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sábado, 18 de junho de 2011

Verão o Inverno

Chove
A mesma água escorrida
Do dia, do olho e da ferida
Num dilúvio indistinto
Neste dia e no que sinto

Cá como lá
Assobia
Um vento que desafia
A verticalidade do ser
Pontes, ossos e dentes
Tremem forças indiferentes
À vontade de fazer

Trago dentro o mau tempo
A nuvem negra, o relâmpago
O tsunami e o ciclone
E quando de dentro me escapo
Abro a janela e destapo
Mais um negro pensamento
Que me trata pelo nome

E se da janela aceno
Vejo a cena tal e qual
Cá dentro mora o Inverno
Lá fora o temporal

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sem a loucura...?

Vivo
Sem a loucura do concreto
Moro
A insanidade do incerto
Tenho razão para acreditar
Que a cabeça é um lugar
E habita nela uma Escola de Samba

Voam
Pensamentos dos pombais
Partem
Do cérebro cacos cerebrais
Tenho motivos para sentir
Que a cabeça anda a fugir
E corre nela uma Escola de Samba

Varro
O sono dos últimos dias
Solto
Declarações, sermões, orgias
Masco o real em ultra-sons
Pinto a cabeça de outros tons
E soa nela uma Escola de Samba

Valem
Tanto mais estes convictos
Velam
Pelo real e por seus mitos
Lanço estilhaços de indiferença
Sua cabeça minha sentença
Parece ela uma Escola de Samba

Assumo
O carnaval em pleno Inverno
Consumo
O dia qual pedaço eterno
Tenho loucura de viver
E a cabeça sem saber
Só sabe dela – é uma Escola de Samba

O Segredo

A medo vivo, a medo escrevo e falo
António Ferreira (1528-1569)



Dizer, numa árvore deixar
Ao ouvido um segredo
Oco tronco tranca o medo
Do indizível
Segredo

Sussurrar o sentir
Num velho vulto vazio
Lavar o peso do peito
Nesse rio

Caixa-forte dos afectos
Meu amor depositado
O segredo que no peito
É mal guardado

domingo, 7 de dezembro de 2008

I.R.S (Investida Ruidosa ao Silêncio IMPOSTO)


Que farei quando tudo arde
Sá de Miranda (1481-1558)

Sobem protestos
Em alto som
Esmagas o grito
Abafas o tom

Asfixias

Trazes de volta
O silêncio imposto
Volta a revolta
Medos no rosto

Angustias

Tua existência
Numa fogueira
Tua insistência
Queimar inteira

Nós queremos

Teus olhos surdos
Sinal de aviso
Os teus discursos
Sem improviso

Queimaremos

Tua arrogância
Numa lareira
Pôr-te à distância
De que maneira,

Nós faremos?

Talvez assim
Neste poema
Ardas por fim
Saias de cena!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Dizem que não sabiam quem era

what’s in a name?
"William Shakespeare, in "Romeo and Juliet" (c. 1595)

Usava roupa como a noite escura
Voltava a tempo do telejornal
Passava pelos rostos com candura
Sonhava em morar na marginal

Pintava a cara logo de manhã
Subia a saia como quem procura
No pescoço a velha marca da maçã
No peito um só rasto de ternura

Soltava a dor só pela ranhura
Prendia o olho de escorrer de sal
Fingia ser actriz de uma aventura
Diferente ou de frente e tal e qual

Sorria os lábios feitos de amanhã
Tardava um sorriso ao fim do dia
Trincava quatro amores e uma maçã
Trazia restos de uma noite vazia

Foi vista última vez no tal café
Cruzava a perna em laço de presente
E antes que alguém dela desse fé
Gastou-se no meio de toda a gente

Vertia roupa como a noite fria
Trazia os lábios postos na manhã
Despia a saia como quem queria
Adão e a velha marca da maçã

Brindava à dor só por mais um dia
Fechava o olho a escorrer de sal
Pisava os restos com melancolia
Pintava a cara no último ritual

Mordia os beijos gastos no divã
Tardia num sorriso inacabado
Tomava quatro amores e uma manhã
Soltava a dor com cheiro a guardado

Foi vista última vez com o tal batom
Atava a perna em laço de presente
E antes que alguém emitisse um som
Calou-se no tal café de tanta gente

domingo, 23 de novembro de 2008

Eu quero…o meu amor não tem

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
no interior do meu peito
São sempre linhas que a ti me tecem
recusando o que é desfeito

Mas, hoje acordei cheia de sede e de
importância nenhuma
E vi o amor embater numa parede e
esbater-se em espuma

Até a voz do mar se torna exílio
E o tom mais afinado asfixia
Se surdos aos apelos de auxílio
Somos nós-a-sós, dia-a-dia

Mas, hoje acordei cheia de sede e de
estranhas vontades
E vi o amor num mortal sem rede
Partir em meias-verdades

O meu olhar é nítido como um girassol
E a luz que nos rodeia é como grades
(Cá dentro querido, sinto muito, mas ainda
ainda sinto o sol de outras tardes)

Por isso, hoje acordei cheia de sede e de
vontade de correr
Porque o meu amor já não tem
Tempo a perder