambuzam-se de geleia e compotas
Sonhos: os mais doces, por exemplo
África partiu-se ao meio
Na minha boca África inteira
Na minha boca os bois lavram os campos
Link, link, link, link
IV.
O medo de ficar sozinha, com a deusa da fertilidade a roer-me o
Útero
Os desejos mais fundos – de um operador de gruas
A boca cheia de neve
Os cabelos a arder ao som da música – ruivos – os phones !
As nuvens do sonho são menos bonitas
Flocos de neve em Bruxelas, os anjos esquecem-se
Percorro todos os dias uma auto estrada de prata que vai
Até ao centro de ti
O prazer está em cada átomo
Em cada átomo – o universo
Os pasteleiros batem a massa em toda a Hungria
na Alta Hungria
E na Baixa Hungria
Amanhã os meninos húngaros, os mais gulosos -
os pasteleiros húngaros, os mais tristes
Olha para mim nos olhos
tenho os olhos tristes, dizias
Os mais tristes de todos
Violeta de Gand, 19-10 -2008
Nuno Brito
I.
Tal como a Morfina, tiro a dor ao homem
Quem me olha nos olhos nunca mais será livre
Sou a mulher mais bela de todas as mitologias
Sou o paraíso em vida – o mais perigoso de todos,
Sou loucura criadora
Patrícia, a Irmã de Deus
Os meus filhos são todas as coisas
Induzo os mais complexos suicídios
Induzo os mais complexos suicídios,
Dou a vida e tiro a vida e não acho isso bem nem mal porque sou uma flor e as flores não julgam – são indiferentes e tristes
Aconselho os românticos alemães a pegarem nas suas espingardas e a lutarem por causas inúteis
Meto-lhes pólvora nas armas,
Provoco-lhes os melhores prazeres
Sou feita de carne e não de luz –
Sou Nossa Senhora do Pólo Norte
A ver o sol derreter-se
E pingar sobre o gelo:
..................................................................
II.
Sou o sonho de um camelo deficiente
O delírio das gémeas siameses
O pesadelo de quatro girafas recém nascidas
A paralisia é o contrário de Deus
- dizias
Por baixo das minhas saias, afago-te a cabeça -
Sou as cinzas de um ditador a voar no bico de um corvo
todos os vendedores de marmelada na fronteira do Iraque
Por baixo das minhas saias - torna-se bem evidente que te amo
………………………………
III.
Sou a possibilidade –
Na minha boca os bois lavram os campos,
Deixam as marcas carolinas das suas patas
O arado escreve na minha língua uma rima de Petrarca
Em letra carolina da mais perfeita caligrafia
Mi fluorescente métrica nova
La porole ideal,
As fadas papistas de tule
Lambuzam-se de geleia e compotas
Sonhos: os mais doces, por exemplo
África partiu-se ao meio
Na minha boca África inteira
Na minha boca os bois lavram os campos
Link, link, link, link
IV.
O medo de ficar sozinha, com a deusa da fertilidade a roer-me o
Útero
Os desejos mais fundos – de um operador de gruas
A boca cheia de neve
Os cabelos a arder ao som da música – ruivos – os phones !
As nuvens do sonho são menos bonitas
Flocos de neve em Bruxelas, os anjos esquecem-se
Percorro todos os dias uma auto estrada de prata que vai
Até ao centro de ti
O prazer está em cada átomo
Em cada átomo – o universo
Os pasteleiros batem a massa em toda a Hungria
na Alta Hungria
E na Baixa Hungria
Amanhã os meninos húngaros, os mais gulosos -
os pasteleiros húngaros, os mais tristes
Olha para mim nos olhos
tenho os olhos tristes, dizias
Os mais tristes de todos
Violeta de Gand, 19-10 -2008
Nuno Brito
Um e-mail para um Amigo
Caro José,
Como me pediste e te prometi, aqui estou a dar-te, notícias nossas.
Gostei muito de saber que estás bem e o teu trabalho, aí, no Canadá, é interessante e muito bem pago! Aqui, é o sufoco do costume e que te fez ir para outras paragens.
Já tenho pensado se não seria boa ideia sair deste país cada vez mais pobre e decadente! Estou a ficar farto, José!
Continuas impressionado com as miúdas canadianas? Pelo que me contaste, são giras, loiras mas espertas, desempoeiradas e... gostosas( palavra tua!)! E, tu lá sabes!
Qualquer dia, dou uma escapadela e vou visitar-te. Talvez vá sozinho, o que até nem seria de todo mau, porque a Marina não deve poder ir. Ela é, como sabes, uma mulher muito ocupada, tão activa que, às vezes, quando, de manhã, me diz o que tem para fazer, durante o dia, fico tão cansado que me apetece ir dormir, outra vez!
Ela continua a advogar, dá aulas na faculdade, em Coimbra, aprende Alemão e já se desenrasca muito bem, aperfeiçoa o Inglês que já está mais do que aperfeiçoado, faz yoga, vai ao ginásio e... leva a cadela à escola!
Não te rias José, é assim mesmo!
Lembras-te da cadela que, como tu dizias, era tratada como um bebé? Agora cresceu e vai... à escola !
Já tive de ir também a uma aula, imagina, mas não tenho jeito nenhum e ainda estava mais nervoso do que a "cadela-aluna"!
Alguns maduros e maduras, diga-se, que também levam os cães à escola, aprender, ainda não percebi o quê, organizam passeios e festejam os anos dos bichos, com bolo, champanhe e tudo! Tremo só de pensar o que me aguarda em Fevereiro, quando a canina cá de casa fizer anos! Talvez aproveite e vá ter contigo, que dizes?
A Marina foi há pouco buscar mais uma cadela a um abrigo de cães abandonados. Foi um gesto bonito que até me comoveu!
A cadela que escolheu é muito meiga, agradecida e sossegada. Não vai (ainda) à escola, não está estragada de mimo e até gosto dela!
O pior é que agora é mais uma a dormir no quarto connosco. Esta dorme do meu lado,
no tapete e eu já ía dando um tombo monumental, uma noite, porque me esqueci dela e tropecei miseravelmente! É muito jardim zoológico para mim,Zé!
A mulher da minha vida, quis fazer de mim, jardineiro. Comprou umas plantas e indicou-me onde as queria plantadas, enquanto ía com a cadela-princesa à escola. Fiz o meu melhor mas, pelos vistos, troquei-as todas. Para crescerem mais depressa e mais fortes, pus bastante adubo na raíz. Morreram todas e... a Marina passou-se!!
Ela diz que estou a ficar rezingão e peguilhento! Será, José?
Adoro a Marina.Ela é a mulher que quero a meu lado, muito bonita, inteligente, moderna, independente e activa, como aliás, e tu sabes, aprecio! Mas, amigo, tanta actividade, também é demais!
Temos dias que nos vemos de fugida e quase não conversamos.
Eu, por muito tarde que venha para casa, chego quase sempre primeiro. Aborrece-me chegar e a casa estar ainda fechada e às escuras, com a cadela aos saltos para ir ao jardim. A outra fica sempre lá fora, durante o dia! Há aqui uma certa hierarquia canina, que não me agrada. Mas, enfim...
Jantamos fora ou, mandamos vir a refeição de fora, quer dizer, mando vir a minha refeição de fora, porque a Marina come saladas e fruta. Nem sei como ainda não está às cores, com tanta fruta e salada! Mas, lá que tem uma figura gostosa, como tu dizes das canadianas, isso tem!
Ao Domingo, como nos levantamos tarde, praticamente não se come! Comida de panela, percebes?
E, que saudades eu tenho do bom assado de Domingo, do leite creme, do pudim! E, como eu gostava de chegar a casa, estafado e ter a receber-me, uma casa quente e iluminada, e aquele cheiro bom da comida caseira, apetitosa! E, a Marina serena e sem ter mais uma "coisinha" para estudar ou um "desgraçado" trabalho para acabar, num stress tão grande que, além de esganado de fome, fico também stressado!
Isto, José é só um desabafo, Amigo! Que só posso ter contigo!
Mudando de assunto, que me dizes da nossa selecção? Na minha opinião é um completo desastre! Os gajos parecem umas meninas melindrosas a jogarem de salto alto e saia travada! Parecem umas frágeis gueixas, a arrastarem-se, pelo campo, com passinhos suaves e curtos!
O jogo com a Albânia foi uma vergonha! Ainda não estou em mim! Os jogadores ganham balúrdios mas não vestem a camisola, nem comem a relva! Assim não vamos a lado nenhum!
O nosso Porto é que nos vai dando alegrias e a taça vai ser nossa, outra vez, tu vais ver!
É o FCP do nosso contentamento, José!
Por aqui, têm aparecido uns restaurantes novos, muito simpáticos e uns pubs óptimos para bebermos um copo e conversarmos pela noite fora, quando vieres cá passar uns dias, ao nosso burgo.
Vou terminar por hoje. Cuida-te, diverte-te e namora muito!
Mas, primeiro, certifica-te se a miúda tem cães e jardim. Se tiver, , nem que seja só uma dessas coisas, dá o salto, José! Olha que corres o risco de dormires tu, no tapete e o cão ou a cadela, na cama, com a garota gostosa,(palavra tua!)e teres de plantar florzinhas, no jardim, ao Sábado à tarde!
Quem te avisa...
Um forte abraço, do amigo,
Francisco.
Nota: Receio que este não seja o tipo de texto, politicamente correcto, para figurar num blog, tão bonito e de tanta qualidade, dedicado à Poesia. Se assim for, peço muita desculpa mas, decidi que este 4º e último trabalho de casa deveria ter um registo diferente, deveria ser mais leve, mais descontraído e até mesmo, um bocadinho divertido! Texto mais sério, talvez amanhã!
A verdade, meus queridos Amigos, é que este Francisco que agora vos "fala" se divertiu muito a escrever este e-mail e tem uma tendência danada para ser politicamente incorrecto e... desalinhado!
Maria Celeste Carvalho
Como me pediste e te prometi, aqui estou a dar-te, notícias nossas.
Gostei muito de saber que estás bem e o teu trabalho, aí, no Canadá, é interessante e muito bem pago! Aqui, é o sufoco do costume e que te fez ir para outras paragens.
Já tenho pensado se não seria boa ideia sair deste país cada vez mais pobre e decadente! Estou a ficar farto, José!
Continuas impressionado com as miúdas canadianas? Pelo que me contaste, são giras, loiras mas espertas, desempoeiradas e... gostosas( palavra tua!)! E, tu lá sabes!
Qualquer dia, dou uma escapadela e vou visitar-te. Talvez vá sozinho, o que até nem seria de todo mau, porque a Marina não deve poder ir. Ela é, como sabes, uma mulher muito ocupada, tão activa que, às vezes, quando, de manhã, me diz o que tem para fazer, durante o dia, fico tão cansado que me apetece ir dormir, outra vez!
Ela continua a advogar, dá aulas na faculdade, em Coimbra, aprende Alemão e já se desenrasca muito bem, aperfeiçoa o Inglês que já está mais do que aperfeiçoado, faz yoga, vai ao ginásio e... leva a cadela à escola!
Não te rias José, é assim mesmo!
Lembras-te da cadela que, como tu dizias, era tratada como um bebé? Agora cresceu e vai... à escola !
Já tive de ir também a uma aula, imagina, mas não tenho jeito nenhum e ainda estava mais nervoso do que a "cadela-aluna"!
Alguns maduros e maduras, diga-se, que também levam os cães à escola, aprender, ainda não percebi o quê, organizam passeios e festejam os anos dos bichos, com bolo, champanhe e tudo! Tremo só de pensar o que me aguarda em Fevereiro, quando a canina cá de casa fizer anos! Talvez aproveite e vá ter contigo, que dizes?
A Marina foi há pouco buscar mais uma cadela a um abrigo de cães abandonados. Foi um gesto bonito que até me comoveu!
A cadela que escolheu é muito meiga, agradecida e sossegada. Não vai (ainda) à escola, não está estragada de mimo e até gosto dela!
O pior é que agora é mais uma a dormir no quarto connosco. Esta dorme do meu lado,
no tapete e eu já ía dando um tombo monumental, uma noite, porque me esqueci dela e tropecei miseravelmente! É muito jardim zoológico para mim,Zé!
A mulher da minha vida, quis fazer de mim, jardineiro. Comprou umas plantas e indicou-me onde as queria plantadas, enquanto ía com a cadela-princesa à escola. Fiz o meu melhor mas, pelos vistos, troquei-as todas. Para crescerem mais depressa e mais fortes, pus bastante adubo na raíz. Morreram todas e... a Marina passou-se!!
Ela diz que estou a ficar rezingão e peguilhento! Será, José?
Adoro a Marina.Ela é a mulher que quero a meu lado, muito bonita, inteligente, moderna, independente e activa, como aliás, e tu sabes, aprecio! Mas, amigo, tanta actividade, também é demais!
Temos dias que nos vemos de fugida e quase não conversamos.
Eu, por muito tarde que venha para casa, chego quase sempre primeiro. Aborrece-me chegar e a casa estar ainda fechada e às escuras, com a cadela aos saltos para ir ao jardim. A outra fica sempre lá fora, durante o dia! Há aqui uma certa hierarquia canina, que não me agrada. Mas, enfim...
Jantamos fora ou, mandamos vir a refeição de fora, quer dizer, mando vir a minha refeição de fora, porque a Marina come saladas e fruta. Nem sei como ainda não está às cores, com tanta fruta e salada! Mas, lá que tem uma figura gostosa, como tu dizes das canadianas, isso tem!
Ao Domingo, como nos levantamos tarde, praticamente não se come! Comida de panela, percebes?
E, que saudades eu tenho do bom assado de Domingo, do leite creme, do pudim! E, como eu gostava de chegar a casa, estafado e ter a receber-me, uma casa quente e iluminada, e aquele cheiro bom da comida caseira, apetitosa! E, a Marina serena e sem ter mais uma "coisinha" para estudar ou um "desgraçado" trabalho para acabar, num stress tão grande que, além de esganado de fome, fico também stressado!
Isto, José é só um desabafo, Amigo! Que só posso ter contigo!
Mudando de assunto, que me dizes da nossa selecção? Na minha opinião é um completo desastre! Os gajos parecem umas meninas melindrosas a jogarem de salto alto e saia travada! Parecem umas frágeis gueixas, a arrastarem-se, pelo campo, com passinhos suaves e curtos!
O jogo com a Albânia foi uma vergonha! Ainda não estou em mim! Os jogadores ganham balúrdios mas não vestem a camisola, nem comem a relva! Assim não vamos a lado nenhum!
O nosso Porto é que nos vai dando alegrias e a taça vai ser nossa, outra vez, tu vais ver!
É o FCP do nosso contentamento, José!
Por aqui, têm aparecido uns restaurantes novos, muito simpáticos e uns pubs óptimos para bebermos um copo e conversarmos pela noite fora, quando vieres cá passar uns dias, ao nosso burgo.
Vou terminar por hoje. Cuida-te, diverte-te e namora muito!
Mas, primeiro, certifica-te se a miúda tem cães e jardim. Se tiver, , nem que seja só uma dessas coisas, dá o salto, José! Olha que corres o risco de dormires tu, no tapete e o cão ou a cadela, na cama, com a garota gostosa,(palavra tua!)e teres de plantar florzinhas, no jardim, ao Sábado à tarde!
Quem te avisa...
Um forte abraço, do amigo,
Francisco.
Nota: Receio que este não seja o tipo de texto, politicamente correcto, para figurar num blog, tão bonito e de tanta qualidade, dedicado à Poesia. Se assim for, peço muita desculpa mas, decidi que este 4º e último trabalho de casa deveria ter um registo diferente, deveria ser mais leve, mais descontraído e até mesmo, um bocadinho divertido! Texto mais sério, talvez amanhã!
A verdade, meus queridos Amigos, é que este Francisco que agora vos "fala" se divertiu muito a escrever este e-mail e tem uma tendência danada para ser politicamente incorrecto e... desalinhado!
Maria Celeste Carvalho
sábado, 18 de outubro de 2008
4º trabalho de casa
"Era uma Primavera irregular. O tempo em constante mudança punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a Terra. No interior, agricultores olhavam, apreensivos, para os campos. Em Londres os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu. Mas em Abril era de esperar um tempo assim."
Virginia Woolf "Os Anos"
Como o tempo em Abril o meu nome mudou Hoje fechei e abri guarda-chuvas o resultado é simplesmente Maria... As três Marias!
1ªMARIA
Jovem Maria
Deslizo ainda junto a ti
encolhida nessa asa
onde a pele morena
de mão maior
me espaça os dedos
em ondas soltas
distendidas
na entrega louca.
Este Sol exterior no brilho ofusca
mas na redoma ainda sinto
o morno sopro de beijos
os sussurros e arrepios
num afagar de pomba
de bico escondido
onde me aninho.
Nesta rua não sou eu...
desprovida de sombras;
sete vezes mais leve
em cada passo levito...
Mas não te vendo
em cada minuto que passa
no desejo, na saudade,
sou a personagem aflita
no filme tremido,
na nitidez certa
de te querer
uma outra vez
à minha espera!
Maria Levita
2ª MARIA
Faz-se tarde Maria
Não gosto do cinzento olhar
quando abraças ao fim do dia.
Procuro o sorriso distante
de fugidas de jardins
entre frases aos molhos,
gotas de orvalho frescas,
melodias de silêncios
entre copas e arbustos,
às escondidas curiosas
dos chapéus vigilantes!
Soltavas beijos em qualquer hora,
perseguias os aromas,
destruias rotinas no desafio
dos sentidos...
e agora onde páras, onde estás
meu amor das Primaveras!
Quero de novo os papéis queimados
de ornadas fantasias de poemas...
ser a musa, a deusa, a louca...
Onde estás!
Tenho a pressa e o desejo
de amores-perfeitos,
margaridas, dos jacintos
colhidos nos passeios
de Domingos,
entre raios de brilho,
relâmpagos de mar!
Porque não me vens de novo,
vestido de orquídeas, de sapatinhos,
de rosas brancas, vermelhas, laranjas...
(antes que venha a noite),
visitar?
Não te quero assim!
Onde estás?... Onde estás?
Maria da Esperança
3ª MARIA
Memórias de Maria
Fecho o cesto de verga,
o vime da memória da tua ausência.
Não era p'ra ser assim
"Primeiro eu só depois tu"
Mas dizias afagando rugas:
"...espero por ti sentado
na manta de lã, quadrados azuis,
xadrez,
num relvado, junto a uma cesta
de flores... lá...
espero por ti
a meu lado..."
Saíste de mim neste mundo
Mas sei onde estás...
no outro lado do berço,
num baloiço, num embalo,
adormecido...
no Paraíso!
Guardo alegrias, consolos,
a companhia nos colos que
partilhámos...
Aqui...ainda és meu...
Ainda estás!
Não choro mais!
Maria do Céu
Virginia Woolf "Os Anos"
Como o tempo em Abril o meu nome mudou Hoje fechei e abri guarda-chuvas o resultado é simplesmente Maria... As três Marias!
1ªMARIA
Jovem Maria
Deslizo ainda junto a ti
encolhida nessa asa
onde a pele morena
de mão maior
me espaça os dedos
em ondas soltas
distendidas
na entrega louca.
Este Sol exterior no brilho ofusca
mas na redoma ainda sinto
o morno sopro de beijos
os sussurros e arrepios
num afagar de pomba
de bico escondido
onde me aninho.
Nesta rua não sou eu...
desprovida de sombras;
sete vezes mais leve
em cada passo levito...
Mas não te vendo
em cada minuto que passa
no desejo, na saudade,
sou a personagem aflita
no filme tremido,
na nitidez certa
de te querer
uma outra vez
à minha espera!
Maria Levita
2ª MARIA
Faz-se tarde Maria
Não gosto do cinzento olhar
quando abraças ao fim do dia.
Procuro o sorriso distante
de fugidas de jardins
entre frases aos molhos,
gotas de orvalho frescas,
melodias de silêncios
entre copas e arbustos,
às escondidas curiosas
dos chapéus vigilantes!
Soltavas beijos em qualquer hora,
perseguias os aromas,
destruias rotinas no desafio
dos sentidos...
e agora onde páras, onde estás
meu amor das Primaveras!
Quero de novo os papéis queimados
de ornadas fantasias de poemas...
ser a musa, a deusa, a louca...
Onde estás!
Tenho a pressa e o desejo
de amores-perfeitos,
margaridas, dos jacintos
colhidos nos passeios
de Domingos,
entre raios de brilho,
relâmpagos de mar!
Porque não me vens de novo,
vestido de orquídeas, de sapatinhos,
de rosas brancas, vermelhas, laranjas...
(antes que venha a noite),
visitar?
Não te quero assim!
Onde estás?... Onde estás?
Maria da Esperança
3ª MARIA
Memórias de Maria
Fecho o cesto de verga,
o vime da memória da tua ausência.
Não era p'ra ser assim
"Primeiro eu só depois tu"
Mas dizias afagando rugas:
"...espero por ti sentado
na manta de lã, quadrados azuis,
xadrez,
num relvado, junto a uma cesta
de flores... lá...
espero por ti
a meu lado..."
Saíste de mim neste mundo
Mas sei onde estás...
no outro lado do berço,
num baloiço, num embalo,
adormecido...
no Paraíso!
Guardo alegrias, consolos,
a companhia nos colos que
partilhámos...
Aqui...ainda és meu...
Ainda estás!
Não choro mais!
Maria do Céu
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Nu Masculino
Olho-me ao espelho na minha nudez
A barba firme que me enfeita o rosto
Os ombros largos da insensatez
Com que o desejo me consome o gosto
Sou forte, pai, líder, chefe ou herói
Cumpro o destino da força maior
do musculado corpo sem temor
Mostro só força mesmo quando dói
Tudo o que esperam talvez possa dar
O corpo erecto na vida a lutar
Se o meu destino é o penetrar
na dor que vejo sem poder olhar
nos olhos guardo lágrimas em par
mas não me deixam nem sequer chorar!
A barba firme que me enfeita o rosto
Os ombros largos da insensatez
Com que o desejo me consome o gosto
Sou forte, pai, líder, chefe ou herói
Cumpro o destino da força maior
do musculado corpo sem temor
Mostro só força mesmo quando dói
Tudo o que esperam talvez possa dar
O corpo erecto na vida a lutar
Se o meu destino é o penetrar
na dor que vejo sem poder olhar
nos olhos guardo lágrimas em par
mas não me deixam nem sequer chorar!
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