terça-feira, 27 de novembro de 2018

1. Silêncio

Verso ante verso
espreito a hora
na demora do mês.

Verso ante verso 
espreito o coração
espera quente o soneto.

Verso ante verso
espreito a mesa
cheia de afecto.

2. Reencontro

Reencontro velhos poetas
Companheiros de sonhos e versos
Sala-abraço quente
irmãos de mesa e prosa

Reencontro guardadores de tempo
Trazem ao colo a saudade que embalam em silêncio
para que se possa ouvir o amor no cantar do vento

Reencontro velhos poetas
estes que me ouvem
Sala-abraço doce
irmãos de sonhos e versos

Reencontro guardadores de tempo
Trazem ao colo a verdade que embalam em silêncio
na palavra em movimento

Reencontro velhos poetas
novos guardadores de estrelas
que me levam numa delas.

Liliana Castro 

Empurro o silencio________________________até ao limite da folha.
Sem som nem silaba,
apenas a sombra do silencio
aguarda as palavras que virão
discriminação____corrupção____poluição____
A cada palavra a folha grita por um minuto de silencio.

Ouso uma virgula – um pequeno silencio no texto,
e teorizo: a humanidade nasceu cega e surda,
num parto de excessiva luz e ruído.
Big Bang … depois o silencio
Deus silenciou ao sétimo dia
Só assim se compreende Auschwitz____Srebrenica____Alepo____
e todas as geografias distantes do coração e da razão.
Um minuto de silencio não basta
e ficar calado é mais perigoso
que arriscar uma voz.

A ciência tenta apurar se o silencio tem sexo, idade ou cor.
As conclusões são imprecisas, mas aceita-se como empiricamente correto
que á noite o silencio é mais negro,
mais pesado,
mais difícil de afastar da folha em branco.

Escrevo: “Dó” sustenido em tom pianíssimo,
para não acordar o silencio das crianças que dormem com fome
e das que não dormem, com medo de quem as silencia.

Escrevo: fascismo____islamismo____individualismo____
Há gritos em fila á espera de se fazerem ouvir
Há gritos atormentando o planeta, no sentido dos ponteiros do relógio
e já nem fronteiras acatam.
Não há fronteiras – só divisões desorientadas

Um minuto de silencio é cada vez mais longo
mais cansativo
mais inútil.
A utopia está em silencio
e o poema também.
Teresa Almeida Pinto


Não queres fazer o silêncio / comigo?
Ana Luísa Amaral

Pediste-me um silêncio solidário.
Acolhi-o. Que mais poderia fazer?
Um silêncio assim de mão dada
é um diálogo para sempre –
uma espécie de amor sem palavras,
entendimento aceso que dura todo
o tempo do caminho.

Um livro simples a escrever-se
como um tricô amando a agulha e o fio –
intensa claridade do belo.

Sacudamos, pois, a distração e o cuidado
dos dias e, silenciosos, sigamos de mãos dadas,
porque é tempo de acontecer o reencontro
do silêncio. Do teu e do meu, enlaçados
nesta inusitada aliança.

Não falamos, mas encorpa-se o poema –
esse modo singular de parar o tempo
e dar eternidade à música do silêncio.

Será, então, contínua a sintonia
e dela soará a sua voz
porque são raros os silêncios iluminados
para calar o intenso ruído do mundo –
[2018.11.23]
José Almeida da Silva

Um lugar para o silêncio


Procuro um lugar próprio para
o silêncio Um refúgio de infinita
paciência Uma muito curta cadeira onde possa
sentar-me e estar parada –
no redor do mundo

Esse lugar perfeito com vidros voltados
para a chuva onde quero
desenhar em segredo
os esboços e os vocabulários
de todas as conversas em que
havemos de perder-nos As línguas
intactas e as ideias todas potáveis

Um lugar antigo e intocado
de equívocos nenhuns Onde a distância
de olhar vem desacompanhada
de qualquer outra espécie de distância

Procuro um lugar como uma janela aberta
em portadas feitas de fogo e de mar Um lugar
sem esquecimento possível

Trago um mapa defeituoso e desfocado e –
por isso Pelo carrego de culpas e medos que
nunca mais crescem e me desabitam a alma –
sigo em passos de tropeço lento
nutridos de inépcia e intuição em partes
talvez iguais É assim que
no meio do silêncio
procuro um lugar de reencontro
Raquel Patriarca

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Som que os Versos Fazem ao Abrir de 21 Nov 2018 - RTP Play - RTP

O Som que os Versos Fazem ao Abrir de 21 Nov 2018 - RTP Play - RTP

Resultado de imagem para manuel antónio Pina
Fotografia retirada da revista Visão

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça' 

A música e o reencontro dos sonhos



 



Lilla Cabot Perry (EUA, 1848-1933)

há músicas que nos invadem os ouvidos
e descem pelas cordas da alma
como as ondas do mar em milhares de gotas
brancas como a lua
em miríade leve, pura, húmida.
um olhar de mil versos e dez mil palavras –

 escuto, deitado, a longitude do som nas latitudes do corpo
a intersecção do oblíquo e de um ritmo síncrono
o reencontro dos sonhos, as sintonias das ilhas -

porque há dias marcados e claridades sem labirintos
onde teias completas de bordados
tecem o improviso, o juntar de dedos, o fechar de braços 
o unir de lábios em planícies indizíveis -

nas mãos coloco as linhas dobradas da mente
os quadros sem a negritude do ressentimento
o voar dos pressentimentos, as histórias das cidades:

espumas que procuram asas na amplitude de voarem
como os pássaros –


josé ferreira 

domingo, 25 de novembro de 2018

Novembro: em silêncio junto ao vidro





a chuva incisiva percorria as formas do jardim
trazia o ruído às grandes árvores: refúgio de múltiplas vidas
como as formigas e o nosso esquilo:
descendo e subindo, descendo e subindo
na distância inclinada do teu olhar, em silêncio e sabedoria
perante o que não se explica, se grava e se guarda
como momento significativo –

Novembro é um mês a caminho e o mês do armistício.
e lembro-me do discurso do dia onze, lúcido e sem nacionalismos
porque já houve um mundo sem sono em dias longínquos –

uma centena de anos. uma centena de anos.
difícil escrever poemas quando ressuscitam os instrumentos mortíferos.
os olhos fecham, as trincheiras de uma guerra feroz gritam
porque os generais não sendo modernos já não subiam aos montes
e na segurança de um fumo de charutos
decidiam a vida e o sacrifício de quem plantava nabos e hortaliça –

o mundo de 18 não dormia, eram longas as noites, eram longos os dias –

quando a chuva parou, clarearam os novelos escurecidos, e o nosso esquilo subia
atravessava as linhas de luz naquela silhueta levantada de unhas pequeninas
parava e subia

transformava-se a árvore em montanha de silêncio
povoada de inúmeras gotículas - um quadro magnífico!
a natureza supera-se sempre sem a necessidade de liturgias
apenas o homem tem ópio na alma quando o poder em pernas tortas caminha –

o nosso esquilo tinha pressa de novidade: uma outra árvore, um outro ponto de vista
de um mundo que não vê globalizado: não sabe do Brexit nem das tiranias Sauditas
da ameaça dos populismos, dos líderes imprevisíveis, nem das falsas notícias.
os esquilos não ousam mudar a duração das noites e dos dias
nem percebem nada de mundos líquidos onde nascem profetas de utopias
como um super-homem de economias e tecnologias.

espreitando no silêncio bom de uma sala morna
perante o ecrã de areia e sílica, na transparência súbita de um dia ocasional
os teus olhos sorriam.
esquecida de um teto e de um chão, sossegada, tranquila
viajavas na planície do pensamento, no intervalo entre as palavras:
como Sophia eras dona da história de um jardim: sublime, raro, irreplicável –

em silêncio junto ao vidro o mundo podia adormecer
não se ouviam os braços assustados da natureza.

mesmo quando se despediam de folhas coloridas –


 josé ferreira 23 de novembro de 2018









domingo, 24 de dezembro de 2017

Allegro

Precisa de um berço o Menino
que está para nascer,


Precisa de um coração solícito
e acolhedor,


Vai revelar-se na grande Noite,
e transborda de Amor –


          Natal, 2017
José Almeida da Silva



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"O MAR PARECE AZEITE” ATELIER DE POESIA COM ANA LUÍSA AMARAL

“A poesia começa quando um idiota olha para o mar e diz: «parece azeite»”. 
O Atelier de poesia
conduzido pela poeta Ana Luísa Amaral, realizar-se-á nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018, e terá a duração total de 10 horas: Sábado dia 27, das 10:00 ás 17:00, com intervalo para almoço, e Domingo dia 28 de Janeiro das 10:00 ás 14:00.

terça-feira, 21 de março de 2017

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
7-11-1915

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
  - 87.
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.


Porque é dia de poesia, com carinho, para os companheiros poetas, um abraço do José Almeida da Silva

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A Invenção do dia claro (Excerto)

Caderno de Almada Negreiros

(Texto de Almada Negreiros em português original)
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.

 * * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

 * * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

lady Orlando

                                         Fotografia Rodney Smith

lady Orlando, quando uma porta se abre, abre-se um centro.
o contexto perde nitidez na descoberta de um interesse, um segredo, um desígnio.
é humano, e o que é humano interessa.
os pássaros voam e não compreendem, e o mesmo acontece
a todos os animais teleologicamente impávidos pela sua natureza.
o humano agita-se nesse vento e sublima  –

será o poema que te faz atravessar fronteiras:
esse rebuliço de palavras escritas no seio
aprisionado de manchas antigas e linhas cruzadas
nascido no campo e dirigido pelas urbanidades
entre a revolta Otomana e o exagero ritual das embaixadas?

lady Orlando, a semana passada, precisamente à uma da tarde, não havia árvores.
nem o pinhal alteado em direção à margem.
nem mesmo ervas sem geometria, rebeldes e propícias a um equilíbrio de gotas de água.
corrias de forma precisa pela ruas aglomeradas de Londres, em direção ao cabo  Horn
impulsiva e fremente, levando na memória palavras, as palavras exatas
que vencem distâncias e voam, voam sem asas –

procuravas, procuravas
uma outra porta, um balcão e a velocidade de um funcionário
na transformação técnica das palavras: a telegrafia da cidade.
a técnica é humana, e por ser humana interessa.
corrias, corrias
em tensão crescente, desproporcionada
entre o desejo e a negação da realidade –

lady Orlando, ninguém te descobre, alcança, domina
quando és farpa e singras
através de portas sólidas ou invisíveis
nessa decisão fática. uma inevitável natureza assim o determina –


quando atravessas essa porta, lady Orlando, sentes o fogo delirante.
a metamorfose aproxima-se, como se de novo Sasha e o navio
a necessidade indizível de mudança: os calções pelo vestido –

tantos eus, poéticos e indescritos, lady Orlando –

a porta, um centro, vozes, miríades de luzes
um uivo, submissão e a extensão de um domínio –

 josé ferreira  7 fevereiro 2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Clandestinidade



Horas nocturnas de libertação.
Todos os carcereiros na prisão
Do sono.
Dono 
Dos sentimentos, 
Do instinto 
E da razão,
Sonho, 
Penso
Imagino.
Faço o pino
Deitado.
E às vezes é-me dado
Neste desatino, 
Por invisíveis mãos
A que nem sequer posso agradecer,
Um poema obscuro
Que de manhã, à luz  do sol, procuro
Claramente entender

Miguel Torga Diário XIV  (1987)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

diálogos e fotografia



Fotografia Rodney Smith

                                             
naquele dia houve um diálogo, lembras-te? com as margens e com o rio:
sempre me avisaste do perigo dos caminhos líquidos
e sempre te perguntei: a solidez existe?

essa pergunta é difícil - disseste
cruzaste a perna, e imergiste numa auréola egoísta
um pensamento não visível pelo som e pela escrita
um silêncio incómodo. a pergunta caiu para dentro do rio. 

lembro-me, mas não se vê no preto e branco da fotografia – digo

a fotografia apenas permite a fronteira rígida de captar instantes
e gravar indícios, para que ressuscitem
se forem válidos e significativos –

sabes, a memória estala o verniz, cria traços finos, antique.
constrói os diálogos perdidos com as sensibilidades aflitas.
e nunca são autênticos, os diálogos e os espaços, as torres e o rio.
o inconsciente faz estalar o conflito: cada um constrói em si
as visitas da Lua, os meses e os anos, nesse fluir cíclico –

quando surgiu a fotografia não houve resposta
e sendo assim a pergunta persiste:
a solidez existe?

não me lembro da pergunta. não sei se a solidez existe, nunca lhe descobri a matéria
nem a ideia que a domina. não a sinto e não a sentes e sendo assim é difícil – dizes

talvez a única solidez que a filosofia admite seja a permanência dos mitos
o eterno retorno de uma ilusão, como a memória que se revisita. mas não é resposta.
uma divagação apenas – digo

e voltamos de novo à incerteza e aos caminhos líquidos
ao elogio das razões sensíveis –

provavelmente a solidez não existe e o mundo é líquido.
não é segura a longitude das torres quando as nuvens são planas:
um teto branco sem azul na cor dos horizontes –

talvez exista uma ponte imaginária entre os teus pés e o céu
entre os meus pés e o céu. uma ponte permanente em movimento contínuo.
uma ponte móvel de margem fixa
que em ti se constrói e em ti termina –

que em mim se constrói e em mim termina –

mas não é resposta, é apenas uma ponte de partida –

josé ferreira