Nas páginas brancas
- A paixão
E fora a solidão
Nas páginas brancas
- Sopra o vento em fúria e a possessão
E fora a solidão
Do outro lado
Depois do mar: um poema
Nas páginas brancas
- A possibilidade -
E fora a solidão
Elza Gouveia Durão (Pi)
Porto, 30 de Janeiro de 2014
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 15 de junho de 2011
- Que as andorinhas não choram
I
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno
II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno
II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Meninas
Menina princesaDe porte altivo
Brilha toda em ouro
Tem o mundo em volta
Para deslumbrar
Menina menina
De rosto cansado
Vive para dar
Uma vida ao lado
Menina sem luz
Cai a névoa densa
Que o pintor desenha
Cai sobre princesa
Cai sobre menina
Cai como num sonho
A querer transformar
Menina ou princesa
- Em criança
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Adeus
Partiu o comboio
Vi-o dançar no trilho
Despenteado
As árvores ao lado
Caindo as folhas
Como em mim
O comboio desapareceu
E as árvores ali despidas
Como eu
Em pé
Eu na estação
E a solidão
E eu nua de ti
Comboios partem, comboios vão
E o sentimento cresce lentamente
Um resto um sedimento
Comboios chegam
E eu na estação
O vento varre os medos dos outros
Eu sou transparente
Fico ali
Como tronco de árvore
Despida de ti
A Primavera há de vestir
As árvores de todas as flores
Mas eu sem nada
Ali na estação
Sei que há comboios que vêm e que vão
Mas é certa esta dor
E eu já não te visto, nem te tenho visto
Nem Outono, nem Inverno, nem Verão
Visto sempre e só a solidão
E a longa certeza dos dias compridos
Vi-o dançar no trilho
Despenteado
As árvores ao lado
Caindo as folhas
Como em mim
O comboio desapareceu
E as árvores ali despidas
Como eu
Em pé
Eu na estação
E a solidão
E eu nua de ti
Comboios partem, comboios vão
E o sentimento cresce lentamente
Um resto um sedimento
Comboios chegam
E eu na estação
O vento varre os medos dos outros
Eu sou transparente
Fico ali
Como tronco de árvore
Despida de ti
A Primavera há de vestir
As árvores de todas as flores
Mas eu sem nada
Ali na estação
Sei que há comboios que vêm e que vão
Mas é certa esta dor
E eu já não te visto, nem te tenho visto
Nem Outono, nem Inverno, nem Verão
Visto sempre e só a solidão
E a longa certeza dos dias compridos
Guernica - O Cavalo
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Al di la

Al di la
Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata
Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo
Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual
Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal
Pi
Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata
Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo
Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual
Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal
Pi
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Outros olhos
Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Sá de Miranda
Antes era a fome
Os dedos secos, nodosos e escuros a remexer
A terra
Não havia água como para os marinheiros
Não havia ar como para os pensadores
Rostos caídos, olhares apagados, fronteiras cerradas
A noite durava um longo dia
E uma cantiga baixinho
Para consolar
Da terra brotavam coisas
Laranjas, pipas de vinho, brincos de cerejas
Uma barcaça traçava as águas do rio
A fome não passava
O abutre alisava as penas
As almas gritam
A liberdade!
Primeiro o subsidio, depois o salário, agora o empréstimo
Da terra brotam coisas
Enchem os camiões nas estradas
- Deite-se metade fora!
Manda a lei
E os meninos ao longe com estômagos do tamanho de ervilhas
Têm fome
Os abutres alisam as penas
Dizem
- As fronteiras não existem
- O mundo está na palma da mão
Imagens
A violência já não se faz de olhos inchados e peles purpúreas
Penduram-se as almas espetadas em pregos toscos e enferrujados
Que doem
No Silêncio
Que farei quando tudo arde?
Rasgo a folha de papel à minha frente
Fecho os olhos
Com o peso do mundo nas pálpebras
Viajo para o interior de mim
Limito-me
A acreditar
Abro os olhos,
Outros,
Pego no lápis e recomeço.
Os dedos secos, nodosos e escuros a remexer
A terra
Não havia água como para os marinheiros
Não havia ar como para os pensadores
Rostos caídos, olhares apagados, fronteiras cerradas
A noite durava um longo dia
E uma cantiga baixinho
Para consolar
Da terra brotavam coisas
Laranjas, pipas de vinho, brincos de cerejas
Uma barcaça traçava as águas do rio
A fome não passava
O abutre alisava as penas
As almas gritam
A liberdade!
Primeiro o subsidio, depois o salário, agora o empréstimo
Da terra brotam coisas
Enchem os camiões nas estradas
- Deite-se metade fora!
Manda a lei
E os meninos ao longe com estômagos do tamanho de ervilhas
Têm fome
Os abutres alisam as penas
Dizem
- As fronteiras não existem
- O mundo está na palma da mão
Imagens
A violência já não se faz de olhos inchados e peles purpúreas
Penduram-se as almas espetadas em pregos toscos e enferrujados
Que doem
No Silêncio
Que farei quando tudo arde?
Rasgo a folha de papel à minha frente
Fecho os olhos
Com o peso do mundo nas pálpebras
Viajo para o interior de mim
Limito-me
A acreditar
Abro os olhos,
Outros,
Pego no lápis e recomeço.
domingo, 30 de novembro de 2008
O que há num nome?
“what’s in a name?”
(William Shakespeare, in Romeo and Juliet)
(William Shakespeare, in Romeo and Juliet)
Sou melodia de cítara
Sou musa dançando nas ondas
Sou flor em ramo de princesa
Sou sorriso em rosto de criança
Sou raio de sol doirado
Sou pedaço de luar
Sou folha branca de papel
Sou nenúfar numa tela
Sou tudo isto e muito mais
No entanto
Apenas respondo quando chamas o meu nome.
O que há num nome?
"what's in a name?"
(William Shakespeare, Romeo and Juliet)
O que há num nome?
Beleza, matéria, poema em verso
Feito de todas as partículas do Universo
Por que chamar, a que apontar
O que tocar, por quem chorar.
Caleidoscópio, borboleta, magnólia
Uma canção que ecoa no interior
A palavra saboreada como arte
O nome de alguém para depois chamar amor.
Os grandes nomes da História
Gravados nas armas da pedra secular
Numa vénia nos dobramos a honrar
Ou lutamos, questionando sua glória.
Mas os nomes e o sangue: tudo parece pesar!
Seja rei ou marinheiro feito ao mar
Dizem que herdamos das estrelas nossas veias
Que o passado nos apanha em suas teias.
Nome, estirpe, marcação de um ponto
Porto seguro, amor despido, protecção
Ou será grade, fenda, muralha, subtil prisão,
Tentáculos de polvo, estranhos num encontro?
Como Capuletos e Montecchios: são dois nomes!
E assim se dividem sempre as gentes
E as almas onde ficam? Uma voz a perguntar
Se “Toda essa gente já desapareceu, nem uma para semente.”
Capuletos e Montecchios são dois nomes
Em duas almas a querer se transformar
E são tudo, laços, destino, noite, alvorada
São nomes, são tudo e não são nada.
Beleza, matéria, poema em verso
Feito de todas as partículas do Universo
Por que chamar, a que apontar
O que tocar, por quem chorar.
Caleidoscópio, borboleta, magnólia
Uma canção que ecoa no interior
A palavra saboreada como arte
O nome de alguém para depois chamar amor.
Os grandes nomes da História
Gravados nas armas da pedra secular
Numa vénia nos dobramos a honrar
Ou lutamos, questionando sua glória.
Mas os nomes e o sangue: tudo parece pesar!
Seja rei ou marinheiro feito ao mar
Dizem que herdamos das estrelas nossas veias
Que o passado nos apanha em suas teias.
Nome, estirpe, marcação de um ponto
Porto seguro, amor despido, protecção
Ou será grade, fenda, muralha, subtil prisão,
Tentáculos de polvo, estranhos num encontro?
Como Capuletos e Montecchios: são dois nomes!
E assim se dividem sempre as gentes
E as almas onde ficam? Uma voz a perguntar
Se “Toda essa gente já desapareceu, nem uma para semente.”
Capuletos e Montecchios são dois nomes
Em duas almas a querer se transformar
E são tudo, laços, destino, noite, alvorada
São nomes, são tudo e não são nada.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Guardei uma praia no fundo de um frasco de vidro com tampa
A praia pegou fogo
O sol deixou o céu azul
Alaranjado
As chamas de fim de tarde
Pintaram o areal.
O mar cantou uma canção para mim
Dancei com as ondas
Embalada pelas marés.
Mergulhei com as baleias brancas
Flutuei com as algas
Hesitando
Entre o destino da areia
Certo
E a linha do horizonte
Ao fundo
Onde se escondem as sereias e os capitães
Outras praias e outras coisas
Que não vejo.
Quis agarrar o momento
Como se faz a um punhado de areia nas mãos
Mas desfazia-se, todas as vezes,
Como a espuma que quebra nos rochedos
E desaparece
Como só num sonho pode ser.
Mas eu teimei.
Trouxe o salitre
Agarrado à minha pele
Trouxe o tom doirado
Dos raios límpidos da tarde
Do sol que me aqueceu a infância.
Trouxe os pedaços das conchas
Que o mar esculpiu
E búzios
Para me cantarem a canção do mar
Junto ao ouvido
Nas tardes longas e húmidas
Do Inverno da minha vida.
Guardei pedaços de uma praia
No fundo de um frasco de vidro.
E tapei-o.
Mas as coisas nunca são como as sentimos.
Na praia deixei,
Espalhados,
Restos de mim.
Por entre os cactos nas dunas,
Na ponta do anzol
Dos pescadores
Que se abrigam nas rochas,
Nas pegadas da areia
Que o mar escondeu,
No voo das gaivotas
Assustadas,
Em cada pôr-do-sol,
No riso das crianças,
No fundo de um balde
De caranguejos, lapas e mexilhões.
A vida é feita de pedaços.
De papel
De palavras
De pessoas
De encontros e desencontros
De música, vento e sal
De outras coisas
De lugares
De uma praia como esta.
Deixei o meu coração na praia
Que chorou por mim
No orvalho das manhãs frias e distantes.
Guardei a praia num frasco
Para não me perder de mim.
Por vezes,
Olho-a na estante,
Apertada no vidro do frasco com tampa,
Mas não me encontro.
É que afinal:
Mergulhei,
Agarrei,
Trouxe pedaços da praia comigo
Que guardei no fundo de um frasco de vidro com tampa,
Mas deixei lá
Nessa praia
Fragmentos de mim
Também.
É na linha do horizonte
De um céu rosado de final de tarde
Que estão guardados
Todos os sonhos da minha alma.
Elza
Obrigada Nuno, o outro, e Raquel, e José, e afinal, também, todos os outros poetas deste blog, por me terem inspirado a "poesiar" sobre um "lugar especial" muito meu. Obrigada Ana Luisa por ser o grande motor deste grupo de poetas e projecto de poetas e, sobretudo, de ensinar, e de ensinar a descobrir! (Ponto de exclamação, sem dúvida, e reticências, mas só imaginárias, para mim, por tudo aquilo que gostaria de escrever, mas fica ainda por dizer.)
O sol deixou o céu azul
Alaranjado
As chamas de fim de tarde
Pintaram o areal.
O mar cantou uma canção para mim
Dancei com as ondas
Embalada pelas marés.
Mergulhei com as baleias brancas
Flutuei com as algas
Hesitando
Entre o destino da areia
Certo
E a linha do horizonte
Ao fundo
Onde se escondem as sereias e os capitães
Outras praias e outras coisas
Que não vejo.
Quis agarrar o momento
Como se faz a um punhado de areia nas mãos
Mas desfazia-se, todas as vezes,
Como a espuma que quebra nos rochedos
E desaparece
Como só num sonho pode ser.
Mas eu teimei.
Trouxe o salitre
Agarrado à minha pele
Trouxe o tom doirado
Dos raios límpidos da tarde
Do sol que me aqueceu a infância.
Trouxe os pedaços das conchas
Que o mar esculpiu
E búzios
Para me cantarem a canção do mar
Junto ao ouvido
Nas tardes longas e húmidas
Do Inverno da minha vida.
Guardei pedaços de uma praia
No fundo de um frasco de vidro.
E tapei-o.
Mas as coisas nunca são como as sentimos.
Na praia deixei,
Espalhados,
Restos de mim.
Por entre os cactos nas dunas,
Na ponta do anzol
Dos pescadores
Que se abrigam nas rochas,
Nas pegadas da areia
Que o mar escondeu,
No voo das gaivotas
Assustadas,
Em cada pôr-do-sol,
No riso das crianças,
No fundo de um balde
De caranguejos, lapas e mexilhões.
A vida é feita de pedaços.
De papel
De palavras
De pessoas
De encontros e desencontros
De música, vento e sal
De outras coisas
De lugares
De uma praia como esta.
Deixei o meu coração na praia
Que chorou por mim
No orvalho das manhãs frias e distantes.
Guardei a praia num frasco
Para não me perder de mim.
Por vezes,
Olho-a na estante,
Apertada no vidro do frasco com tampa,
Mas não me encontro.
É que afinal:
Mergulhei,
Agarrei,
Trouxe pedaços da praia comigo
Que guardei no fundo de um frasco de vidro com tampa,
Mas deixei lá
Nessa praia
Fragmentos de mim
Também.
É na linha do horizonte
De um céu rosado de final de tarde
Que estão guardados
Todos os sonhos da minha alma.
Elza
Obrigada Nuno, o outro, e Raquel, e José, e afinal, também, todos os outros poetas deste blog, por me terem inspirado a "poesiar" sobre um "lugar especial" muito meu. Obrigada Ana Luisa por ser o grande motor deste grupo de poetas e projecto de poetas e, sobretudo, de ensinar, e de ensinar a descobrir! (Ponto de exclamação, sem dúvida, e reticências, mas só imaginárias, para mim, por tudo aquilo que gostaria de escrever, mas fica ainda por dizer.)
domingo, 23 de novembro de 2008
1º Trabalho de Casa II - Renascer
Ecoam gritos de nós no silêncio
E a luz que nos rodeia é como grades
O sol mergulhou ao fundo nas águas
Escondeu-se
Como eu de ti.
As sombras crescem
Levam-me para longe de nós
A natureza lá fora adormecida
É testemunha
Até a voz do mar se torna exílio.
Quero correr para ti
Mas…
O meu amor não tem
Importância nenhuma
E nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos.
Agarro-me a essa muleta que é o tempo
Que tudo cura, tudo desfaz
E perco-me na imensidão do escuro
Aguardo o passar das horas
Esse remédio
Adormeço.
A luz do sol ergueu-se, límpida
Cravou-se em mim
Não sei onde estás
Mas eu renasço
O meu olhar é nítido como um girassol
Enterro os pés nos grãos de areia das dunas
Caminho sem destino
Sem ti, sem mim
Caminho,
Sorrindo
Recusando o que é desfeito
No interior do meu peito.
E a luz que nos rodeia é como grades
O sol mergulhou ao fundo nas águas
Escondeu-se
Como eu de ti.
As sombras crescem
Levam-me para longe de nós
A natureza lá fora adormecida
É testemunha
Até a voz do mar se torna exílio.
Quero correr para ti
Mas…
O meu amor não tem
Importância nenhuma
E nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos.
Agarro-me a essa muleta que é o tempo
Que tudo cura, tudo desfaz
E perco-me na imensidão do escuro
Aguardo o passar das horas
Esse remédio
Adormeço.
A luz do sol ergueu-se, límpida
Cravou-se em mim
Não sei onde estás
Mas eu renasço
O meu olhar é nítido como um girassol
Enterro os pés nos grãos de areia das dunas
Caminho sem destino
Sem ti, sem mim
Caminho,
Sorrindo
Recusando o que é desfeito
No interior do meu peito.
Poesia de grupo
O meu olhar é nítido como um girassol
Olhando o sol a divertir-se
Iluminando o campo docemente
E em mim correndo como a lua.
É olhar translúcido, e não te vê.
Há montes e vales e planícies,
Há nascentes e rios e mares de prata
Onde os girassóis se banham com o sol
Na nitidez pintada da aguarela.
Vieste assim da cor que te pintei
Olhando para mim como ao sol o girassol
E eu fitei-te no meu deslumbramento.
Elza G.D. e José Almeida Silva
Olhando o sol a divertir-se
Iluminando o campo docemente
E em mim correndo como a lua.
É olhar translúcido, e não te vê.
Há montes e vales e planícies,
Há nascentes e rios e mares de prata
Onde os girassóis se banham com o sol
Na nitidez pintada da aguarela.
Vieste assim da cor que te pintei
Olhando para mim como ao sol o girassol
E eu fitei-te no meu deslumbramento.
Elza G.D. e José Almeida Silva
domingo, 16 de novembro de 2008
Quando eu era árvore

Macieira em flor Foto LGD
Quando eu era árvore
Já fui tristonha, Chorão
E os meus longos cabelos
A água tocavam
Deitava-lhe os segredos
Do meu coração.
Já fui esbelta, elegante, verde, Álamo
E ao vento, vaidosa,
Gostava de acenar
Desde a margem do ribeiro
Que a meus pés
Saltitava a refrescar.
Já fui Vinha Virgem, escarlate
Nos Outonos ocres
Que passaram
Agarrada às pedras dos muros
Que os antigos
Empilharam.
Já fui Macieira rosada de flores mil
Verguei-me carregada dos frutos
No Estio
E também fiquei despida de sonhos
Nos tempos tristonhos
Do frio.
Já fui Oliveira verde, cinza, de prata
Dei azeite, bênçãos, fertilidade
E coroas de adornar
Robusta, escutei
Os cantares
De roda dos meus troncos
Seculares.
Mas o Homem me trocou
Pela cidade do asfalto
Das torres que apontam o céu
Do fumo, das máquinas, do cimento
De mim se esqueceu
Cansou de regar-me, abateu-me,
A árvore morreu.
Faltou-me ser Pinheiro, Carvalho robusto
Cedro, Citrino, Japoneira em flor
Outras tantas…
Não, não quero ser mais árvore!
Gritei!
Cansei!
Hum…
Talvez ainda deseje ser árvore…
Adornada, em flor,
Exaltação, metáfora,
Belo nome, sugestão, tema
Talvez ainda deseje ser Magnólia
Inspirar o amor,
O poeta, um poema.
Elza
Isto foi um fim de semana de criação campestre para mim. Espero que possam saborear estas árvores que amanhã já é Segunda feira do asfalto outra vez. Boa semana!
Ainda sobre o tempo...
Ao ler o texto do Nuno sobre o 'tempo', e depois a reflexão com que concordo - os nossos poemas, tão distintos e únicos, são como as cerejas ("o nosso mar inspira outros mares"), e que bom ver que é assim - desencantei uma pequena reflexão sobre o 'tempo' há algum tempo pensada. A ideia é distinta, mas é sobre o 'tempo'. Digamos... É também "um outro olhar"... Aqui o partilho convosco.
E ali estava eu, crescida. O relógio a dar horas logo cedo de manhã. A corrida para o trabalho, sozinha no carro, tentando que a melodia do rádio me distraísse do fumo e da confusão lá fora. Depois, o dia, passando. Com as folhas de papel enchendo-se de orçamentos exigentes. E as carantonhas cinzentas que se passeiam para lá e para cá, trocando impressões, cumprindo metas, sem nunca parar para pensar onde isso as vai levar. Mas há que continuar! O mundo avança, o lápis e a folha de papel que se saboreavam como uma brisa suave dão lugar ao computador e a uma valente dor de cabeça. Mas não se pode parar. No final do dia, o Multibanco. Uma vez mais os números e as responsabilidades. A conta da água, da luz, da internet, da ordem… E depressa! Que há que continuar a correr para fazer o jantar a horas. Para as crianças. Onde andariam? Não as vi no quarto. Nem as encontrei na sala. Abri a janela e por fim, ao fundo, ouvi os gritos alegres… No fim da avenida, de terra batida, jogava-se ao pião, enquanto tudo o mais era ilusão.
Elza
(Obrigada São e 'Escrever Escrever' pois foram vocês as primeiras cerejas que provei neste caminho...)
sábado, 15 de novembro de 2008
Debaixo da buganvília
Duas almas se tocaram
Há longo, longo tempo
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num jardim de sonhos e melaço.
Duas almas esvoaçaram
Dançando ao vento
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num eterno e doce abraço.
Promessas e juras de amor
Promessas que a brisa levou
Debaixo da buganvília
Que crescia
Nada ficou.
Mas ainda separadas pela dor
Duas almas não deixaram de sonhar
Debaixo da buganvília
Que crescia
De voltarem um dia a se encontrar.
Elza (Pi)
Há longo, longo tempo
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num jardim de sonhos e melaço.
Duas almas esvoaçaram
Dançando ao vento
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num eterno e doce abraço.
Promessas e juras de amor
Promessas que a brisa levou
Debaixo da buganvília
Que crescia
Nada ficou.
Mas ainda separadas pela dor
Duas almas não deixaram de sonhar
Debaixo da buganvília
Que crescia
De voltarem um dia a se encontrar.
Elza (Pi)
Soneto de Sentir
Tracei a laranja no pomar teu
Bebi o sumo que dela jorrou
Olhava esperançada o azul do céu
Mas sabor algum minha boca encontrou.
Molhei o corpo na bica de água
Que corre fresca da mina sem parar
Mas minha pele nada se arrepiava
E minh’ alma teimava cristalizar.
No meio dos livros encadernados
Por entre tuas estantes e quadros
Deixei-me estar buscando uma verdade.
Uma folha de papel então eu vi
A mão segurou o lápis e escrevi
Apenas o teu nome, senti saudade.
Elza (Pi)
Bebi o sumo que dela jorrou
Olhava esperançada o azul do céu
Mas sabor algum minha boca encontrou.
Molhei o corpo na bica de água
Que corre fresca da mina sem parar
Mas minha pele nada se arrepiava
E minh’ alma teimava cristalizar.
No meio dos livros encadernados
Por entre tuas estantes e quadros
Deixei-me estar buscando uma verdade.
Uma folha de papel então eu vi
A mão segurou o lápis e escrevi
Apenas o teu nome, senti saudade.
Elza (Pi)
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Ela é bailarina
Ela é bailarina
Na rua olham-na delgada e fina
Os ossos quase lhe rasgam a pele
Lisa e translúcida que lhe veste o peito.
No palco os mesmos olhares
Vêem-na bonita.
Traz o pescoço esguio desnudo
Vestiu o fato coleante e o tule
Flutua num pas de deux com doçura
Com seu par forte que a segura.
É um cisne riscando as águas do palco
Esbelto.
Mil luzes e cores a fixam ao centro
Como numa tela colorida de Degas
Num ensaio mágico e luminoso de um bailado.
E ao som ora doce ora furioso de Tchaikovsky
Rodopia em mil piruetas sem fim
No palco, como na vida.
Leva toda a dor do seu coração
Oculta na ponta de gesso da sapatilha
Rosada de cetim a brilhar.
Traz um sorriso na face e os olhos de cristal
Absorvem os aplausos
Dobra-se enfim
Numa vénia.
É o último instante em palco
E o veludo escuro vai fechar-se
É arte sua vida tão dura?
Do outro lado do pano o vazio,
A solidão, uma lágrima, uma noite sem cor.
Em nós o coração a transbordar
Ela é bailarina
Deixou-nos um conto, mil sonhos
Pedaços de amor.
Elza
Na rua olham-na delgada e fina
Os ossos quase lhe rasgam a pele
Lisa e translúcida que lhe veste o peito.
No palco os mesmos olhares
Vêem-na bonita.
Traz o pescoço esguio desnudo
Vestiu o fato coleante e o tule
Flutua num pas de deux com doçura
Com seu par forte que a segura.
É um cisne riscando as águas do palco
Esbelto.
Mil luzes e cores a fixam ao centro
Como numa tela colorida de Degas
Num ensaio mágico e luminoso de um bailado.
E ao som ora doce ora furioso de Tchaikovsky
Rodopia em mil piruetas sem fim
No palco, como na vida.
Leva toda a dor do seu coração
Oculta na ponta de gesso da sapatilha
Rosada de cetim a brilhar.
Traz um sorriso na face e os olhos de cristal
Absorvem os aplausos
Dobra-se enfim
Numa vénia.
É o último instante em palco
E o veludo escuro vai fechar-se
É arte sua vida tão dura?
Do outro lado do pano o vazio,
A solidão, uma lágrima, uma noite sem cor.
Em nós o coração a transbordar
Ela é bailarina
Deixou-nos um conto, mil sonhos
Pedaços de amor.
Elza
domingo, 26 de outubro de 2008
Carlos em sintonia com Julieta (Desconstrução)
Com o cansaço colado ao meu corpo, termino finalmente de arrumar a cozinha. Nas dobras da banca, repleta, repousam os tachos e os pratos já limpos, reluzentes. No mármore, ao lado, os dois copos ainda tingidos do liquido vermelho, morno e denso que há pouco degustamos juntos. Deixei-os ali propositadamente. Na esperança de que, depois do esgotamento de um dia em cheio, para ambos, as últimas gotas, saboreadas a dois, pudessem levar para longe as cargas que carregamos. Percorro o corredor, com passadas largas, em busca de ti. Já oiço, vindas do fundo, as gargalhadas que dão a dois, tu e essa cabeça farta de caracóis que fizemos juntos, numa alegria desprendida que só uma história imaginária de final de dia, inventada por ti, pode dar. Espreito-vos, tão cúmplices. Por instantes, invejo-vos. Mas, não. O que sinto é ternura e um desejo imenso de me juntar a ambos. Pressentem-me. Sorrisos. Já estou convosco. A teu lado, tão junto dos teus cabelos sedosos, olhando contigo essa coisa tão doce que sorri para nós e teima em não adormecer. Vou diminuindo a luz, de mansinho, e finalmente o silêncio invade o quarto. Saímos. Do lado de lá da porta, nada se ouve. Entre nós continuam as risadas soltas e cúmplices. Da história que inventaste hoje e que agora também partilhas comigo. Afinal, a nós adultos também nos faz bem, depois do peso de um dia de trabalho, das contas para pagar e dos esforços que fazemos para não deixar que o mundo nos engula, imaginar que os tubarões têm asas ou que as cigarras podem cantar rock n’ roll. Talvez seja também um pouco o efeito desse liquido que partilhámos até os copos ficarem definitivamente vazios. Ou mesmo porque, como de tantas outras vezes, ao olharmo-nos, nos olhos um do outro, nos redescobrimos. Sempre. És de mim. Sou de ti. (E aqui, obrigada à professora Ana Luísa por esta dica, e uma concordância com a Teresa, a língua portuguesa dificilmente nos deixará livres destes “estereótipos”/distinções: ele/ela, dele/dela, és minha/és meu, sou tua/sou teu… Bem, de volta ao Carlos em sintonia com Julieta…) Perdemo-nos no escuro da noite que inunda o nosso quarto. Nas sombras, na luz do luar. Para trás fica a carga do dia, a cozinha já arrumada por qualquer um de nós, a história contada… Existimos só tu e eu, a nossa pele, os nossos corpos, as nossas almas. Que são como uma só. Somos diferentes, mas iguais. [Um aparte: Por acaso, há um de nós que, depois de muito ter lutado, já pode alternar saias com calças, conforme lhe apetecer, e o outro, curiosamente, o que supostamente pode tudo, ainda só pode usar calças!? (E ainda bem!!! Digo eu, Elza, eheh…)]. De súbito, a porta abre-se. Um pesadelo de criança dá direito a que se aninhe na nossa cama esse monte de caracóis suaves que é já uma outra parte de nós. Hoje, afinal, a nossa união parece terminar por aqui. Mas, ao olhar-te assim, apenas à distância de um outro corpo tão pequeno que é nosso e já dorme outra vez, com um semi sorriso nos lábios, mergulho fundo no teu olhar e sinto que fazes o mesmo em mim. Partilhámo-nos de uma forma distinta, esta noite. Perco-me em ti. Perdes-te em mim. Perdemo-nos em mil pensamentos concordantes que este longo caminho percorrido a dois, agora a três, tantas vezes amargo, tantas outras delicioso, nos faz partilhar. O meu olhar profundo navega na tua alma tão bela que também mergulha intensa em mim. Já não sinto o cansaço e o peso deste dia. E o meu desejo de ti está satisfeito. Não há qualquer outro lugar do mundo onde deseje estar, mais do que aqui, a teu lado.
Carlos em sintonia com Julieta
Carlos em sintonia com Julieta
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Trabalho de grupo poético
Perdi-me dentro de mim
porque eu era labirinto
Por entre caminhos torpes
Pelas dúvidas que sinto
Peguei nas minhas amarras
E desfi-las para ti
Estou perdido mas sou livre
Podes levar-me daqui
E liberto-me de mim
Para me entregar a ti
Labirinto que senti
Já não sinto, já fugi
Nem sou meu nem de ninguém
Sou apenas um caminho
Esvoaço pelo mundo
Onde estou, estou sózinho.
Céu, Raquel e Elza
porque eu era labirinto
Por entre caminhos torpes
Pelas dúvidas que sinto
Peguei nas minhas amarras
E desfi-las para ti
Estou perdido mas sou livre
Podes levar-me daqui
E liberto-me de mim
Para me entregar a ti
Labirinto que senti
Já não sinto, já fugi
Nem sou meu nem de ninguém
Sou apenas um caminho
Esvoaço pelo mundo
Onde estou, estou sózinho.
Céu, Raquel e Elza
terça-feira, 21 de outubro de 2008
É como um fio de uma teia de aranha
É como um fio de uma teia de aranha
Fino, frágil, quase imperceptível
A que te agarras inconscientemente
E eu quieta, observo-te, impotente.
Observo-te com atenção e é incrível
O corpo quase inerte ali deitado
E eu a ver-te, sentada a teu lado.
É como um fio de uma teia de aranha
Quase flutuas, magro, alvo e transparente
A tua respiração é tão leve e tão fina
E transporto-me ao passado, de repente
Sou de novo a tua menina.
Bonecas, guarda-chuvas de chocolate,
Viagens, loucura, comboios eléctricos,
Bicicletas, estórias, uma sinfonia
E de volta ao presente eu sufoco
Nesta dor de te perder, nesta agonia.
O lençol imperceptível sobe e desce
A cada vez mais ténue e esbatido
E a frágil teia que o meu imaginário tece
Flutua como o vento, cresce, cresce
E o medo que me esmaga e enlouquece
Que eu não quero que tudo fique partido.
Mas é tão frágil e uma lágrima já sinto a escorrer
Sei que essas pausas vão ficando mais espaçadas
Teu coração quase não sinto a bater.
Fecho os olhos e procuro te agarrar
Mas a teia é tão frágil, vai quebrar!
E quando te abraço e sussurro bem do fundo:
Que te adoro, Pai, fica comigo…
Mas o fio da teia está partido
E tu, Pai, já não és mais deste mundo.
Elza
Fino, frágil, quase imperceptível
A que te agarras inconscientemente
E eu quieta, observo-te, impotente.
Observo-te com atenção e é incrível
O corpo quase inerte ali deitado
E eu a ver-te, sentada a teu lado.
É como um fio de uma teia de aranha
Quase flutuas, magro, alvo e transparente
A tua respiração é tão leve e tão fina
E transporto-me ao passado, de repente
Sou de novo a tua menina.
Bonecas, guarda-chuvas de chocolate,
Viagens, loucura, comboios eléctricos,
Bicicletas, estórias, uma sinfonia
E de volta ao presente eu sufoco
Nesta dor de te perder, nesta agonia.
O lençol imperceptível sobe e desce
A cada vez mais ténue e esbatido
E a frágil teia que o meu imaginário tece
Flutua como o vento, cresce, cresce
E o medo que me esmaga e enlouquece
Que eu não quero que tudo fique partido.
Mas é tão frágil e uma lágrima já sinto a escorrer
Sei que essas pausas vão ficando mais espaçadas
Teu coração quase não sinto a bater.
Fecho os olhos e procuro te agarrar
Mas a teia é tão frágil, vai quebrar!
E quando te abraço e sussurro bem do fundo:
Que te adoro, Pai, fica comigo…
Mas o fio da teia está partido
E tu, Pai, já não és mais deste mundo.
Elza
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