sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tripas coração tantas memórias


Tripas coração tantas memórias 
O mar longínquo dança-lhe no olhar 
É longe o porto para o alcançar 
E oculta grande parte do caminho. 
O Infante sabe-o mais que ninguém,
 
E o que é preciso também e solta a 
sua súplica – E a carne para levar? 
São muitas as bocas a comer, e os 
Nautas hão-de ser heróis por dar a 
Saber ao Mundo novos mundos 
Estendendo ao longe o nosso Império. 

Quem não faz das tripas coração 
Para um tão nobre intento invicto? 
– O Porto empunhou o estandarte:
 Repartiu e escolheu a menor parte. 

Assim pelo coração se fez tripeiro –
2011.03.15
José Almeida da Silva

terça-feira, 26 de abril de 2016

imagem de 

Envelheceu a cama
mas os meus cabelos escurecem
a pele fica mais lisa
as ideias curiosas como criancinhas
saltitantes de olhos esbugalhados
porque tudo isto é um milagre.
E a cama rangendo
sempre que me viro –
gosto de deitar-me de um lado
depois do outro repetidas vezes
na noite longa
– um lado e depois o outro.
Às vezes durmo de barriga para baixo
como quando era pequena.
Envelhecer é sonhar com
ser criança.

A cama queria ser berço.
Eu queria caber no colo quente da minha mãe.

Marta Pais de Oliveira
publicado AQUI 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

eu do avesso

Digital Art: Federico Bebber

o avesso do meu avesso não sou eu é o avesso
do avesso de eu.
na matemática é diferente
a negação da negação é uma operação simples
e peculiar e única que não acrescenta
nem retira atributos.

mas com o avesso do meu avesso nada se passa
assim. o meu avesso invade-me serve-se
dos fantasmas que me habitam e usa a sua magia
para me ampliar o desassossego. e o seu avesso
que é o avesso do avesso de eu
transmuda com a mesma agudeza
o efeito do anterior. por isso cada vez mais
eu me confundo
irremediavelmente
com o meu desassossego.

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Livro para Luaty Beirão

A liberdade começa nos teus braços 
Quando olhas o mundo de asas abertas
E vais à descoberta das estórias 
Escondidas num livro de gestos proibidos.
Sacodes os ruidos que te abafam
E escutas os sons das silabas em movimento
Há palavras estendidas no chão vermelho
Da terra quente
E tu lês,
até ferirem teus olhos,
A distância que vai de ti ao sopro longinquo de um rubro cravo
De abril do outro lado
Do mar português _
E no rosto vendado
Da verdade
Escreves
quanto dói
A liberdade

ana margarida borges

terça-feira, 5 de abril de 2016

Leite-Creme


Mostrar-te Leite-creme 
é um prazer - e fácil: 
açúcar à colher, 
leite a ferver, 
em poalha a farinha 
e muito grácil.

Na cozinha, 
os teus olhos: 
duas chávenas meias
de razão.
As palavras totais 
e todas claras. 

Não te posso, infinita, 
proteger, 
evitar-te o fogão. 
Mentir-te sobre, às vezes, 
minha filha, 
a vida: 
um batedor sem varas

Só deixar-te
poalha de farinha:
amor 
em Via-Láctea. 


Ana Luísa Amaral in Epopeias 

domingo, 3 de abril de 2016

Adoro ler-te

Imagem: Fiona Banner 

Adoro ler-te,
nas entrelinhas das tuas frases.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus gestos.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus toques.

Adoro ler-te.

Teresa Freitas, in  therasia 

sexta-feira, 25 de março de 2016


Tenho as mãos cheias de dunas
e saudades
As mãos cheias de possibilidades
e um mar para navegar.

As dunas entre mim
e as possibilidades.

Tenho uma inquietação idunável
e um mas … [sempre um mas]
a impedir que
o mar se faça
futuro

Teresa Almeida Pinto
Foto de Filipe Carneiro, selecionada pelo FineArt-Portugal

quinta-feira, 24 de março de 2016

ilustração de Chris Mars

Doí-me como te torturas,
descarnando-me da tua pele,
no ensejo vão
de me fazeres
ferida

Teresa Almeida Pinto 

sexta-feira, 18 de março de 2016

pedaços

Imagem de Derya Qasem 

hoje
colo os pedaços das memórias
enlaçados
ficam poemas de Pessoa e Sena
em meadas de aço
e aguarelas de Cruz suspensas
em azul de espanto
e as cantatas de Bach e as árias de Puccini
e tantas e tantos outros

e ficam os códices que toquei
com luvas brancas
irrepreensivelmente limpas
que me transportaram a passados
remotos

ao todo faltam porções de vida
diluída no tempo
e sobram fragmentos de arestas ácidas
que recupero dos momentos
sombrios

impossível desconjuntar esta amálgama
imperfeita
de ferro e algodão

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite

Ana Luísa Amaral  traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite. 
A Ronda da Noite

(clicar no link para aceder ao video)

sexta-feira, 11 de março de 2016

NECESSIDADES



é necessário algum caos como
gavetas abertas, um garfo entre as colheres
despentear o mundo com toda a certeza
também beijar os olhos logo ao nascer
falo de todos aqueles que for possível, sim
esquecer o que esperar se tudo são
lírios e delírios
e o que há mais

é necessária a fúria de uma onda enorme
olha como transforma quem a vê da praia
ou do farol ou do carro
podem ser crianças besuntadas de gelado
podemos ser nós a secar lembranças na pele, somos
e apesar do medo do abismo
queremos vê-lo para contar a todos como é
mas a nós não

são necessárias palmeiras altas para subirmos
a essa ideia que se escondeu no fim de tudo
num sonho dentro de um sonho e outro
onde pedimos licença mas somos selvagens
animais cheios de dúvidas, tantas
– não arrumes o garfo
– não?
– sim


Marta Pais de Oliveira

domingo, 6 de março de 2016

Foi assim.



Foi assim.  
No silêncio da história. Não poderia ser de outro modo.
Guardámos a lua.
Em caixa de papel mistério. E laço de coração.
Ficou-nos a memória.
Foi assim 

Teresa Freitas


Soneto de Lentilhas


  Picar uma cebola com cuidado
  Colocar com azeite num tachinho
  Levar a refogar um bom bocado
  Até ficar com toque coradinho.
 
  Depois de preparado o refogado
  Retirar as lentilhas do frasquinho
  Juntar-lhe a salsa e o pão ralado
  E três ovos batidos, mas pouquinho.
 
  Nozes picadas leite ao natural
  Em 3 -1 -2- 1 -1- medida certa
  Vão completar a parte principal
 
  E antes de ir à fornalha bem esperta
  Uma pitada de pimenta e sal.
  Eis aqui a fórmula descoberta!


M. Céu Silva (SLV)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


A não perder:

DIA 26, SEXTA-FEIRA
22h00 - Mesa 9
O escritor mente, o leitor acredita

Álvaro Laborinho Lúcio
Ana Luísa Amaral
Jaime Rocha
Javier Cercas
Mário de Carvalho
Carlos Quiroga-Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)



DIA 27, SÁBADO
10h00 - Mesa 10
Quantos livros tem um livro

Carmo Neto
Cristina Valadas
João Paulo Sousa
Raquel Patriarca
Vergílio Alberto Vieira
João Gobern - Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)

Programa Aqui